Adolescente deficiente visual leva leitura em braille para escolas, na PB; ‘Maior desafio são as pessoas’

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Maria lendo história em braille para crianças e adolescente em escolas de Campina Grande, PB — Foto: Maria de Fátima/Arquivo Pessoal

Uma adolescente com deficiência visual transformou a paixão pela leitura numa forma de quebrar o preconceito que encontrou ao longo da vida por ser cega. Aos 17 anos, Maria de Fátima Silva leva leitura de histórias em braille para crianças e adolescentes nas escolas de Campina Grande. Para ela, a maior luta da pessoa com deficiência é ser vista como todas as outras pessoas. O Dia Nacional de Luta da Pessoa com Deficiência é celebrado em 21 de setembro no Brasil.

“ Nosso maior desafio são as pessoas. Todos os dias é um desafio diferente, mas o maior deles é encontrar a gentileza nas outras pessoas, e isso não é algo que só as pessoas com deficiência precisam, é algo que todos nós precisamos”, diz Maria de Fátima.

Alfabetizada no Instituto Benjamin Constant, no Rio de Janeiro, Maria aprendeu a ler em braille e hoje compartilha esse aprendizado com outras crianças e adolescentes. Quase todos os dias ela vai nas escolas de Campina Grande ler histórias em braille para os estudantes. Segundo Maria, essa foi a maneira que ela encontrou de fazer com que as pessoas quebrem o preconceito que ainda existe dentro delas.

Maria de Fátima conta que aprendeu a lidar com a deficiência visual desde criança. “Eu já nasci com glaucoma, só que quando nasci eu ainda conseguia identificar as cores, mas com o tempo o glaucoma foi ficando mais avançado e então eu perdi totalmente a visão”.

Foi no Instituto dos Cegos de Campina Grande que Maria de Fátima aprendeu a dar os primeiros passos. “Eu cheguei no instituto desde muito novinha. Eu sinto que aqui é minha segunda casa, eu saio de casa pra vir pra casa. Tudo que eu sou hoje, as coisas que eu conquistei, é graças ao instituto e eu sou muita grata aos profissionais daqui, por todo apoio, eles incentivam a gente a nunca desistir dos nossos sonhos”.

A leitura em braille nas escolas da cidade acontece por meio do instituto. Maria explica que é convidada pelos diretores das escolas para realizar a contação de histórias infantis e relatar para as crianças e adolescentes como foi alfabetizada a partir do braille. “Através desses encontros, os estudantes podem conhecer como é esse processo de aprendizado das pessoas cegas e entender que acessibilidade é fundamental”.

Instituto dos Cegos de Campina Grande existe desde 1953 — Foto: Gustavo Xavier/G1/Arquivo

Alfabetização em braille

Maria de Fátima tinha 5 anos quando a mãe precisou se mudar de Campina Grande para o Rio de Janeiro. Foi então que conheceu o Instituto Benjamin Constant, onde foi alfabetizada em braille e se apaixonou pela leitura.

“Eu fui com minha mãe para o Rio quando eu tinha 5 anos. E aí eu conheci o Instituto Benjamin Constant. Lá eu me tornei interna no instituto, passava a semana toda estudando, então foi onde aprendi a ler em braille e me apaixonei por isso”, conta.

Paixão pelo judô

Aos 10 anos, Maria voltou para Campina Grande para morar com os avós, e então retornou ao Instituto dos Cegos na cidade, onde hoje passa a maior parte do dia estudando. Além da paixão pela leitura, foi no instituto onde ela descobriu a paixão pelo judô e hoje dedica parte do tempo para treinar e conseguir levar o nome do instituto para competições nacionais.

“Eu estudo pela manhã em uma escola estadual da cidade e à tarde venho pro instituto pra ter o acompanhamento. Aqui eu faço de tudo, mas a maior parte do tempo estou lendo ou treinando judô. Sou judoca há 4 anos e meu sonho é entrar para a Seleção Brasileira de judô para cegos”, destaca.

Maria já participou de competições regionais e nacionais de judô. “Eu fui para as paralimpíadas escolares em São Paulo, nos anos de 2016 e 2017. No primeiro ano eu conquistei medalha de prata e, em 2017, medalha de ouro. Esse ano vou novamente, a competição a nível nacional acontece de 18 a 24 de novembro”.

Maria de Fátima já conquistou medalhas de prata e outo em competições nacionais de judô — Foto: Maria de Fátima/Arquivo Pessoal

“Eu não quero que as pessoas me vejam como Maria a pessoa com deficiência, eu quero que as pessoas me vejam como Maria, um ser humano igual a todo mundo, que tem suas limitações, mas como todos os outros têm”, afirma.

Maria de Fátima diz que, desde que aprendeu a lidar com a deficiência visual, luta por independência. “Eu gosto de ser independente, e as pessoas precisam entender que isso não é uma questão de pessoas com deficiência, é algo que todo mundo deseja”, frisa.

Para a jovem, a dificuldade está nas pessoas. “Tudo eu faço praticamente sozinha, como todo mundo. Mas algumas pessoas acham que isso não é possível. Quando vou ao médico, por exemplo, por eu ser cega, eles querem que eu entre com minha avó, mas eu já tenho idade para entrar sozinha e eu posso fazer isso. A dificuldade está na cabeça das pessoas, sabe”, comenta.

Novo desafio na leitura em braille

Apaixonada pelos livros, Maria conta que agora tem um novo desafio: aprender a língua inglesa por meio da leitura em braille. Aos sábados, a jovem frequenta aulas em um curso de inglês na cidade. Ela conseguiu a bolsa na escola de idiomas através do instituto. Para Maria, esse é um bom desafio, por se tratar de uma nova língua e de mais aprendizado.

“Que as pessoas não pensem que porque Maria é cega, Maria não faz isso ou aquilo. Eu faço tudo como as outras pessoas fazem, só tenho a limitação visual mesmo, mas a gente vai adaptando as coisas. Então que a gente quebre esse preconceito de achar que porque o outro tem uma deficiência, ele é diferente de você”, ressalta.

*Sob supervisão de Krys Carneiro

G1