Estamos cansadas de brigar sozinhas contra machistas e estupradores

Casos como os de Daniel Alves e Robinho evidenciam que a pressão feita pelas mulheres deu certo, mas até quando homens continuarão se omitindo?

Cuca, finalmente, falou sobre sua condenação pelo estupro em Berna, na Suíça. Daniel Alves foi condenado, ainda que possa deixar a cadeia a qualquer momento. E na última quinta-feira, Robinho, finalmente, foi preso, 11 anos depois do crime de estupro pelo qual foi sentenciado na Itália, em 2022, a nove anos de prisão.

Essas três situações aconteceram quase que simultaneamente, em um curto espaço de tempo. Coincidência? Acho que não. Os fatos são fruto de toda a pressão imposta pelas mulheres nos últimos anos. Que não deixaram crimes dessa natureza caírem no esquecimento, e que sofreram outras violências por se posicionarem do lado certo da história.

E se do nosso lado houve gritaria, do lado deles, silêncio. Mas, como diz o ditado: quem cala, consente.

Horas antes da prisão de Robinho ser expedida, e de o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Luiz Fux negar o habeas corpus para o ex-jogador, Leila Pereira, presidente do Palmeiras e primeira mulher a chefiar uma delegação da seleção brasileira, tocou na ferida que até então, os homens do futebol brasileiro preferiram ignorar.

– Como mulher aqui na chefia da delegação da seleção, tenho que me posicionar sobre os casos de Robinho e Daniel Alves. Isso é um tapa na cara de todas nós mulheres, especialmente o caso do Daniel Alves, que pagou pela liberdade. Cada caso de impunidade é a semente do crime seguinte.

Leila já gravou seu nome na história da luta das mulheres por ocupar mais e mais espaços no futebol. Seu primeiro discurso com a delegação foi justamente sobre esse ineditismo. Mas foi necessário que ela estivesse lá para que alguém falasse do enorme elefante na sala.

 

Ednaldo Rodrigues, Dorival Junior, Rodrigo Caetano, Richarlison, Vinicius Junior… Dos dirigentes aos jogadores mais engajados com causas sociais e raciais, ninguém falou sobre como Daniel Alves e Robinho agrediram diariamente as mulheres do futebol nos últimos anos. Ninguém. Nem uma palavra.

[Após a publicação desta coluna, o lateral e capitão Danilo e o técnico Dorival Junior falaram sobre o assunto]

Coube a Ary Borges, uma das estrelas da seleção feminina de futebol que atua no Racing Lousville, dos Estados Unidos, questionar: por que temos que brigar sozinhas?

— Leila, como mulher, se posiciona. Mas até quando apenas mulheres vão continuar se expondo, sozinhas, a repudiar situações como essas, ou, no caso, crimes como estes? — escreveu no Instagram.

Kerolin, atacante da seleção brasileira e do North Carolina Courage, também se manifestou.

– Leila mostrou como pessoas que tem voz, espaço, influência poderiam se posicionar. Até quando só mulheres?

Vítimas e também vidraça

Além de vítimas dos mais perversos crimes, nos tornamos também alvos de quem minimiza os atos cometidos por famosos, e principalmente, jogadores de futebol.

A comentarista Ana Thais Matos, na TV Globo, é um deles. Assim como a santista Anita Efraim, desde a data da condenação de Robinho, quando publicou uma coluna sobre o assunto. O processo de “luto” vivido por perder a referência de um ídolo veio acompanhado de uma forte onda de violência nas redes sociais, questão lembrada na edição desta semana do podcast ‘Papo de Mina’, que aborda o assunto. 

– Robinho acabou para mim e, até hoje, é como se eu vivesse um processo de luto pela perda de alguém tão querido. Porque o futebol tem dessas, mexe com nossos sentimentos de forma tão profunda que um jogador parece alguém da família – escreveu, à época, para o UOL.

A verdade soa como um recado para todos os homens. A revolução contra a violência de gênero passa por nós, mas jamais acontecerá sem o engajamento de todos. Enquanto homens forem coniventes, e silenciarem diante de casos graves como os citados, o futebol – e o mundo, como um todo – continuarão sendo ambientes hostis para mulheres.

Mais do que meros expectadores, precisamos é de aliados.

Por Trivela