Sonho tem preço? Como podemos aferir o valor de um sonho?

Na segunda-feira, no adiantado da hora, vi nas redes sociais as primeiras notícias sobre a morte de um influencer e seu cachorro nos EUA, chamou minha atenção para a matéria. Já tinha visto a história da dupla.

Jesse Koz e seu cão, Shurastey. Fonte da imagem: Instagram

Dormi, no dia seguinte o noticiário das mídias estava tomados pelos relatos sobre a morte do influencer brasileiro Jesse Koz, 29, e o golden retriever Shurastey, 6, que morreram segunda-feira , 23 de maio.

A dupla saiu da cidade de Balneário Camboriú, SC, em 2017 para a viagem de carro pelas Américas que tinha o Alasca como destino final.

Após sair de Santa Catarina, a primeira etapa da viagem de Jesse e Shurastey a bordo do Fusca chamado Dodongo foi em direção a Ushuaia (Argentina). Depois, percorreram o Brasil, estiveram na minha cidade, São Luís do Maranhão, seguiram até os Estados Unidos. Eles já haviam passado por 16 países, além do Brasil, e último post do perfil Shurastey or Shuraigow mostrava que estavam perto de completar a viagem. “Está chegando a hora de entrar no Canadá e ir rumo ao Alasca finalmente”, diz o texto.

O que faz um jovem sair de sua zona de conforto, largar vida estabilizada, emprego, jogar tudo para o ar e cair no mundo? Os sonhos, o sonho de conhecer o mundo, espírito aventureiro de conhecer pessoas, lugares diferente. Jesse trabalhava como vendedor antes de iniciar a viagem. “Queria fazer algo novo, algo diferente, algo que fizesse meu coração vibrar, que eu lembrasse alguns anos à frente e me fizesse sorrir do nada, apenas com a memória de que a minha vida valeu a pena ser vivida”, escreveu em seu site. E completou: “A vida é mais do que ficar esperando”.

A viagem de Koz fazia parte de um projeto, chamado “Shurastey or Shuraigow?”, uma adaptação inspirada na música “Should I Stay or Should I Go” (traduzido do inglês Devo Ficar ou Devo Ir), sucesso da banda The Clash.

Eles já haviam percorrido 85 mil Km, no último post do perfil Shurastey or Shuraigow mostrava a felicidade de Jesse de estar perto de cruzar a fronteira com o Canadá.

“Nós estamos acampando no estado do Oregon, no meio do nada, e daqui nós seguimos viagem rumo à fronteira com o Canadá”, comemorou Jesse.

Tem algumas pessoas que não conheço, nunca vi, mas que gostaria de bater um papo, tomar um café, atraído pela rica vida em experiências e histórias. Como gostaria de ter conversado com Jesse, teríamos muitos assuntos para passar em revista. Gostávamos de viajar, amamos o mundo, não viemos ao mundo só para pagar boletos. Jesse esteve em Ushuaia, fui lá duas vezes. Visitei o Alasca, seria o destino final de sua viagem, que foi interrompido. Tive seis fuscas, falaríamos dos perrengues do jurássico carro. Ficaria maravilhado com sua força e coragem em viajar sozinho na companhia do amigo fiel, Shurastey. Também viajo sozinho, amparado por duas muletas. Você e seu fiel companheiro, Shuarastey um golden retriever; eu e meus Bulldogs, Fiona e Duck; contaríamos histórias maravilhosas de nossos cães.

Falaríamos do acidente que sofri em julho de 2003, em que quase perdi a vida, e deixou marcas indeléveis para sempre. Ias me vê de muletas, verias que tenho mais idade que teu pai. Infelizmente, tivestes menos sorte do que eu. O acidente que o vitimou aconteceu na reta final da viagem. Informações da polícia apontam que Jesse perdeu o controle do fusca Dodongo ao tentar desviar de um engarrafamento e bateu em um veículo que vinha no sentido contrário, em Oregon.

Uma tristeza a perda desse jovem de 29 anos, de forma trágica: quantos sonhos interrompidos, quantos planos de futuro abortados.

Fonte da imagem: Redes sociais.

Agora, ficaram as imagens de Jesse e Shurastey mostrando suas aventuras, belas paisagens e, pelas redes, também mostraram os perrengues da viagem —como a falta de dinheiro ou problemas com Dodongo. Acima de tudo, compartilharam companheirismo e amor incondicional. As fotos mostravam o carinho entre eles, companheiros inseparáveis. O amor entre eles era expressado nas legendas. Antes da viagem, Jesse já tinha o Shurastey. Quando ele decidiu viajar nunca passou pela cabeça dele abandonar. “O Shurastey sempre esteve e agora sempre estará presente na vida do Jesse”, diz um amigo. “Meu melhor amigo, meu parceiro e minha melhor companhia.. sem você eu seria um ser solitário demais pra viver nessa terra, sorte a minha poder ver o amor dentro dos seus olhos quando você me olha de volta!”, escreveu Jesse em uma das postagens.

Cara, você partiu cedo demais, mas deixou uma bela história, um legado de amor à vida, de desprendimento, de conquistas, de coragem; você teve uma passagem curta, mas não pequena, provou que precisamos de tão pouco para realizar nossos sonhos. Bastou a simplicidade de um fusca, a lealdade de um cão, e a liberdade de um viajante. Você foi a mais perfeita tradução do que é FELICIDADE.

Tua história, teu exemplo frutificarão em muitos, em diferentes partes da terra.

Luiz Thadeu Nunes e Silva, Eng. Agrônomo, Palestrante, cronista e viajante: o sul-americano mais viajado do mundo com mobilidade reduzida, visitou 143 países em todos os continentes.