Menino autista economiza moedas para comprar cadeira de rodas para a avó, na Paraíba

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Menino autista abre mão de boneco para comprar cadeira de rodas para a avó, na Paraíba — Foto: Éricka Pereira/ Arquivo pessoal

Na imaginação de Miguel Arcanjo Santos de Medeiros, de 6 anos, funciona uma fábrica de sonhos. O combustível para o maquinário dela é a simplicidade de alguém que aprendeu cedo o sentido da palavra generosidade. O menino, diagnosticado com autismo por volta dos três anos de idade, queria um boneco do herói preferido, o Homem Aranha. Mas, abriu mão das moedas economizadas por dez meses para comprar uma cadeira de rodas para a “Vó Lindinha”, como é carinhosamente chamada por ele. A idosa mora em João Pessoa, capital da Paraíba, mas o neto e os pais se mudaram para Alagoa Grande, cidade do Brejo paraibano, em busca de uma rotina mais tranquila.

Brincadeira de criança não foi algo tão sério para a família de Miguel. A mãe dele, a dona de casa Éricka Rúvia Pereira dos Santos, de 33 anos, contou que sugeriu ao filho que juntasse dinheiro para que ele não consumisse doces, já que tem diabetes. Já o pai dele, o auxiliar de pedreiro Severino Antônio, de 34 anos, confeccionou um cofrinho feito com um pote de creme para pentear cabelos, que serviu de incentivo para a pequena poupança.

No dia de abrir o cofre, o garoto surpreendeu a família inteira. Ele contou que as economias que fez teriam um novo destino. O momento foi registrado em um vídeo gravado pela mãe dele. Com a inocência de uma criança, ele disse que com a quantia arrecadada compraria uma cadeira de rodas para a avó materna, a pensionista Maria de Lourdes Pereira, de 72 anos. Filho único, ele é o orgulho da mãe.

“Eu chorei demais. Se uma mãe já se orgulha de ter um filho, imagine um que tenha um coração desse. Não tenho palavras. Ele sempre foi assim, se tem um brinquedo não brinca sozinho, é tudo dele e dos amiguinhos”, contou Éricka.

Miguel Arcanjo ganhou o boneco de uma pessoa que viu a história dele nas redes sociais — Foto: Thamyres Máximo/TV Tambaú

Família humilde

A família de Miguel mora em uma casa simples. Eles vivem com a renda que é fruto do trabalho do pai do garoto, em média, um salário mínimo por mês. Miguel trata o autismo, a diabetes e a cardiopatia no Sistema Único de Saúde (SUS) e estuda em uma escola municipal de Alagoa Grande.

Miguel tem nome de anjo. Para a família, ele é a prova de um milagre vivo. Éricka contou que durante a gestação teve convulsões, o que levou o médico que a atendia achar que o bebê tão esperado não sobreviveria. Mas ela perseverou e chegou até a fugir de um parto prematuro.

“Eu pensei que se Deus tinha me dado aquele presente, eu ia tê-lo. Ele só nasceu no dia que completei os nove meses, quando a bolsa estourou”, ressaltou.

Com o som das moedas balançando dentro do cofrinho, Miguel explica com muita doçura o significado do dinheiro para ele.

“Você sabe o que é isso? É dinheiro. Jesus pediu pra eu comprar a cadeira de rodas pra minha vovozinha bonitinha. Ela é do meu coração, da minha vida”, diz Miguel.

O menino e a avó têm alguns problemas de saúde em comum. Ambos sofrem com cardiopatias e diabetes. Mesmo com toda fragilidade, difícil mesmo para “Vó Lindinha” é conter a emoção ao falar do neto caçula.

Quando soube dos planos do neto, ela passou mal e foi impossível não deixar que as lágrimas rolassem. Para ela, não existem palavras para explicar o gesto da criança.

“Eu amo meu neto, de coração. É um menino de ouro. Acredita que ele até queria que eu ficasse com o cofrinho pra eu poder fazer minha feira?”, revelou tentando colocar em palavras a ligação e o carinho que tem por ele.

A avó de Miguel, Maria de Lourdes, recebeu a cadeira de rodas que precisa através de uma doação — Foto: Éricka Pereira/ Arquivo pessoal

Os sonhos continuam

Miguel e a avó dele foram presenteados com um boneco do Homem Aranha e com a cadeira de rodas. Tudo foi doado por pessoas que se comoveram com a história deles através das redes sociais.

O cofrinho não foi aberto, Miguel quer usá-lo para “comprar alimentos pra vozinha”. Ninguém sabe ainda o valor em dinheiro que o recipiente improvisado tem guardado. O que todo mundo sabe é que não há nada que pague a intenção do garoto.

Como toda criança, Miguel não hesita em dizer o que quer ser quando crescer. “Vou ser professor”, garantiu. A decisão, mesmo que prematura, já é apoiada pela família, que considera que a missão de ensinar do menino já começou e que, assim como o Homem Aranha, ele assumirá o papel de um herói fazendo a diferença na vida de muitas pessoas.

“Ele ensina todos os dias a fazer um mundo melhor e cheio de amor”, concluiu a avó.

Miguel Arcanjo quer ser professor quando crescer — Foto: Éricka Pereira/ Divulgação

G1