Ensaio: O Frei e o Pavão
O capuchinho de Bozano nem de longe imaginou que seria, em lugar tão distante de onde nasceu, motivo de polêmica, depois de algum tempo da sua morte, polêmica esta envolvendo, de um lado, a fé concreta e, do outro, o concreto da fé.
O concreto da fé, no caso, nada mais é do que a estátua de Frei Damião, de dimensões avantajadas, erguida pelo poder público municipal no topo da Serra da Jurema, em Guarabira, e propagandeada como sendo menor, apenas um pouco, do que a do Cristo Redentor no Rio de Janeiro e, certeiramente, mais alta do que a do Padre Cícero, em Juazeiro, no Ceará.
Imaginemos que a homenagem tivesse sido locada em terreno pertencente à Santa Madre e erguida às expensas dela. Mesmo assim, saltaria aos olhos a falta de significados locais capazes de dar sustentação à estátua, além da enormidade de ferro e cimento gastos em sua estrutura.
Sobre os significados, o que pode ser dito, de forma indubitável, é que Frei Damião nasceu na longínqua Bozano, na Itália, e faleceu 98 anos depois em Recife, Pernambuco, onde foi sepultado, depois de ter peregrinado por mais de três quartos de séculos pelos cantões do Nordeste brasileiro. Nem em Bozano, nem em Recife, locais de começo e fim da sua trajetória humana, ao que se sabe, foi erguido algo sequer parecido com a estátua fundada no topo da Serra da Jurema.
Como missionário, esteve em Guarabira um pouco mais de uma dúzia de vezes e aqui não realizou, ou em qualquer outro lugar que se tenha conhecimento, de forma atestada pelo Vaticano, qualquer milagre, exceto o de reunir multidões para ouvir as suas pregações de conteúdo fortemente marcado pelo conservadorismo, elegendo como alvo mais frequente da sua santa indignação, protestantes e prostitutas.
A despeito dessas e de outras considerações levantadas à época, a estátua e o memorial foram erguidos. Não só isso, a obra foi custeada, integralmente, pelo dinheiro de católicos, evangélicos, umbandistas, enfim, pelo dinheiro “ecumênico” do contribuinte, a despeito do que reza e continua asseverando o texto constitucional de 1988, de forma clara e límpida, no que tange a laicidade do Estado.
No disputado território da fé, os evangélicos até tentaram se insurgir, ensaiando um tímido movimento. O argumento de alguns crentes tinha como pano de fundo a idolatria e a iconoclastia, palavras tanto sinônimas quanto complicadas, incapazes de surtir efeito junto aos ouvidos de mercadores, dos de então.
A opinião contrária de alguns outros que se opunham não foi páreo para a imperiosa vontade da administração municipal. Some-se a tudo, a verdadeira blindagem eclesiástica fornecida por setores conservadores da Diocese.
Não há controvérsia com relação às características do turismo religioso praticado no Nordeste brasileiro, no que tange, efetivamente, à demanda de recursos do poder público para mantê-lo. Esse tipo de turismo, todos sabem, não é capaz de se auto custear. As divisas amealhadas pelos municípios onde as levas de romeiros são mais volumosas, sequer empatam.
Não faz muito tempo o prefeito de Juazeiro, no Ceará, em entrevista ao Globo Repórter, disse das dificuldades enfrentadas no sentido de atender a população flutuante da cidade, bem como àqueles que chegam como romeiros e resolvem ficar, transformando-se em pedintes e, muitas das vezes, moradores de rua.
De acordo com o prefeito do Juazeiro, após a realização de censo, à época da entrevista, já eram mais de 5 mil pessoas vivendo em situação precária em seu município. Neste particular, saltamos uma fogueira, por assim dizer. Ao que parece, Guarabira está distante de se tornar um endereço de romarias, pelo menos nos moldes apoteóticos das que são realizadas no Ceará. Se assim permanecer, tanto melhor para a cidade e para os seus munícipes.
Nas tais romarias o observador, mesmo desatento, vai notar a ausência de pessoas meia idade, que só são vistas quando acompanhando ou auxiliando os mais velhos. Os jovens, estes, quase não são encontrados entre os romeiros. Crianças, só aquelas vestidas de anjinho, de freira ou de frade, pagando, sem entender direito, alguma promessa feita pelos adultos. Não chega a ser dificil concluir que, quando morre um romeiro, diminui um ente desse grupo e, dificilmente, será substituído por um jovem. Este fenômeno constitui, por si só, um excelente mote para os que desejem se aprofundar sobre o assunto.
A despeito da disponibilidade desses dados, um grande número de comerciantes de Guarabira embarcou na possibilidade de nos tornarmos ricos não só da graça de Deus, mas também do minguado e suado dinheirinho dos homens de boa e sincera fé. O intento, certamente, não foi alcançado.
Seja em Juazeiro - Ceará, em São Severino do Ramo - Pernambuco, ou, ainda, em Carnaúba dos Dantas, no Rio Grande do Norte, apenas para citar três exemplos, o perfil do romeiro é o mesmo. O rosto marcado pelo sol, pelo sofrimento e, sobretudo, pela idade. São, na sua maioria, pessoas simples e de parcos rendimentos. Sobrevivem, muitas das vezes, apenas de ganhos oriundos de aposentadorias pagas pela Previdência Social. Tornam-se, nesse contexto, presas fáceis de vendedores de quinquilharias de toda sorte, que contribuem para movimentar um comércio tanto sazonal como de pouca monta econômica. Em Guarabira, barracas mal enjambradas de madeira desarrumam-se ladeira abaixo, para todos os lados, sem qualquer tipo de disciplina ou controle, reproduzindo em menor escala, o que acontece na feira livre da cidade, dando àquela parte da serra da Jurema, antes razoavelmente preservada, um aspecto de favela.
Não seria forçoso uma analogia entre o comércio no entorno de estátuas como a de Frei Damião e o célebre episódio bíblico que versa sobre os vendilhões do templo. Nada que não pudesse ser previsto. O que acontece agora e já há algum tempo, revela uma série de equívocos e contradições. Passados 10 anos da sua inauguração, a estátua/memorial continua inconclusa. Para obedecer o projeto original seria necessário ainda a construção de um teleférico e um anfiteatro. Ambos, ao que parece, ficaram, como já é uma marca, no plano das maquetes.
Alçado à condição de servo de Deus, em processo de beatificação que corre cartorariamente no Vaticano, Frei Damião deixou como lembrança mais viva de sua última passagem por Guarabira, a imagem de um homem vergado pelo peso da idade, com apenas momentos de lucidez, capaz de balbuciar algumas palavras quando estimulado por Frei Fernando.
Frei Fernando, por sua vez, era uma espécie de tutor do Frei Damião. Ao longo dos anos de convivência, ele absorveu os cacoetes de pregador do frade de Bozano, além de administrar e monetizar o que se poderia chamar em marketing, a imagem pública do capuchinho. Era responsável, inclusive, pela intermediação de sessões fotográficas onde Frei Damião se permitia, se é que ainda lhe socorria alguma votante própria e/ou lucidez, fotografar ao lado de políticos, como no caso do ex-presidente Collor de Melo, em sua campanha rumo ao Planalto e Severino Cavalcanti, de Pernambuco, efêmero e desastrado ocupante da presidência da Câmara dos Deputados em Brasília, dentre outros do mesmo naipe. Estas fotos eram transformadas nos famosos “santinhos” e fartamente distribuídas, visando, certamente, imantar de alguma santidade aqueles que posavam ao lado do missionário.
Para os romeiros, este contingente humano de fé aguerrida e que diminui de tamanho a olhos vistos, a santidade de Frei Damião, não depende do tamanho de qualquer estátua, e prescinde de beatificação e canonização pelo Vaticano. Para os romeiros, ele já é santo e ponto.
A dúvida persistente, e só os mais profundos e versados sobre as tendências do Vaticano poderão socorrer, diz respeito ao fato de tornar beato um religioso que durante a sua trajetória humana não foi capaz de olhar compungido sobre as prostitutas que, de certo, e na maioria das vezes, não tiveram a capacidade de decidir sobre os próprios destinos. Faltou-lhe, também, uma visão mais ecumênica sobre outras tendências e credos religiosos. Em ambos os casos, para o Frei, atirar a primeira pedra, bem como as demais, era a regra. Para esses pecadores, o lugar no inferno já estaria reservado.
Foi intolerante, pois, com as mulheres que, por trapaças da sorte, foram parar nos muitos lupanares de então, frequentados pelos senhores que às vezes, antes de se dirigir aos prostíbulos, haviam se confessado, ajoelhados aos pés do capuchinho e, absorvidos dos pecados cometidos desde a última romaria.
A homenagem, de avolumado concreto, só foi erguida graças à vontade faraônica de uns poucos, somada a omissão de tantos outros, passando, nos dias atuais, a representar uma pedra no meio do caminho do relacionamento da Diocese de Guarabira com a Prefeitura.
Para Mikail Gorbachov, difícil não é matar o elefante, mas levar a caça para casa. Tal raciocínio autoriza, mesmo que no campo das ilações, cogitar que o arrependimento pelo fazer, talvez seja o responsável, hoje, pelo não fazer da manutenção e conservação. E o não fazer, neste particular, significa desrespeitar o contrato de comodato celebrado entre a Diocese e a Prefeitura, ocupada nos dias atuais pelo mesmo grupo político que idealizou e construiu a estátua. Mais desafio para o atual Bispo de Guarabira, Dom Lucena, que dentre as muitas qualidades pastorais reconhecidas por todos, destaca-se a de ser um homem pragmático.
A essa altura o leitor há de perguntar: E o Pavão Misterioso? Pois é, somos a terra de José Camelo de Melo Resende, autor do cordel “O Pavão Misterioso”. Dias atrás a obra poética fez 90 anos e continua encantando a todos. Devíamos, como guarabirenses, sentirmos orgulho do Pavão Misterioso, da mesma forma que se orgulham os espanhóis de Dom Quixote, obra fundadora, escrita Miguel de Cervantes.
A essa altura o leitor há de perguntar: E o Pavão Misterioso? Pois é, somos a terra de José Camelo de Melo Resende, autor do cordel “O Pavão Misterioso”. Dias atrás a obra poética fez 90 anos e continua encantando a todos. Devíamos, como guarabirenses, sentirmos orgulho do Pavão Misterioso, da mesma forma que se orgulham os espanhóis de Dom Quixote, obra fundadora, escrita Miguel de Cervantes.
Precisamos, para que isto aconteça, que ele ganhe o espaço e o local que merece em nossa cidade, pois já habita honrosamente a cultura e imaginário do povo brasileiro. O Pavão Misterioso representa, nada menos, que a nossa mais pura e rica identidade cultural, guardando consigo os significados necessários para uma homenagem à altura de sua importância. Pode, sem qualquer favor, ser incluído nos programas das escolas locais, para ser lido e estudado, juntamente com a obra de outros poetas guarabirenses, de tão boa cepa quanto José Camelo. Um exemplo disso é Chico Pedrosa, considerado hoje um dos maiores poetas declamadores vivos no Brasil, igualando-se em importância a gigantes como Zé da Luz. Quanto a estátua memorial de Frei Damião, esta continuará no topo da Serra, servindo de vitrine, exibindo, ciclicamente, os efeitos das ações ou das omissões do poder público municipal e da Diocese, principalmente no que tange a sua conservação e manutenção, como acontece agora, além de testemunhar a história dos pavões nada misteriosos que a conceberam.
Alexandre Henriques, cronista.