É incrível os ciclos da vida, em todos os sentidos, são bizarramente esclarecedores sobre muitas questões humanas. Vivemos em uma sociedade onde, infelizmente, muitas características culturais estão se esvaindo, igual poeira ao vento. E a leitura é um desses detalhes. Um dos mais importantes. Talvez o mais.  A Rodovia Fernão Dias, que liga São Paulo a Belo Horizonte, assim como tantos trechos rodoviários espalhados pelo Brasil, foi palco de um acidente, um tanto quanto curioso. Não pela forma como ocorreu, mas como as pessoas reagiram em relação à sua carga.

Infelizmente, é comum que muitos populares, dependendo do produto, saqueiem as cargas dos caminhões que “tombam” nas rodovias. Exatamente assim: dependendo do produto. Desde cerveja, alimentos, eletrônicos, grãos, enlatados, até móveis de mudanças são levados pelas pessoas que passam no entorno de um acidente desse tipo, e que se acham no direito de pegar determinados itens. Se tem o direito ou não de pegá-los, eu não sei. Mas o saqueamento de uma carga de livros que tombou na Fernão Dias não aconteceu.

É até engraçado, mas era o tipo de saque que muitos gostariam de saber que houve. Não que apossar-se de algo seja um ato louvável, mas é triste ver como o interesse pelo mundo da leitura está cada vez mais escasso. Interessante como as matérias publicadas dando a notícia deixavam claro que “carga não foi saqueada”. Caro leitor, cara leitora, o que isso te diz? Para mim, diz muito. A verdadeira falta de interesse pelos escritos demonstra muito sobre o desconhecimento da importância que o ato de ler tem para a vida de qualquer pessoa.

Muitos estão precisando de alimentos para ter, pelo menos, uma refeição ao dia, e ao verem um evento de muitos itens da cesta básica espalhados em uma estrada, de imediato irão tentar sanar a deficiência da fome. Da fome ou da inflação que deixou muito lares com as moedas contadas para o que antes era menos controlado. Parar em uma rodovia e ver inúmeras garrafas de bebida “dando bobeira” pode ser uma tentação para os que adoram festejar os “sextou’s” da vida.

Talvez, num dia como outro qualquer, você esteja dirigindo e passe por uma centena de livros esparramados no asfalto. Você nem sabe sobre o que eles são, mas você iria aproximar-se para descobrir, folheá-los? Ou seguiria seu caminho como se nada tivesse acontecido, apenas relatando para quem encontrasse que passou por um acidente que envolveu dois caminhões, resultado em quatro feridos e um monte de livros espalhados pela pista?

Existe a ignorância, o desconhecimento, a falta de oportunidades, de incentivo e de hábito. Na verdade, em nossa sociedade, muitas coisas negativas existem no lugar das coisas boas que faltam. São práticas das mais simples, mas que estão caindo em desuso. Se você nunca viajou através de uma boa leitura, claramente ainda não vivenciou uma das melhores experiências da vida, pois existem produções literárias capazes de nos transportar por lugares onde jamais imaginamos pisar. E o fazemos com os pés da imaginação que é alimentada com cada palavra que lemos, cada detalhe contado, cada experiência compartilhada através da comunicação verbal que as letras são capazes de proporcionar.

Ler não é só sentar e decodificar um monte de palavras de um livro insosso, como muitos acham, mas ter o privilégio de conhecer novas culturas, relatos inspiradores e, acima de tudo, viajar sem sair do lugar com o super poder de vivenciar cada momento daquilo que está sendo lido. Muitas vezes não damos tanta importância para uma biblioteca quando vemos uma, ou para o acervo empilhado em uma estante de livros na casa de alguém. Cada livro é uma caixa de conhecimento. Ali estão informações que podem mudar sua visão de mundo, porém, nem todo mundo tem coragem de abri-las.

Que reflexão você faz sobre o evento da carreta tombada? Assim como eu, você pensou de imediato sobre como está a nossa realidade, apenas em ler a manchete da notícia. Pois é, caro leitor. Infelizmente!

Maria Daniele de Souza Lima.

Sobre a autora: Professora, estudante de Jornalismo e colunista. Paraibana apaixonada pela comunicação.