Eleições 2018: PSDB pode pedir desculpas e se reinventar ou dar guinada à direita e desaparecer, diz cientista político

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Mesmo com resultado ruim nas eleições, o futuro do PSDB pode ser bom, acredita o cientista político José Álvaro Moisés. O partido precisaria apaziguar brigas internas, pedir desculpas por seus erros e ir às ruas para falar com a população, mas uma reconstrução seria possível.

Haveria, no entanto, um entrave: João Doria.

Para o professor da USP, que foi um dos fundadores do PT e integrou o governo Fernando Henrique Cardoso, o candidato do PSDB ao Estado de São Paulo tem atitudes pouco democráticas, como a de declarar apoio a Jair Bolsonaro (PSL) antes de uma decisão coletiva do partido.

Sua ascensão, pondera, poderia levar ao desaparecimento da sigla como ela é hoje, fazendo-a caminhar para cada vez mais para a direita.

“Não faz sentido imaginar que, pelo fato de ter adquirido muita força na campanha e eventualmente ser eleito, ele (Doria) possa impor sua vontade unilateralmente ao partido. Isso seria um desastre. Aí, sim, é a profecia do (fundador do PSDB) Bolívar Lamounier, aí seria funesto.”

Na terça-feira, a legenda anunciou que não apoiará nenhum dos candidatos ao segundo turno da eleição presidencial. Na reunião da Executiva Nacional, Doria reafirmou sua fidelidade a Bolsonaro.

Houve também um desentendimento entre o empresário e seu padrinho político e candidato derrotado à Presidência, Geraldo Alckmin. O último teria dito que não era “traidor”, alfinetando o pupilo por seu aceno ao capitão reformado ainda no primeiro turno. O episódio evidenciou o racha entre os tucanos.

Segundo Moisés, o fortalecimento do grupo de Doria conduziria o PSDB para a direção oposta à que ele considera ideal, de autocrítica e revisão de rumos. Autor de três livros sobre a democracia brasileira, o professor defende que a legenda assuma um papel de moderação entre os extremos, ajudando a combater a violência que cresce no cenário político do país.

Leia abaixo os principais trechos da entrevista.

BBC News Brasil – O que achou da decisão do Comando Nacional do PSDB de liberar os filiados para apoiar qualquer um dos candidatos no segundo turno?

Moisés – Talvez neste momento seja a melhor decisão, tendo em vista que há uma divisão interna muito forte. Isso vai permitir que algumas lideranças definam melhor sua posição.

BBC News Brasil – Um dos fundadores do PSDB, Bolívar Lamounier disse em entrevista recente que, após as eleições, o partido enfrentará um longo “período fúnebre”, por causa dessas rixas. Você concorda?

Moisés – Não sei se será um período fúnebre, mas certamente será um período de muita discussão interna, de controvérsia, e espera-se que seja um período também em que o partido tenha capacidade de fazer uma autocrítica, uma avaliação de seu desempenho.

Não só nessa eleição, mas no período recente, que vem desde 2014.

O PSDB desempenhou um papel muito importante no Brasil. Estou entre as pessoas que acham que no espectro político ideológico brasileiro, que agora tem uma direita expressiva, é importante ter um partido como o PSDB que, ao mesmo tempo, tenha um pé no mercado e uma preocupação social.

E que ofereça uma alternativa para as posições que estão nos extremos de direita e de esquerda. Mas, para isso, o PSDB vai ter que passar por uma profunda fase de reavaliação para entender onde o partido se desconectou dos eleitores a ponto de chegar ao resultado que seu candidato teve na eleição presidencial, de 4% dos votos.

Para um partido que esteve duas vezes na Presidência e por um período muito longo em São Paulo, não faz sentido. Esse resultado indica que houve falhas importantes.

BBC News Brasil – Que tipo de falhas?

Moisés – O PSDB teve um comportamento errático, por exemplo, com o governo Temer.

Embora ele tenha apoiado o impeachment, em determinado momento houve uma discussão interna sobre se deveriam participar do governo ou não. Prevaleceu a ideia de participar inicialmente, e depois uma parte do PSDB saiu do governo, mas nunca sinalizou com clareza qual era sua posição. Isso confundiu os eleitores e os deixou sem alternativa clara.

Seria extremamente negativo para a política brasileira, principalmente com a onda conservadora que está se expressando no país, se um partido com o conteúdo ideológico do PSDB desaparecesse.

BBC News Brasil – Você fala sobre o papel do PSDB em um cenário de extremos. Num momento em que o eleitor clama por uma “nova política”, há espaço para o PSDB?

Moisés – O espaço do PSDB tem que ser um espaço de moderação na política, de reconhecimento de que o pluralismo é central na democracia e, ao mesmo tempo, de diálogo com forças da esquerda e da direita para trabalhar em torno dos temas de interesse nacional.

As decisões que deverão ser tomadas são muito difíceis e duras, como a do ajuste fiscal, eventualmente a reforma da Previdência, são questões que vão demandar um entendimento no Congresso e na sociedade.

E, para isso, precisamos de interlocutores que sejam capazes de dialogar, que não façam apenas contraposição.

BBC News Brasil – Mas o PSDB que vemos hoje é um partido fragmentado, com o grupo de João Doria, que apoia a Bolsonaro, se fortalecendo e tentando expulsar membros, como aconteceu com Alberto Goldman. Esse partido não é o mesmo que você menciona.

Moisés – Você me perguntou o que eu achava da posição do Bolívar, para quem o partido vai entrar numa fase fúnebre. Não precisa ser necessariamente uma fase fúnebre. Pode ser uma fase de reconstrução, de reencontrar um prumo.

Agora, isso significa que, em vez de excluir pessoas como o Alberto Goldman, o PSDB tem que unificar os diferentes grupos que existem dentro do partido. Em vez de fazer uma política de divisão, é necessário uma política de união, de reconstruir a ideia de que, mesmo com posições diferentes, esses dirigentes têm algo para oferecer ao país.

Essa é a missão de um partido que pode ter um papel de equilíbrio.

BBC News Brasil – O cenário de reconstrução do partido que o senhor menciona é o ideal. Algo muda nessa projeção se João Doria for eleito no segundo turno, tornando-se o membro com cargo mais importante dentro do partido?

Moisés – Existe um risco grande de que, com a vitória de João Doria no segundo turno, em vez de se abrir espaço para um debate crítico, construtivo e capaz de retomar a origem do partido, evolua-se uma nova visão do PSDB: pragmático e mais situado à direita.

Seria uma perda para o significado que a social-democracia pode ter no Brasil.

BBC News Brasil – No caso de uma vitória do Doria, pode haver uma guinada à direita, talvez mais próxima da de Bolsonaro?

Moisés – Se ele for eleito e passar a ser a força predominante no PSDB, vejo que, talvez, em vez de autocrítica e de redefinição do partido, haja uma solução pragmática apoiada apenas nas posições que ele defende.

Por exemplo, ele anunciou um apoio ao Bolsonaro independentemente de uma decisão do partido. Ele sobrepõe decisões pessoais às do partido.

BBC News Brasil – Para você, o que isso mostra sobre Doria? O que ele pode representar para o PSDB?

Moisés – Esse gesto, de apoio ao Bolsonaro sem esperar uma decisão do partido, é uma atitude pouco democrática. Não há disposição de ouvir as pessoas de seu próprio partido que pensam diferente e aceitar uma decisão colegiada.

Um partido que pretende desempenhar um papel importante na política brasileira deve valorizar a possibilidade de tomar decisões colegiadas. Partidos dessa natureza sempre têm posições diferentes. Não existe um partido, nem à direita, nem à esquerda, que seja completamente homogêneo.

Para ter significação para diferentes segmentos do eleitorado, o partido deve tomar decisões que escutem as várias posições.

Agora, ele tomou uma decisão antes da decisão do partido. Dessa maneira, querendo sugerir que, por causa da força que adquiriu na eleição e por estar no segundo turno, pode impor sua vontade.

Isso é evidentemente antidemocrático. Assim como foi absolutamente antidemocrático o compromisso que ele assumiu com a população de São Paulo e depois descumpriu.

Ele sempre tem uma justificativa, (dizendo) que vai trabalhar melhor. Só que ele assumiu compromisso com um mandato e boa parte dos eleitores de São Paulo esperava que ele cumprisse aquela promessa.

Não era só uma promessa, era um compromisso de levar até o final a prefeitura de São Paulo. Ele não fez isso. São sinais de que falta democracia no comportamento do João Doria.

BBC News Brasil – Você acha que, como liderança do partido, ele poderia levar o PSDB para uma direção menos democrática, com menos espaço de discussão?

Moisés – Isso é difícil de dizer porque não estamos nesta situação, pelo menos não até agora, de ele estar postulando ser o dirigente do partido. Ele vai ter que colocar suas posições num contexto que envolve pessoas que pensam diferente dele. É um processo que não está definido.

O que estou dizendo é que não faz sentido imaginar que, pelo fato de ter adquirido muita força na campanha e eventualmente ser eleito, ele possa impor sua vontade unilateralmente ao partido.

Isso seria um desastre. Aí, sim, é a profecia do Bolívar Lamounier, aí seria funesto.

BBC News Brasil – Seria funesto se Doria impusesse sua vontade ao partido?

Moisés – (Se) ele tentar impor a vontade. Porque aí destrói o partido de uma vez por todas.

BBC News Brasil – Depois de o grupo de Doria tentar expulsar Alberto Goldman, o tucano citou o AI-5 e disse que “tem gente que pensa que é ditador”. O que você achou da expulsão?

Moisés – A expulsão do Alberto Goldman evidentemente foi uma sinalização de uma postura antidemocrática do grupo do Doria.

Porque, veja bem, se eles acham que o Goldman apoiou o (candidato a governador de São Paulo) Márcio França e isso representa uma deslealdade com o partido, tem que abrir um processo, a comissão de ética deve se pronunciar, e ele deve ter direito de defesa, como ocorreu em outras situações.

Sem isso, não faz sentido. Se transforma numa decisão mandatória, de predomínio antidemocrático, autocrática.

BBC News Brasil – Após um resultado ruim no primeiro turno, qual pode ser o futuro de Alckmin dentro do partido?

Moisés – A campanha do Alckmin se apoiou num diagnóstico equivocado sobre o que estava acontecendo no Brasil.

A campanha e o próprio Alckmin não souberam dar uma resposta para a extrema indignação e desconfiança da maior parte dos eleitores com os políticos, com os partidos e com tudo o que vinha acontecendo na política brasileira.

Eu esperava que o Alckmin tivesse sido mais direto, mais explícito em dizer que, se fosse eleito, teria o compromisso de não poupar seu partido cometendo práticas de corrupção, como ocorreu com o PT e com figuras do PSDB.

Não apenas dizer isso, mas indicar que caminhos adotaria para reforçar a operação Lava Jato, para dar uma resposta à indignação da população. Ele não fez isso e deixou o espaço ser ocupado por Bolsonaro.

Nem a campanha nem Alckmin entenderam com clareza a profundidade da crise brasileira e o grau profundo de nojo que um contingente grande dos eleitores passou a ter pelos políticos tradicionais. Ele deveria ter sinalizado que tinha compreendido a lição, que começou com as manifestações de 2013, e iria em outra direção. Ele não fez isso.

Daqui para frente ele precisará rever, de maneira profunda, sua carreira política. Um político que quer continuar a carreira e quer prestar um serviço ao país, com o grau de crise que temos, deve ser capaz de reconhecer publicamente seus erros.

BBC News Brasil – Uma autocrítica seria suficiente para um eleitor que quer a “nova política”?

Moisés – O PSDB, assim como outros partidos, precisa se reinventar. E esta reinvenção tem duas etapas fundamentais.

A primeira é pedir desculpas para a população brasileira pelos erros que cometeram e por envolvimento com corrupção. Isso vale para o PT também, que nunca desmentiu completamente sua responsabilidade nos casos do mensalão e do petrolão.

Precisa dizer “olha, erramos, como qualquer ser humano, mas queremos mudar”.

Em segundo lugar, o PSDB precisa fazer uma coisa que raramente fez, que é ir à sociedade. Criar laços com segmentos da sociedade, não só com a classe média, mas com a população da periferia, da área rural. E, num debate com esses segmentos, definir o que deve ser seu rumo daqui para frente.

BBC News Brasil – É sair da classe média e tentar ser mais representativo para outras camadas da sociedade?

Moisés – Um partido, como o próprio nome diz, é uma parte da sociedade. Ele tem que, de alguma maneira, ampliar essa capacidade de diálogo. Mas para isso precisa estabelecer vínculos fortes com a sociedade sob pena de não ouvir qual é o clamor das pessoas, o que as preocupa, para onde elas querem ir.

Se você levar em conta a importância que tem a internet e as redes sociais, o PSDB não se utilizou muito das redes. Mas essa porta não está fechada. Qualquer partido pode fazer isso se tiver o que propor.

O PSDB, entre outras coisas, defende o voto distrital misto e o parlamentarismo. São duas medidas de reforma política que, num certo sentido, se constituem como respostas para crises graves.

O Brasil tem um sistema de presidencialismo de coalizão que em 30 anos teve dois impeachments. Impeachment é uma coisa traumática. Ele divide a sociedade, contrapõe os partidos.

Não podemos continuar com um sistema político que só prevê esse remédio quando existe abuso do poder. Precisamos de um outro sistema no qual seja mais fácil mudar governo, mais fácil enfrentar crises. O parlamentarismo oferece uma alternativa para isso.

O PSDB precisa voltar a defender essas propostas, mas não apenas formalmente, ele tem que defender na sociedade, ir às universidades, aos bairros, aos sindicatos. Ele deve mostrar a importância dessas propostas para revalorizar o papel da política e o direito que as pessoas comuns têm de usar a política para defender seus interesses.

BBC News Brasil – Estamos falando de um cenário ideal, de reconstrução do partido. Mas num caso de fortalecimento do grupo de Doria e de uma aproximação do PSDB da direita de Bolsonaro, quais podem ser as consequências para a sigla?

Moisés – Minha avaliação é que, se for nessa direção, o partido vai correr o risco de desaparecimento.

BBC News Brasil – Deixar de existir literalmente ou como já foi um dia?

Moisés – O PSDB com a significação que eu mencionava antes, de um partido que tem uma responsabilidade de mercado, mas ao mesmo tempo tem um olho social para enfrentar as questões sociais que são próprias do capitalismo.

Isso é típico da social-democracia. Se for nessa direção que você está perguntando, o risco de desaparecimento é grande. Poderia manter o nome, mas desapareceria essa perspectiva, esse lugar próprio do PSDB na política brasileira.

BBC News Brasil – Quais seriam as consequências do desaparecimento do PSDB para a política do país?

Moisés – Poderia estimular a polarização que vimos nessa eleição.

Uma polarização muito mais difícil e complexa da que existia antes, entre PT e PSDB. Agora não é uma polarização entre PT e PSL, é uma polarização entre esquerda e direita, entre uma esquerda que cometeu erros muito graves e uma direita que vai cada vez mais numa versão da extrema direita, que tem propostas assustadas para o país.

BBC News Brasil – É uma polarização mais perigosa do que uma entre dois partidos?

Moisés – Lembraria que tivemos nesse período recente alguns sinais de reintrodução da violência na política brasileira.

Teve o assassinato da Marielle Franco, os tiros contra a caravana do Lula no Paraná, o atentado contra Bolsonaro e, nesta semana, um líder de capoeira que foi assassinado em Salvador porque votou no PT.

Tem havido nas ruas episódios de agressão contra homossexuais, ameaças contra pessoas de cor negra. São todos sinais muito negativos aparecendo com essa onda conservadora que corresponde ao resultado das eleições de domingo.

A polarização de duas posições extremas pode levar a resultados desastrosos, fratricidas, de divisão.

O PSDB tem que continuar representando uma alternativa que seja de centro, democrática, moderada, e que esteja ligada aos principais problemas enfrentados pela população.

Em particular, desemprego, segurança, qualidade de serviços públicos como educação e, ao estar ligado com esses temas, ter propostas para resolvê-los. Não pode deixar um vazio em que apenas duas posições extremas apresentam propostas. Foi o que aconteceu na campanha.

(BBC)

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