O desastre do Brasil no Pré-Olímpico diz muito sobre nosso futebol: estamos na lama

Brasil perde para a Argentina e está fora do Pré-Olímpico; resultado, esperado diante do caos que era esse time, escancara sintomas tristíssimos do nosso futebol

O Brasil está fora das Olimpíadas de Paris. Perdeu por 1 a 0 para a Argentina neste domingo (11) em um resultado que era até esperado, tamanho a incompetência de gestão da equipe no torneio Pré-Olímpico que aconteceu na Venezuela. Foi daquelas eliminações vexatórias, mas que vem sendo avisada desde a estreia. Um time fraco, com técnico pior ainda e que escancara muito mais problemas estruturais e profundos do nosso futebol do que apenas jogo mal jogado. O Brasil de Ramon Menezes é, infelizmente, motivo e consequência do que tem acontecido com o futebol brasileiro.

A seleção da Argentina não é lá aquelas coisas, mas, desde o começo do jogo, mostrou algo que esse Brasil não teve nem lampejos: alguma organização. O gol de Gondou, após cruzamento de Barco, tirou a Seleção das Olimpíadas que acontecem este ano na França, mas o balançar das redes foi a famosa ponta do iceberg. Por baixo, e por isso nem vale tanto a pena assim falar do jogo, está uma crise que dura anos, para não dizer décadas, mas que ninguém faz nada. A seleção brasileira pré-olímpíca é parecidíssima como a principal, e quem paga por isso é torcedor brasileiro.

Ramon Menezes e a crise de técnico, e não técnica, que o Brasil vive

A primeira pergunta do milhão, e são várias, a ser feita é: o que credenciou Ramon Menezes a ser técnica de qualquer categoria da Seleção? Sua passagem pelo Vasco começou com o dito ramonismo e terminou sendo uma das causas do posterior rebaixamento do Cruzmaltino no Campeonato Brasileiro de 2020. Nestes casos inexplicáveis da vida — e que se repetem muito no futebol, é bom frisar –, Ramon acabou caindo para cima e ganhou essa vaga nas categorias inferiores da Seleção. Uma mostra clara que não há projeto.

Técnico dos times sub-20 e sub-23, Ramon coleciona fracassos. Era ele o treinador da campanha pífia que o Brasil fez no Mundial Sub-20 de 2023, sendo eliminado nas quartas de final para Israel. Lá já se via um time que tinha, sim, algum talento, como tem este do Pré-Olímpico, mas que era, acima de tudo, mal treinado. Oras, o que se faz com um treinador que treina mal? No caso da CBF, promove-se. Ramon ganhou a chance de gerir também o grupo sub-23, isso após passagem — também pífia, sem surpresas — pela principal, na qual foi um tampão após a saída de Tite e até a chegada do também tapador de buraco Fernando Diniz, que dividiu a função entre Brasil e Fluminense.

Não é de hoje que o Brasil, taticamente, é inferior a boa parte da elite do futebol. Ramon não é o culpado por isso, mas é uma das causas. Mostrou, mais uma vez, que treina na base do “vamos aí”, principalmente quando convocou diversos jogadores por aparente gratidão por terem fechado com ele no Pan-Americano. Entre eles, por exemplo, Guilherme Biro, titular hoje contra a Argentina, e que sequer tem uma posição na fila em seu time, um Corinthians que precisa de qualquer lampejo de talento e não vê isso no garoto. Bem, na decisão mais importante de Ramon Menezes pela sub-23, ele decidiu apostar em Biro ao invés de escalar John Kennedy, esse um talento promissor e com muito espaço em seu Fluminense — a Libertadores do ano passado que o diga.

Uma crise técnica: quem arma o Brasil, seja em qualquer categoria?

É claro que a situação não é culpa totalmente de Ramon Menezes. Afinal, seja em qualquer categoria, a Seleção tem vivido um gravíssimo problema: quem pensa em campo? Somos um país que, hoje, produz pontas à vera, mas basicamente só produzimos nesta posição. Depois de Neymar tivemos Vini Jr, Rodrygo, Gabriel Martinelli; temos também, vide a última lista de convocados, Paulinho, Pepê e Raphinha. Um monte de dribladores, agudos, mas nenhum com característica de armação, de pensar o jogo.

Na Seleção que perdeu hoje diante da Argentina, a mesma coisa. Não há um meio-campista que saiba construir, que cadencie, que dite ritmo. Faz falta. Os volantes, tanto na principal como nas de baixo, sabem sim jogar, mas uma seleção como a brasileira simplesmente não pode depender disso. Não há um camisa 10, alguém que abrace a bola e mostre aos companheiros o que fazer. A falta de produção nacional, é óbvio, afetou e muito o Brasil no Pré-Olímpico e, para tristeza geral da nação, seguirá afetando em todo e qualquer campeonato. O jeito porco como lidamos com categoria de base por aqui, profissional em times que podemos contar com os dedos de uma mão, dá errado, quem diria (spoiler: todo mundo).

Soberba: um mal que atinge o futebol brasileiro e não nos deixa andar pra frente

Por fim, mais uma pergunta do milhão: quem disse que o futebol brasileiro, neste caso falando da Seleção em específico, faz parte da elite? Foi a soberba também um dos motivos que levou esse time a fracassar. “Ah, mas é o Paraguai”; “Ah, mas é a Venezuela”. O mundo girou bastante para acharmos que cinco estrelas (merecidíssimas) na camisa vão nos segurar para sempre.

O Brasil ainda produz craques, mas cada vez menos; o Brasil tem bons técnicos, mas cada vez menos; o Brasil tem alguma organização em seu futebol, mas cada vez menos. O que temos cada vez mais? A chance de passar por vexames, como foi hoje. E essas agarramos com força. A Seleção respira por aparelhos — e não é de hoje.

Por Trivela