Brasil vê ‘boom’ de praticantes e fãs do futebol americano

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A Seleção Brasileira fez sua primeira participação na Copa do Mundo de Futebol Americano em 2015 (Foto: Confederação Brasileira de Futebol Americano / Divulgação)

No ano da primeira Olimpíada na América do Sul, um esporte que sequer participa do evento caiu nas graças do público brasileiro nos últimos anos. Trata-se do futebol americano , principal esporte dos Estados Unidos e que cresce tanto em audiência quanto em praticantes no Brasil.

As evidências para o sucesso da bola oval por aqui são várias. O Ministério do Esporte perguntou aos seus seguidores no Facebook, que tem mais de 300 mil curtidas, qual era o esporte do verão. Vitória do futebol americano.

Outro número que comprova esse sucesso é a audiência das partidas da NFL. Segundo dados do Ibope, mais de 500 mil pessoas passaram pelo canal ESPN para acompanhar a vitória dos Patriots no Super Bowl 49, no ano passado. Um aumento de 84% em relação à transmissão em 2014. O engajamento dos fãs durante os jogos também é um destaque. Não é raro ver as hashtags dos canais ESPN e Esporte Interativo, donos dos direitos de transmissão da NFL no Brasil, entre os assuntos mais comentados no Twitter.

Para Antony Curti, comentarista da ESPN, o processo de sucesso da NFL por aqui se assemelha ao do futebol no século passado. “Os dois tratam de algo que é inerente ao ser humano: a conquista do território. Você quer ver seu time avançar no gramado e chegar até o gol. No futebol americano você quer ver seu time avançar e chegar até à ‘end zone’ para fazer o touchdown. É algo que mexe com as pessoas. Não à toa os três ‘futebois’ são os esportes, em conjunto, mais populares do mundo (futebol americano nos EUA, rugby nos países colonizados pela Inglaterra e o futebol no resto do mundo)”, afirma o comentarista.

Outro fator que atrai o torcedor brasileiro para a NFL é a organização da liga, em detrimento do que é visto no nosso próprio campeonato de futebol. A afirmação é do diretor de marketing da Confederação Brasileira de Futebol Americano (CBFA), Fernando Fleury. “Além do trabalho sensacional feito pelas emissoras, que criam uma cultura nacional para o esporte, um dos fatores que explicam o sucesso do futebol americano por aqui são as constantes comparações do modelo da NFL, e outras ligas americanas, com o modelo do futebol brasileiro. As ligas americanas, especialmente a NFL, vendem uma plataforma de entretenimento que influenciam o torcedor a vivenciar cada vez mais o esporte”, afirma.

Empurrãozinho da TV

A relação da TV brasileira com o futebol americano não é tão recente quanto parece. Luciano do Valle foi o responsável pelas primeiras transmissões da NFL na TV Bandeirantes, no começo dos anos 1990. O sucesso do esporte por aqui veio mesmo mais de 20 anos depois, mas, ainda assim, é preciso encontrar um equilíbrio entre o fã de longa data e o novato, que ainda tenta entender um jogo tão complexo, como explica Curti.

“Um ‘truque’ que encontrei foi colocar um ‘post-it’ com a palavra ‘por quê?’ em minhas anotações. Praticamente tudo o que falo, tento contextualizar. Não adianta falar ‘fulano correu em média para 3,5 jardas por carregada’ sem dizer o contexto disso ou se isso é bom ou ruim. O mesmo para uma imagem, no replay eu tento fazer a análise tática de maneira a explicar porque deu certo ou errado. Isso acaba sendo importante e agrega tanto quem sabe o básico e tanto quem sabe bastante”, conta.

Crescimento no Brasil

Assim como outros esportes que se destacam, o caminho natural do futebol americano no Brasil foi o surgimento de atletas, equipes e público nos jogos. Com seletivas lotadas e aumento no número dos times, o Torneio Touchdown, um dos principais campeonatos de futebol americano no Brasil, comemora o crescimento de interessados nas seletivas e aumento no número de times.

“Atualmente estamos com 16 equipes, representando 8 Estados diferentes. No último ano, durante a temporada regular (fase classificatória), uma média de 1.000 a 1.500 pessoas acompanharam os jogos. Nos playoffs, essa média sobe em alguns estados, como por exemplo no sul do país. Já em nossa última final, conseguimos levar um público próximo dos 5.000 pagantes na vitória do Timbó Rex (de Santa Catarina) em cima do Vasco da Gama Patriotas”, conta o assessor de imprensa do Torneio Touchdown, Jayson Braga.

Uma das provas do sucesso dos torneios nacionais foi o recorde de público alcançado pelo time mato-grossense Cuiabá Arsenal em novembro de 2015. Cerca de 14 mil pessoas acompanharam a final da Superliga Centro-Sul na Arena Pantanal. O público foi o segundo melhor no ano no estádio, perdendo apenas para o clássico Flamengo x Vasco, pelo Campeonato Brasileiro de Futebol.

Temos uma Seleção Brasileira de Futebol Americano!

O ano de 2015 foi positivo para a Seleção Brasileira de futebol americano. Os “onças”, como é apelidada a equipe, alcançou uma classificação inédita para a Copa do Mundo deste esporte. No torneio, o Brasil ficou com o último lugar na classificação, com duas derrotas e uma vitória em cima da Coreia do Sul por 28 a 0, porém apenas a participação já é considerada um marco para o esporte.

“Hoje já colhemos os frutos de um trabalho realizado nos últimos dez anos por gente espalhada por todo Brasil. Esse trabalho permitiu que no ano passado pudéssemos levar a Seleção para sua primeira participação na Copa do Mundo de Futebol Americano. Coisa que para um esporte amador é muito complicado. Eu já tive o prazer de trabalhar em diversos eventos e times profissionais, dos mais variados esportes, mas nunca havia visto uma união tão grande. O resultado disso era uma vontade gigante de representar bem o país. Olhar nos olhos dos atletas e comissão técnica era enxergar paixão e orgulho de serem brasileiros, de estarem lá”, destaca Fleury.

Realizada em Ohio, berço da NFL nos Estados Unidos, a Copa do Mundo foi um marco para atletas que se dedicam a prática de um esporte que, apesar do crescimento de público, ainda beira o amadorismo no Brasil.

Dificuldades x sonho

“Você vê um super-herói num filme e quer ser como ele. Você se apaixona pelo futebol americano e quer ser como Tom Brady, Peyton Manning. A grande diferença é que, na minha concepção, os heróis aqui no Brasil são essas pessoas. Muitas pagam para jogar, compram os equipamentos do próprio bolso, pagam mensalidade nos times. Fora os sacrifícios pessoais, de não poder ir pra balada de sábado porque tem treino domingo. Admiro imensamente essas pessoas que jogam aqui no Brasil”, afirma o comentarista Antony Curti.

Fazer com que mais fãs da NFL se atraiam também pelo futebol americano nacional é um dos principais desafios da CBFA para os próximos anos. Assim como todo esporte, apresentar a prática para crianças, através do Flag Football (um modelo de jogo sem contato físico) é uma das prioridades nos planos da Confederação para disseminar a prática.

“Queremos levar o futebol americano para as escolas públicas. É um dos projetos que levamos ao Ministério do Esporte e todos gostaram bastante da ideia. O flag é a iniciação para o FA nos Estados Unidos e prioriza o movimento, a agilidade, o treino, e principalmente a hierarquia e o respeito aos adversários, juízes e técnicos. A disciplina é a chave deste esporte, e poder passar isso é o grande objetivo ao tentar incluir essa modalidade nas escolas publicas de todo o país”, conta Fleury.

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