Filho de Eliza Samudio sobre morte da mãe: “Por que meu pai quis me matar?”

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“Como a minha mãe morreu?”; “Como era a voz dela?”; “Como era o cheiro dela?”; “Onde ela está enterrada?”;“Cadê o
meu pai?”; “Me mostra uma foto?”. Essas são algumas das perguntas que a mãe de Eliza Samudio, Sônia de Fátima
Marcelo da Silva Moura, 52, vem respondendo ao neto Bruninho ­­ como é chamado por ela – e que está com oito anos e
1,45 metro de altura. “Os médicos dizem que passará dos 2 metros”, conta a avó.
A modelo foi morta por asfixia e esganadura em 10 de junho de 2010. Seu corpo foi esquartejado ­­partes foram jogadas a
cães ­­ e até hoje não foi encontrado. Em 2013, o ex­namorado, o goleiro Bruno Fernandes, foi condenado a 22 anos e três
meses de prisão, por homicídio triplamente qualificado, sequestro e ocultação do cadáver. No entanto, a notícia de que o
jogador de futebol vai pedir a progressão de pena para o regime semiaberto domiciliar a partir do dia 13 de outubro,
deixando a prisão, fez com que os pesadelos de Sônia ficassem mais próximos.

“Tenho receio pelas nossas vidas. Minha e do meu neto. É uma mistura de sentimentos. Ele poderá recomeçar a vida dele,
minha filha não (assassinada com 25 anos). Mataram ela e todos seus sonhos. Não tiveram piedade. Bruninho foi largado                          ma favela e só não morreu porque não tiveram coragem de matá­lo”, relembra ela, sem conter o choro.
A dona de casa afirma não receber nenhum auxílio financeiro. “Até hoje meu neto não recebe nenhum tipo de pensão e
nem nada. Meu esposo que sustenta ele com o trabalho como tapeceiro”, diz ela, que até pouco tempo fazia salgados para
vender. O comércio informal parou, pois os custos ficaram altos para revenda.

Bruninho soube que o pai é um dos responsáveis pela morte de Eliza na semana do último Dia das Mães,
em maio. “Agora, ele sabe de tudo.” A avó estava na sala conversando com o neto – onde costumam passar boa parte da
tarde. Foi quando o garoto perguntou como a mãe tinha morrido e onde ela estava enterrada.
Orientada por psicólogas – ainda hoje, vó e neto fazem tratamento – ela devolveu a pergunta e questionou se ele tinha
escutado algo na escola ou lido sobre isso. O menino citou algumas atitudes da avó que despertaram ainda mais
curiosidade sobre sua história, como o esquivamento em falar sobre o crime na frente dele. E foi neste momento, que
Sônia abriu para o neto o crime contra Eliza, a tentativa de matá­lo, com apenas quatro meses, e o fato de não saber onde
está o corpo da filha – ele já sabia da prisão do pai, mas desconhecia o motivo.
“Vinha me preparando para esse momento há muito tempo. Mas ali, recebi um soco no estômago e comecei a chorar”,
lembra ela, que foi consolada pelo neto e questionada mais uma vez.
“Por que ele tentou me matar? Era um bebê”
A avó encerrou o assunto explicando que muitas vezes é “complicado entender o que acontece no relacionamento de
adultos”. “Deixei claro que não se tratava de um erro, mas sim um crime. Mas que ele não deveria nutrir raiva, porque na
Bíblia está escrito para honrarmos pai e mãe. Pedi que orasse pelo pai”, conta.

No início do ano, filho de Eliza soube que o pai era goleiro de futebol. “Ele começou a pesquisar sobre jogadores de
futebol, goleiros e contei. ” Na hora, pediu para ver fotos. Lembro dele passando a mão na covinha e comparando,
comentou sobre o cabelo, a cor de pele. São parecidos no jeito de caminhar, formato da nuca”, diz a avó.
Saudade de alguém que você só vê por fotos
Recentemente, ela o flagrou no quarto vendo um vídeo no YouTube. Era uma entrevista da mãe para jornal “Extra”, em
2009, contando que o pai tinha a ameaçado de morte com arma na cabeça, porque ela se negava a abortar o filho de cinco
meses, além de relatar outros episódios de agressão. “Quando entrei ouvi ele dizendo: ‘covarde’. Fui ver o que era”, conta
Sônia, que quis saber o motivo dele procurar o material. “Para ouvir a voz dela, mãe Soninha”, teria respondido o
garoto, que chama a avó de mãe na intimidade.

A dona de casa, também vítima de violência doméstica – deixou o pai de Eliza quando a garota tinha 4 anos, porque
temia morrer. “Ele também quis que eu abortasse. Apanhei durante a gravidez, tivemos muitas brigas. Voltei com ele
antes da Eliza nascer (veja foto dos três logo após o nascimento da garota ao lado), mas depois vi que não dava
certo”, lembra. Na época, a dona de casa saiu do Paraná e se mudou para o Mato Grosso do Sul para reestruturar a
vida. Visitava Eliza escondida.
“O que me deixa muito chateada, me machuca é a forma como a sociedade pintou a minha filha. Uma
‘depravada’, ‘maria­chuteira’, ‘mulher fácil’ que merecia morrer. Outro dia estava no ônibus e uma moça                                                               começou a me chamar de interesseira. Abaixei os óculos e disse que não recebia um real e só gostaria de enterrar seus
restos mortais”, afirma a mãe da jovem.
Todo dia um recomeço
Frequentadora assídua da igreja pentecostal “Congregação Cristã no Brasil”, Sônia busca refúgio no local, no cuidado com
as plantas, nas amigas do bairro que sofrem de depressão a quem ajuda e em sua fé para seguir em frente, e não se
contaminar com o sentimento de mágoa. Para explicar o que era ódio ao garoto outro dia, por exemplo, ela usou como
exemplo um copo de água. “Mostrei o líquido e disse que o ódio é como se fosse um veneno que tomamos a contragosto”,
conta ela, que há dois anos e meio deixou os antidepressivos de lado.
Enquanto falava com a reportagem, Bruninho estava na escola. Inclusive, essa foi uma condição para entrevista. “Vivo
para ele. Tudo o ele que faz, eu acompanho. Ele é um garoto incrível que veio para me ensinar muitas coisas”, diz a avó
sobre o neto e os cuidados que tem com ele.
“Faz amizade fácil. Muito brincalhão. Respeita as mulheres, a melhor amiga é filha de uma amiga de infância de Eliza.
Ama bichos, é muito bom em matemática, em criar histórias. Alegre, ama soltar pipa, trepar em árvore, jogar futebol. É
meu companheiro”, diz a dona de casa.
“O medo é constante”
Com a possibilidade de Bruno cumprir a pena em regime semiaberto, Sônia redobrou a segurança do neto. “Andamos
sempre alerta. Levo e busco na escola, nas aulas de futebol [faz alguns meses que ele pediu para treinar], consultas
médicas, alerto sobre os portões no colégio e digo para ele gritar caso algo ocorra”, diz ela, que teme também que a guarda
definitiva seja questionada pelo pai do garoto. Logo após o assassinato, a família de Eliza recebia ligações no meio da
madrugada, “carros estranhos” passeavam pelo bairro.
“Venho conversando com o Bruninho sobre a possibilidade do pai dele procurá­lo e tentar a guarda. Tentei poupá­lo da
história dele o máximo que pude. Porque a carga é pesada, mas sua história é conhecida no mundo. No fundo, é só uma
criança.” (Uol)

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