RECORDAR HOJE É MEU TEMA…
Não é porque morreu, hão de dizer, mas Pedro Freire foi um bom homem. Outros dirão: só era bom porque era rico e depois de morrer todo mundo vira santo. Pedro era realmente rico. Rico de alegria, rico de camaradagem, rico de solidariedade, enfim, rico de verdade. Circunstancial e coincidentemente, podia até ser rico de dinheiro, mas isso nunca atrapalhou, nunca pareceu ser algo importante.
Por cerca de quinze anos Pedro Freire manteve, em Guarabira, uma revenda de motos. Trouxe Artur, seu filho, para comandar os negócios e vinha frequentemente à nossa cidade, onde construiu uma sólida amizade.
Trilhamos juntos, de moto, mas principalmente a pé, por alguns caminhos da Paraíba. Nessas travessias fomos tocados pela chuva, pelo sol, pelo vento e pelas boas conversas. Ele, um místico, um homem de muita fé. Eu, um cético, sempre duvidando de tudo, construindo argumentações, às vezes bestas, como se quisesse desvendar o segredo dos mágicos, mas sempre sabendo que a fé sincera de Pedro era o combustível que o movia pelas trilhas da serra e pela senda da vida.
Vencemos os aclives dos caminhos centenários, outrora usados por almocreves, transportadores das nossas riquezas agrícolas, que se arriscavam por estradas difíceis e tortuosas, evitando o encontro com fisco de então.
Andamos pendurados nas abas de serras, sob a liderança de Pedro Freire, atravessando os contrafortes da Serra da Borborema, essa monumental cadeia de elevações que atravessa quatro estados do nordeste, mas que tem na Paraíba uma importância geográfica, econômica, telúrica e poética fundamental.
Quando viajava pelo mundo, ele sempre achava um lugar para dizer ser parecido com a Paraíba, com a sua Campina Grande. Para onde ia, levava no coração o compartimento da Borborema, o mesmo compartimento que hoje o recebe em caráter definitivo.
Certa vez, à mesa da minha casa, enquanto tomávamos um vinho, Pedro assumiu um tom sisudo e excessivamente soturno. Franziu a testa e começou a falar de forma pausada e grave. Dizia da sua família, de como a conduzia, de como gostava das coisas. Parecia um capo italiano. O autoritarismo não era uma de suas características. Estranhei.
Seguiu ele com a narrativa.
— Gosto de reunir a família no almoço de domingo na fazenda Maria da Luz. Gosto de ver todos ao redor da mesa. Filhos, genros, noras e netos. Melhor ainda era no tempo do meu pai e de dona Jesus, minha mãe, que o xarapa dela a levou faz algum tempo.
A essa altura, pela gravidade e pelo tom voz, fomos silenciando.
Continuou Pedro com o seu discurso.
— Com todos ao redor da mesa, eu ocupando o lugar que um dia foi do meu pai, aguardo o comando de Graça, minha esposa, para servir a refeição. Servido o almoço, eu tempero a garganta e repito. Ninguém se meta a besta, não ousem pegar a moela da galinha, porque ela é minha.
Este era Pedro, em mais uma de suas múltiplas facetas.
De outra feita nos encontramos num restaurante em Campina Grande. Era São João. Ele estava chegando e eu saindo. Tentei alinhavar a conversa na tentativa de voltar para Guarabira com o dia ainda claro. Qual o quê! Ele me convenceu a tomar um café e um Cointreau. Eu seguida pediu para que eu esperasse que ele tinha um presente para mim e mandara alguém trazer da fazenda Maria da Luz. Era um livro. Um livro do poeta Zé de Cazuza. Recebi, agradeci e quando abri a primeira página, lá estava a dedicatória do autor para Pedro Freire. Desculpei-me e devolvi o livro. Fiz ver que o presente fora dedicado a ele. Pragmático, como sempre, ele pediu um lápis ao garçom e escreveu uma dedicatória para mim. Disse depois — eu endosso cheque todo dia e o banco paga, porque não posso endossar um livro — (risos). Aceitei o presente.
Este bravo tropeiro da Borborema, que soube compreender e pastorear tão bem o seu rebanho, já está fazendo uma falta danada, mas ultrapassará o seu tempo residualizado em nossa lembrança, traduzido no exemplo que deixa, na alegria de viver e principalmente na genética emprestada aos seus descendentes.
Alexandre Moca - cronista e ensaista
INSTANTES DA NOSSA TRILHA PELOS CAMINHOS DE IBIAPINA