Leandro Gomes de Barros, primeiro sem segundo

Tenho andado por muitos rincões brasileiros divulgando o cordel e pregando a necessidade de um olhar mais crítico sobre nossa forma literária mais viva. Em cada recanto, encontros inusitados e de grande valia. Mas, muitas vezes, me vejo obrigado a enfrentar fantasmas e mulas-sem-cabeça. Certa vez, em São Paulo, ouvi um poeta dizer que Leandro Gomes de Barros, o pai do cordel brasileiro, estava superado poeticamente. E mais: que o próprio poeta autor dessa frase de pé quebrado é quem o superara. Era uma mesa de debates e todos olhamos para o dito cujo com ar de admiração. Guardei a frase e hoje, alguns anos depois trago-a de volta com, como disse, um olhar crítico.

Seguramente esse poeta que disse ter superado Leandro não conhece a obra leandrina, e deveria se enxergar em sua pequenez. Para superar o maior poeta de cordel de todos os tempos ele teria de pelo menos possuir quatro atributos: ser poeta, editor, vendedor e crítico. Sendo poeta precisaria estar à altura dos pés de Leandro tanto em produção quantitativa como qualitativa. Uma obra mínima, defeituosa, lacunar não pode ser parâmetro para aquele cuja obra foi pautada pela veia poética verdadeira, pela excelência dos versos, pela ousadia e experimentação em diversas modalidades poéticas. Leandro foi da sextilha às paródias, aos padres-nossos, às parcelas, aos marcos, às pelejas, aos romances, à crítica social, ao olhar crítico sobre os costumes. Não ficou criando glosas a partir de motes de sua própria lavra.

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Capa impressa em Guarabira em 1918. (Arquivo Pessoal)

Muitos poetas de cordel, mesmo os bons, na hora de citar grandes passagens poéticas valem-se apenas da lira dos cantadores. Se conhecessem a obra de Leandro não precisariam recorrer a poetas estranhos ao cordel. Toda a obra de Leandro está repleta de flores poéticas de fazer inveja e matar de raiva esses pequenos poetas atuais metidos a celebridades.  Quem não conhece a obra de Leandro não deveria nem se autodeclamar poeta de cordel pois falta-lhe a base, o modelo, a esfinge para norteá-lo. Conhecer a obra do criador do cordel é uma maneira de identificar-se com o próprio cordel, infelizmente o que vemos são poetas que só por saber armar uma sextilha julgam-se os salvadores da cordelança. Como se pode falar de cordel sem citar-se nenhum trecho da obra de Leandro? É um acinte. E ainda mais se vangloriar como aquele que superou o bardo de Pombal. É assim que Leandro abre o seu esquecido As Aflições Da Guerra na Europa:

Detonam tiros medonhos
De peças demasiadas
Soam grandes estampidos
Estremecendo as quebradas
Descendo rios de sangue
Como água em enxurradas.

O mesmo ímpeto que leva um poeta de cordel a declamar sextilhas de cantadores como exemplos de poesia deveria movê-lo em direção a conhecer as passagens poéticas de Leandro ou de outros ícones do cordel brasileiro. Em outras palavras, parece que há uma frustração por não se ser cantador, por não fazer repentes e, como vingança, não lê, não estuda, não pesquisa, fica apenas na masturbação literária que não faz brotar nada novo e que, quando brota, é vulto desprovido de vitalidade, de tônus literário, de vida plena. Vejam o que Leandro coloca na boca de Antonio Silvino quando escreve Antonio Silvino, No Júri:

És como as folhas que secam
Nos frondosos laranjais
Ou como as aves nos ninhos
Que empenam e deixam os pais
Dizem no primeiro voo
Adeus para nunca mais.

Leandro Gomes de Barros é, sem qualquer sombra de dúvida, o pai do cordel brasileiro. Não só por ter sido pioneiro nas publicações ou ter inventado a profissão de autor-editor-revendedor de folhetos. Também, e talvez seja o indício mais forte, por ter experimentado todas as formas, estilos e modalidades poéticas. Experimentou para depurar. Degustou quadras, sextilhas, septilhas, décimas, martelos e outras estrofações. Foi do cordel ao soneto, cançonetas, odes, paródias. Provou das pelejas, contos universais, novelas ibéricas. Enveredou pelos temas sociais, cantou a cidade do Recife, glosou com outros amigos poetas. Crítico contumaz, observador político, não teve medo de errar, nem de quebrar o pé de algum verso. Rebuscou sua escrita e fundou o seu “marco brasileiro”. Ninguém o superou, viu poetastro? Pelo contrário, qualquer referência à poesia cordelística obrigatoriamente deverá citar o filho de Fazenda Melancia. Mais de Leandro em A Seca Do Ceará:

Vê-se uma mãe cadavérica
Que já não pode falar,
Estreitando o filho ao peito
Sem o poder consolar
Lança-lhe um olhar materno
Soluça, implora ao Eterno
Invoca da Virgem o nome
Ela, débil, triste e louca,
Apenas beija-lhe a boca
E ambos morrem de fome.

Agora suponhamos que aquele poeta que disse ter superado Leandro chegue perto dessas construções poéticas, que tenha alcançado mesmo um fio de bigode leandrino, que tenha se aproximado da sombra do pai de todos nós, que tenha conseguido escorregar-se pela poesia, mesmo assim, teria lhe faltado, com certeza, uma cavalgada pelos arredores de Guarabira, na companhia de outro titã, Francisco das Chagas Batista. Portanto poetinha, coloque-se no seu lugar. Deguste sua pequenez pois o mesmo Leandro advertiu em seu Marco Brasileiro:

Eu edifiquei um marco
Para ninguém derribar
E se houver um teimoso
Que venha experimentar
Verá que nunca fiz cousa
Para homem desmanchar.