Opinião – Programa “Pé de Meia” do Governo Federal

Na última sexta-feira (26), o governo federal anunciou o programa batizado de “Pé de Meia”, que pagará o valor de R$ 200,00 como incentivo para os estudantes de baixa renda do ensino médio. O valor será pago mensalmente, tendo também como intuito, o combate à evasão escolar. Bacana! Que bom.

Fico me perguntando quando a vontade genuína de estudar de muitos alunos também entrará em vigor. Também fico me lembrando da época em que estudar era algo feito sob a vontade de melhorar de vida, de saber, de buscar conhecimento. Esses eram alguns dos interesses pela escola. Mas, com o passar do tempo, as coisas foram mudando. É inegável que muitos alunos passar por necessidades que comprometem seu rendimento escolar, porém, como justificar os que freqüentam a escola, não enfrentam tantas dificuldades, – “tem de tudo” como dizem – mas não se interessam pela educação?

Já li redações em que os alunos diziam que queriam estudar para não passar mais fome. Os mesmos alunos que eram os melhores da sala.

Segundo o Ministro da educação, Camilo Santana, um dos critérios para que o aluno tenha direito à bolsa mensal, é ter pelo menos 80% de frequência na escola. Certo. Mas ele não citou qual o tipo de frequência: a que o aluno frequenta e estuda ou a que o aluno está todos os dias na escola e não faz nada, além de desrespeitar o corpo docente e os demais profissionais que ali estão, ou atrapalhar as aulas?

O termo “investir na educação” vai muito além de financiar a ida e a permanência dos alunos na escola. Acredito que a sociedade ainda não descobriu as verdadeiras raízes dos problemas que interferem na qualidade da educação do país. E quando esses alunos saírem do ensino médio? Há emprego para que eles possam exercer uma profissão? E as famílias? Estão educando seus filhos para o entendimento sobre o real sentido de educação?

Na verdade, vivemos numa luta frenética pela sobrevivência, em meio ao caos que vai se implantando dia após dia, isso em todos os setores sociais. Evoluímos muito, mas também perdemos muito da essência de outrora. Não é sobre querer romantizar as limitações pelas quais muitos estudantes eram e são obrigados a passar para poder estudar. Cada caso é específico, mas já ouvi relatos de pessoas que andavam quilômetros a pé para chegar até a escola. Muitos só podiam comprar um lápis novo quando o que tinham não podia ser segurado direito, de tão pequeno que estava. Isso os lápis grafites, porque caneta era coisa de rico. E conseguiram.

Na época em que o Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) ainda não existia, as universidades faziam seus vestibulares unificados. Lembro de quando fiz o vestibular da Universidade Estadual da Paraíba (UEPB) para o Curso de Letras. O ano era 2008. O edital/manual do candidato exigia também a leitura de algumas obras da literatura para a prova de linguagem, e eu não tinha dinheiro para comprar. Cheguei a pedir esses livros à gestora do município de onde eu residia, mas não fui atendida. Consegui alguns resumos emprestados e fiz minha prova assim mesmo. Isso não me impediu de correr atrás da vida acadêmica. Tirei 950 na redação.

Nunca fui nem de classe média, mas nem por isso deixei de me interessar pela escola. Nunca deixei de ler, de assistir televisão e nem de ouvir rádio. Cada item desse ia me ajudando a construir meu senso crítico e me ajudando a aprender um pouquinho sobre as coisas. Quando a gente quer aprender, a gente consegue.

Infelizmente, as coisas hoje perderam um pouco do sentido, com muito investimento e pouco retorno. A população precisa conhecer mais sobre seus direitos, mas, acima de tudo, entender que estudar ainda é uma arma muito forte. Estudar de verdade, e não apenas ir à escola.

Maria Daniele de Souza Lima. Professora, estudante de Jornalismo, colunista. Paulista paraibana apaixonada pela comunicação.