As últimas pesquisas eleitorais mostram que o presidente Jair Bolsonaro (PL) ainda não está ‘morto’ na disputa pela reeleição. Segundo o levantamento PoderData divulgado nesta quarta-feira (2), 8 pontos percentuais o separam de Lula na simulação de 1º turno . Em um eventual segundo turno, Lula aparece com 54% ante 37% do atual chefe do Executivo. Há um mês, essa diferença era de 54% a 32%.

Os indicadores de Bolsonaro cresceram entre os mais velhos, na região Sudeste, no Sul e no Centro-Oeste. Houve, também, alta entre os eleitores com ensino fundamental, os que completaram o ensino médio e os com diploma universitário. Entre as mulheres, o índice do presidente saiu de 22% para 28%. O que explica essa melhora repentina?

Apesar de não reverter o favoritismo de Lula (PT), a tendência de alta de Bolsonaro mostra que ainda há jogo. O presidente, no último ano de mandato, lançou mão fortemente da máquina pública, utilizando, entre outras medidas, do Auxílio Brasil e da distribuição de emendas parlamentares como ‘puxadores’ de voto. Lula, por sua vez, estacionou nos 40%, enquanto a chamada terceira via fracassa em ultrapassar a casa dos 10%.

Segundo Leandro Consentino, cientista político e professor do Insper, a melhora na aprovação de Bolsonaro é puxada por dois fatores: o uso da máquina pública e a falta de alternativas fortes o suficiente para bater de frente com Lula.

“Ele está apostando um pouco mais na máquina para fins reeleitorais. Tanto a anabolização das emendas parlamentares quanto a criação do Auxílio Brasil tiveram um efeito importante para a avaliação de Bolsonaro. Se a gente observar daqui para a frente, talvez a política de redução de IPI para veículos também tenha um efeito que ajude a subir um pouco mais seus índices de voto. Além disso, Bolsonaro se beneficia de ser a única candidatura que atualmente mostra hipótese de vitória contra o ex-presidente Lula. Parte daqueles que pensavam em migrar o voto para Moro, Doria ou outra candidatura alternativa, talvez tenha se desiludido com o poder que essas candidaturas tinham de frear a escalada de Lula”.

Rodrigo Prando, cientista político e professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie, complementa que, como presidente, Bolsonaro tem o benefício de ‘fazer campanha’ em todos os lugares onde está.

“Obviamente não pede voto explicitamente, mas está constantemente em motociatas, em aparições públicas. Além disso, tem a máquina do estado nas mãos, tem recursos, tem a base de apoio, o centrão… Todos esses estão trabalhando pelo presidente. Ele consegue pautar a mídia e manter um grupo coeso, de cerca de 20%, e conseguiu agregar mais pessoas nessas últimas rodadas de pesquisa.”

O arrefecimento da pandemia também parece ter sido essencial para que Bolsonaro tenha recuperado parte do eleitorado. A CPI da Covid, cujo relatório final foi entregue em outubro, segue ‘esquecida’, já que o Procurador-Geral da República, Augusto Aras, ainda não deu andamento ao documento.

“O avanço da vacinação e outras preocupações acabam desviando um pouco a atenção do eleitorado. A grande questão é que não começou a campanha. Para discutir a rejeição, dependerá muito da ação pautada pelos outros adversários. Quando a campanha começar na TV, nas rádios, nas redes sociais, Bolsonaro, que sempre foi um deputado que fez papel de pedra, será vidraça pela primeira vez. Terá de responder a respeito dos dados relacionados à pandemia, à economia e até mesmo sobre o posicionamento sobre a guerra atual na Ucrânia”, explica Rodrigo Prando.

Consentino também reforça que o cenário ainda está em aberto, já que a campanha eleitoral ainda não se iniciou de fato. Nesta quinta-feira, fica autorizada pelo TSE (Tribunal Superior Eleitoral) a janela partidária – que geralmente resulta em uma grande “dança das cadeiras” na política.

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“Com qualquer inserção de marketing, o cenário muda, certamente. Agora nós temos a janela partidária, começaremos a ver as propagandas aparecendo na televisão, e isso pode trazer um efeito importante nessas pesquisas. Menos importante do que antigamente, porque hoje temos as redes sociais e o próprio Whatsapp competindo com a TV, que já não tem o mesmo peso de outrora, apesar de ainda ser fundamental. Daqui para diante, com o acerto dos palanques, a veiculação das propagandas e a consolidação das federações em maio, o eleitor colocará o radar fortemente nas eleições, e aí muita coisa acontece.”

 

Carlos Vasconcellos – Último Segundo