Com pouco mais de 15 mil habitantes, a pequena Teolândia, cidade do interior da Bahia, recebe neste domingo, 05, um show de Gusttavo Lima. O sertanejo subirá ao palco para apresentação de uma hora e meia, contratada pela prefeitura do município por R$ 704 mil. O cachê representa quase 58,6% do custo total do evento onde ele se apresenta, Festa da Banana 2022, que tem orçamento de R$ 1,2 milhão. Mais um show do goiano contratado pelo poder público ganhou notoriedade na esteira da crise chamada de CPI Sertanejo, que o colocou no centro de três investigações do Ministério Público (MP) e resultou no cancelamento da apresentação de R$ 1,2 milhão em Conceição do Mato Dentro, Minas Gerais; e também porque a cidade, há apenas cinco meses, precisou de R$ 1,14 milhão do Governo Federal para conter parte dos danos causados pelas enchentes e em um momento onde os desastres ainda afetam a vida da população local.

Na segunda-feira, 30, Gusttavo chegou a chorar ao se pronunciar sobre o imbróglio provocado por uma crítica feita por outro sertanejo, o cantor Zé Neto, da dupla com Cristiano, à tatuagem no ânus de Anitta e aos artistas que acessam recursos da Lei Rouanet, uma verba federal para incentivo à cultura. Em reação à alegação do sertanejo de que não era bancado por dinheiro público, reportagens e internautas iniciaram uma série de levantamentos sobre gastos de prefeituras do interior do país com cantores desse gênero. Como efeito, seccionais do MP decidiram apurar se há irregularidade nas contratações. Só em Sorriso, cidade do Mato Grosso onde a crise começou, a checagem do Ministério Público envolve cachês, que ultrapassam R$ 1 milhão, pagos por 24 das 27 prefeituras do estado. Durante a live por meio qual se defendeu, o goiano alegou que não compactua com irregularidades e que nunca se beneficiou de dinheiro público.

Além de suspeitas de desvio de verba envolvendo o show de Lima em Conceição do Mato Dentro, o cantor foi envolvido na destinação de uma emenda parlamentar, cujo valor é de quase R$ 2 milhões, feita pelo pré-candidato à presidência André Janones (Avante), para um festa, a uma semana da eleição, com a participação dele, em Ituiutaba, Minas Gerais. O cantor argumenta que está sendo vítima de “perseguição” e chegou a ser publicamente defendido pelo apresentador Danilo Gentili, para o qual as críticas tem como pano de fundo a apoio de Gusttavo ao presidente Jair Bolsonaro (PL).

Ajuda federal

À época da contratação para o show em Teolândia, a prefeita Maria Baitinga de Santana (PP) chegou a afirmar, por meio de uma rede social, que o sonho dela é conhecer o cantor goiano. “Gente, eu sempre tive um sonho, gosto demais, e vamos para a Festa da Banana de 2022 com o nosso embaixador. Quem é, gente? Gusttavo Lima! Gusttavo Lima, minha gente, com a fé em Deus”, celebrou a gestora da cidade localizada a 140 km de Ilhéus, em junho do ano passado. Além de Gusttavo, o evento, que acontece de 4 a 13 de junho, receberá Marcinho Sensação, por um cachê de R$ 80 mil; e Unha Pintada, por R$ 170 mil.

Considerando o orçamento total do evento, o custo per capita para os teolandenses é de R$ 79,48. Em relação ao show de Lima, o valor é de R$ 46,6 por cidadão. Às despesas geradas pelas apresentações somam-se outros gastos públicos, como a aquisição de 900 caixas de fogos de artifício, montagem de palco e da infraestrutura para o evento.

Ao Estadão, que revelou o caso, Rosa Baitinga, como é conhecida a prefeita, reiterou que a escolha de Gusttavo teve motivação pessoal, alegou que os cidadãos da cidade gostam muito do cantor e afirmou que a contratação está mantida. Ela negou qualquer irregularidade no processo e garantiu que não faltam recursos públicos para conter os danos das chuvas e para assistir à população. “Não está faltando, não, graças a Deus”, disse.

No entanto, a chefe do executivo não respondeu sobre a origem dos recursos, se são próprios, transferências federal, estadual ou outras, e se limitou a dizer que há “vários patrocinadores”, pois a prefeitura não conseguiria bancar o evento sozinha. Apesar de alegar que a festa conta com recursos de patrocinadores, Baitinga não detalha quanto e nem quais são as empresas que colaboraram financeiramente com a Festa da Banana deste ano.

As despesas com o evento rendem críticas de moradores e de internautas porque no último mês de dezembro a cidade precisou de ajuda do Governo Federal para custear os danos causados pelas fortes chuvas que assolaram o sul da Bahia. Casas e estradas foram destruídas como efeito de duas enchentes que deixaram moradores desabrigados. Inclusive, na ocasião, Bolsonaro foi criticado por não ter visitado pessoalmente a área, onde foram registradas pelo menos 27 mortes, 523 feridos e mais de 62 mil desalojamentos.

Agora, com Teolândia ainda em recuperação, a prefeitura vai gastar na festa R$ 60 mil a mais do que recebeu da União, por meio do Ministério do Desenvolvimento Regional, à época comandado por Rogério Marinho, agora pré-candidato ao Senado pelo Partido Liberal do Rio Grande do Norte. Os recursos foram liberados para a cidade no dia 29 de dezembro.

 

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