Facções criminosas formam exército de 21 mil membros na Paraíba

Por Eduardo Figueiredo 19/06/2017 - 08:57 hs

As duas maiores facções criminosas da Paraíba estão crescendo e aliciando jovens e até crianças a serem ‘soldados do crime’, eles começam como aviõezinhos, fazendo transporte de pequenas quantidades de droga e podem crescer na ‘empresa do tráfico’ e chegar aos cargos mais importantes do crime organizado. Hoje, a Okaida e os Estados Unidos contam com aproximadamente 21 mil membros que atuam nos principais bairros da capital paraibano e estendem suas ações para o interior da Paraíba. De acordo com dados de uma pesquisa realizada pelo Tenente-Coronel Carlos Eduardo Batista e dados da Secretaria de Administração Penitenciária, o número de membros das facções cresceu, aproximadamente, 30% em apenas três anos.

Todos os dados desta matéria foram coletados através de uma pesquisa realizada pelo Tenente-Coronel da Polícia Militar Carlos Eduardo Batista dos Santos para dissertação de mestrado na Universidade Federal do Rio Grande do Norte, no ano de 2014. O comandante mapeou e analisou as ações das principais facções criminosas da Paraíba dentro e fora dos presídios.

No ano de 2014, através de pesquisa científica realizada pelo Tenente-Coronel Carlos Eduardo Batista, foi constatado que o número de membros das facções criminosas da Paraíba era de aproximadamente 15 mil membros, sendo 9,1 mil pertencentes à população carcerária. Já em 2017, de acordo com a Secretaria de Administração Penitenciária, foi constatado que a população carcerária saltou para 12,2 mil membros e o número de ‘filiados’ às facções fora dos presídios cresceu de seis mil para sete mil membros.

E a ação dessas facções não se restringe só a João Pessoa e Região Metropolitana. Para expandir os negócios, os traficantes resolveram aumentar o campo de atuação, e hoje, os grupos chegaram até o interior da Paraíba. Atualmente, é uma realidade a presença das organizações em cidades como Patos, Cajazeiras, Campina Grande e Sousa. Nos centros menores, o narcotráfico existe da mesma maneira que na capital, mas o policiamento, por sua vez, é reduzido.

Hoje, a população carcerária da Paraíba é de aproximadamente 12.200 presos, sendo que 90% afirmam ter relação com alguma das principais facções, além disso, fora dos presídios, estima-se que as organizações contam com mais sete mil integrantes. Desse montante geral, 70% dizem serem membros da Okaida e 30% dos Estados Unidos. Entretanto, por meio de sua assessoria de imprensa, a Secretaria do Estado de Administração Penitenciária (Seap) nega que dentro dos presídios haja divisão dos apenados por conta de suas facções. Além disso, a assessoria do órgão afirmou que conta com scanners para detectar celulares e drogas com visitantes, mas precisa realizar operações de revista com auxílio da Força Tática da Polícia Militar, pois somente os agentes penitenciários não são capazes de cobrir a demanda. O secretário de Administração Penitenciária da Paraíba, Wagner Dorta, foi contatado pela nossa reportagem para esclarecer as informações, mas não atendeu nossas ligações nem respondeu nossas mensagens. O presidente do Sindicato dos Funcionários da Seap (Sindseap), Manoel Leite, vai de encontro ao que diz a Secretaria e garante que há divisão. “Existe sim a divisão dentro dos presídios, inclusive nos dias de visita um dia é para os familiares de membros da Okaida e outro para os dos Estados Unidos”, disse Manoel.

O crime organizado tomou conta do País na década de 90, e atualmente, as facções criminosas dominam o tráfico em vários estados do Brasil. Na Paraíba não é diferente. Hoje, duas grandes facções dominam as ações no Estado e são combatidos diariamente pela Polícia Militar da Paraíba. Cada facção conta com regras, símbolos, líderes, territórios e características específicas. O fenômeno teve início em São Paulo, por volta da década de 90, quando a primeira grande facção surgiu: o Primeiro Comando da Capital (PCC), que teve seu início quando um grupo de presos que jogaram um campeonato de futebol juntos no presídio Carandiru, decidiram unir as forças e organizar o crime na região. A onda se espalhou pelo Brasil, e hoje, as facções comandam bairros, cidades e são o principal alvo das forças de segurança.

Do Gênesis ao Êxodo. Não é possível identificar uma data específica de fundação de cada facção de João Pessoa, porém, é fato que o início de tudo aconteceu com a organização de presos dentro das penitenciárias. “Não existe uma data concreta e específica de surgimento das facções. Temos informes que entre 2007 e 2009 iniciaram-se os rumores de que alguns presos estavam se organizando em formas de facções. Isso é uma certeza que se tem. Até porque a pessoas que são apontadas como líderes estavam presas. Por isso acreditamos que a Okaida tenha começado primeiro, por volta de 2008”, concluiu o comandante Carlos Eduardo.

Tomando como referência a organização terrorista Al-Qaeda, não demorou muito para a Okaida crescer e se fortalecer. Comandando o tráfico de drogas na cidade, era natural surgirem inimigos e concorrentes para disputar os pontos de venda. Até que nasce os Estados Unidos, que decidiu usar o nome do país norte-americano com base no conflito internacional entre a nação e o grupo terrorista. Porém, mesmo com a concorrência, a Okaida ainda domina o tráfico e a ação criminosa na maior parte do Estado da Paraíba, e principalmente de João Pessoa, promovendo terrorismo assim como seu homônimo mais famoso. E a última palavra na maior facção do estado é de Roosevelt Antônio da Silva, o Neguinho Miramar, de 34 anos, que está preso na penitenciária de Catanduvas, no Mato Grosso do Sul. De acordo com o levantamento feito pelo comandante Carlos Eduardo, Miramar comanda a Okaida desde a fundação da facção, em meados de 2008, quando se uniu com companheiros de cela para organizar o crime, incialmente, na cidade de João Pessoa. Já os Estados Unidos são comandados por Leandro Lima da Silva, o ‘Leobran’, de 27 anos, que também está detido, mas no PB-1, em João Pessoa. Devido a menor organização dos Estados Unidos não é possível precisar como o ‘Leobran’ chegou à liderança do movimento, todavia, estima-se que ele comande a facção desde o ano de 2014. Porém, quem pensa que encarcerados, eles estão longe de participar do crime organizado está enganado. De dentro da cadeia, os líderes das facções comandam o tráfico que acontece fora dos muros dos presídios. Todavia, através de vídeos nas redes sociais, os membros da Okaida mostram que o ‘Miramar’ não tem mais poder e influência sob os integrantes, e que agora, a facção está sendo subdividida em ‘bondes’, definidos por bairros e pontos de tráfico.

De acordo com o comandante Carlos Eduardo, a principal ação das facções é o tráfico de drogas. Os grupos, felizmente, ainda não vêem nos homicídios e latrocínios uma boa fonte de renda, como explica o comandante Carlos Eduardo. “Aqui na Paraíba a ação delas é restrita ao tráfico de drogas. Existem alguns casos de homicídio, mas sempre relacionados às richas, provenientes das desavenças existentes por conta do tráfico. Não praticam homicídios a bel prazer. Acabam se matando. A principal disputada é pelos pontos e território”, constatou o Tenente-Coronel.

E expandindo os negócios, os traficantes resolveram aumentar o seu campo de atuação, e hoje, a Okaida e os Estados Unidos chegaram até o interior da Paraíba. Atualmente, é certa a presença das facções nas cidades de Patos, Cajazeiras, Campina Grande e Sousa.

Escola do Crime. O crime está inerente à desigualdade social. E a ação marginal se incrustou de tal maneira nas comunidades carentes, que os indivíduos já nascem imersos nessa realidade. Para muitos, mesmo sem a necessidade de roubar, roubam. O motivo é que desde o início de suas vidas, foram ensinados a entender isso como algo comum e necessário. Os traficantes fazem da sociedade uma guerra na qual cada um precisa tomar um lado, conforme explica o professor de antropologia da Universidade Federal da Paraíba, Adriano de Léon. “Eles criam exércitos, e nesse exército a zona moral é bem diferente da nossa. Para eles, um combatente não precisa ter idade, basta coragem. É como no narcotráfico, você tem um oferecimento de uma espécie de salário que é superior a qualquer trabalho”, disse o professor.

E justamente nesse cenário, é que o aliciamento de menores acontece e ‘nascem’ os traficantes. Muitos jovens saem de casas por conta de problemas familiares, e encontram na rua uma oportunidade de ‘servir’ aos traficantes. Começam como ‘aviõezinhos’ e vão crescendo na empresa do crime. E enquanto as autoridades não cortam o mal pela raiz, promovendo oportunidade aos jovens e impedindo que tenham a possibilidade de optar por esse caminho, as facções vão continuar a crescer e consolidar suas ações.

Do general ao soldado. Existe uma hierarquia sistemática dentro do crime. Os líderes são centralizadores e controlam tudo que envolve a ‘instituição’. Abaixo deles, existem os supervisores, que gerenciam as bocas de tráfico por região. Em seguida, surgem os gerentes, que comandam um ponto de vendas específico. Por fim, existem os soldados, que atuam diretamente na venda de drogas e no combate a outras facções. Ainda, é possível identificar os ‘aviõezinhos’, que são geralmente crianças e adolescentes que levam pequenas quantidades de drogas para determinados lugares e avisam aos gerentes quando a polícia está próxima ao local de comércio de drogas.

Entre o tráfico, a pichação e o futebol. As ações dos criminosos não estão restritas ao tráfico. As pichações são marcas características das facções que utilizam as marcas nas paredes para marcar territórios. Além disso, cada organização tem um símbolo que representa o grupo. Os membros dos Estados Unidos geralmente têm tatuado uma bandeira da nação americana ou uma carpa. Já os integrantes da Okaida têm gravado na pele um palhaço ou bobo da corte. Na Paraíba, alguns bairros de atuação são bem definidos. Ilha do Bispo, São José e Alto do Mateus são totalmente dominados pela Okaida. Já Mandacaru, Mangabeira e Bairro dos Novais são divididos entre as duas facções.

E o futebol, que deveria ser motivo de entretenimento e alegria também passa a figurar no cenário do crime. Muitas facções no Brasil inteiro estão são aliadas a torcidas organizadas dos principais clubes dos estados, e na Paraíba não vem sendo diferente. Com essa ação, os criminosos visam sistematizar ainda mais o crime e expandir o comércio de drogas. Porém, de acordo com um ex-membro da torcida organizada do Campinense Clube, Facção Jovem, a criminalidade está presente porque a maioria dos membros da torcida são de baixa renda. “Dentro das torcidas organizadas, a gente vê que a maioria é gente que vêm de periferias e se comporta de uma maneira que é vistos pela sociedade como se fossem marginais. Mas consequentemente, acabam se envolvendo com a criminalidade. Nós fundamos com o objetivo de apoiar o Campinense, porém, infelizmente, como em qualquer outro grande espaço, existe gente com objetivo bom e outros não”, disse o membro. Ele ainda garante que na torcida Jovem do Galo as pessoas envolvidas com o crime são a minoria. “Existem pessoas maravilhosas lá”, finalizou.

PCC e CV na Paraíba. Engana-se quem pensa que as facções de João Pessoa querem se aliar para aumentar os negócios. As principais organizações do país, o PCC e o Comando Vermelho (CV) estão em expansão e o destino delas é o Norte e Nordeste do Brasil. No Amazonas, o massacre que aconteceu no presídio Anísio Jobim, onde 56 presos morreram, já é um reflexo da chegada das facções rivais nas penitenciárias do Norte. No Nordeste, o presídio de Alcaçuz, no Rio Grande do Norte, também foi palco de uma chacina entre presos provocada por brigas entre o PCC, CV e outras facções. Na ocasião, 26 detentos foram assassinados.

Todavia, apesar da magnitude dos grupos de São Paulo e Rio de Janeiro, na Paraíba eles não têm vez. Através de vídeos nas redes sociais, membros da Okaida e dos Estados Unidos negam qualquer parceria com o PCC e CV, e afirmam que preferem agir sozinhos. Ainda, o PCC é marcado pela ação discreta, diferente das facções paraibanas, conhecidas pela extravagância em suas realizações.

O que diz a Polícia? O policiamento ostensivo, ou seja, na rua de frente com a criminalidade é de responsabilidade da Polícia Militar, porém, a Polícia Civil é que tem a função de investigar as facções e coibi-las, como garante o delegado geral da Polícia Civil, João Alves. “Existem estratégias e preocupação por parte da Polícia Civil do Estado em um trabalho pra combater toda criminalidade. Organizamos-nos para investigar e mandar pra cadeia criminosos de toda modalidade, especificamente das organizações”, constatou João Alves. Com informações do Correio da Paraíba.