Umbuzeiro: terra de grandes

Para mim era desconhecida a informação de que a cidade de Umbuzeiro tem a mesma padroeira de Bananeiras – Nossa Senhora do Livramento. E ambas as paróquias devem o incentivo maior da edificação de suas matrizes ao abnegado pastor José Maria de Ibiapina. Data de 1870 a  primeira Igreja de Umbuzeiro, situada à rua coronel Antonio Pessoa. Em Bananeiras, pela rua do mesmo nome chega-se à Matriz do Livramento, iniciada em 1861.Mas as ligações históricas entre os dois municípios não param por aí.

O major José Fabio Lira era prefeito de Umbuzeiro quando foi involuntàriamente envolvido em um conflito de ordem pessoal.  Escapou de um atentado à bala e escolheu Bananeiras para sua nova morada. Levava uma carta do seu compadre “Toinho” Pessoa ( coronel Antonio Pessoa, irmão de Epitácio) para o primo Solon de Lucena, ao tempo uma liderança  emergente no brejo.

O major Zé Fabio como era conhecido, era um autodidata e estudioso da biologia e da aplicação da flora regional aos males do corpo. Inventou uma vacina produzida pela saliva humana e com ela promoveu a cura de várias moléstias, inclusive diabetes e tuberculose, antes do surgimento da penicilina. Seu “método consistia na esterilização a frio do liquido bucal das pessoas sãs e novas e transmudando ainda vivo para os doentes”. Sua fama correu o mundo e o jornal carioca  A Noite chegou a compará-lo com o cientista russo Voronoff que difundiu um tratamento de rejuvenescimento que lhe deu fama, ao tempo em que ganhava a censura dos órgãos médicos oficiais. José Fabio sabia estar à margem da lei e, por essa razão chegou a se evadir para outros centros urbanos fugindo da perseguição da Associação Médica da Paraíba. Deusdedith Leitão encontrou-se com ele em afogados de Ingazeira, Ceará. Sua maior frustração foi não ter oferecido a cura ao seu compadre e amigo Solon de Lucena.

Umbuzeiro tornou-se cidade a partir de 1938 apesar de município desde 1890. Deve ter sido na década de 1920 que o major Zè Fabio aportou em Bananeiras.  Com ele “vieram” o  coronel Antonio Pessoa, João Pessoa, Epitácio Pessoa e Castro Pinto que, juntos com Solon marcaram sua época. Por conta dessa ligação política e familiar esses filhos de Umbuzeiro passaram a  denominar ruas e praças da cidade brejeira. Mas se Bananeiras era governista desde os tempos do coronel Felinto Rocha,  Umbuzeiro, já  no inicio do século passado ensaiava um coro oposicionista. Encontrei em O Comércio, jornal das classes conservadoras, na edição de sábado, 5 de maio de 1900, uma carta dos umbuzeirenses, denunciando  Gama e Melo, “governo d´este infeliz Estado”.

A carta dos habitantes da terra de Epitácio fazia queixa  ao governo através do jornal, contra  “as arbitrariedades e violencias de que, a cada passo, somos victimas, por parte de uma autoridade tão ignorante quanto desmoralizada, e esse propósito é devido ao fato de não vermos para quem appellar, uma vez que o governo do Sr. Gama e Mello, é isso ai que todos nós presenciamos, mas para que ao menos o publico tenha conhecimento da nossa triste situação derigimo-vos estas linhas pedindo-vos que as publiqueis no vosso independente jornal”.

E não se pense que denúncias de fraudes eleitorais são coisas do presente. O relato dos umbuzeirenses nos dá a certeza de que sempre existiram: “começo relatando o que aqui ocorreu por ocasião da eleição, que se devia proceder hoje. Como é do costume n´esta terra, não se reunio a meza e isto pelo fato de ter o desmoralizado Sr. Toné, arvorado em chefe político, reunido, apenas 14 eleitores”. Segundo o missivista, a oposição reunia cerca de 71 votos que não puderam votar.

Ao que parece o Sr. Toné era um pequeno ditador e, segundo a nota, “despeitado com o numero esmagador dos nossos amigos, que impossibilitados de votar fizeram valer os seus direitos protestando perante a autoridade competente, o Sr. Toné, que desde pela manha se entregava as libações costumeiras, achou opportunidade de desabafar seu despeito, indo tomar uma faca de um nosso amigo, quando este se retirava para sua residência fora d´esta povoação”. E continua a carta, de um humor duvidoso: “o nosso amigo Manoel Tenente, moço morigerado e que colloca a integridade do seu caracter em altura onde os Toneis jamais conseguirão attingir, vendo o estado lastimo em que se achava o Sr Toné, não fez questão de entregar-lhe a referida faca retirando-se pacifica e precipitadamente, não  com receio da autoridade, masda pipa, pois podia dar-se um incendio…”

Para os umbuzeirenses responsáveis pela denuncia, o sr,Toné “ é  uma autoridade que persegue tudo quanto é bom e honesto, deixa que neste distrito os ladrões andem impunemente, deixa que os cangaceiros freqüentem desasombrados este povoado e até lhes dá dinheiro…estamos nadando em um ar de infelicidades, pois alem de todas essas misérias,encontramo-nos a braços com uma seca horrorosa”.

Deve ter sido por não querer nadar nesse mar de infelicidades que o major Zé Fabio resolveu mudar-se para Bananeiras, mantendo-se sob o manto protetor de Nossa Senhora do Livramento. Amém.(Nas transcrições mantive a grafia da época)

Ramalho Leite é procurador do Estado e jornalista.