Uma das coisas que mais me incomodam nos tempos do “eu posso, eu quero, eu consigo”, é que muito pouco se fala sobre renúncias e sacrifícios, o que chega a ser engraçado porque os objetivos e, portando, a conquista só pode ser alcançada dignamente com esses últimos devidamente postos em prática.

Na minha graduação em Direito, eu renunciei sono, descanso, feijão com arroz, lazer. Muitas vezes, mas muitas vezes mesmo o almoço era um pacote de bolacha maria com água que eu comia satisfeita no caminho de volta para casa, sabendo que não demoraria muito para que chegasse o tempo de eu ter tempo (desculpe o trocadilho!) de almoçar “de verdade” porque sempre tive a consciência de que a recompensa é como conta de somar (que não é feita por Ariano! Rs) não tem meio termo, o resultado é condizente com os fatores aplicados.

Os sacrifícios não servem para que a gente os utilize como degraus para a vaidade ou como bases para vitimização, ao contrário disso, nossa memória serve para que nunca deixemos cair no esquecimento o preço que foi pago por nós mesmos para chegarmos onde estamos hoje e para nos nortear também diante da trajetória futura.

E comigo funciona exatamente assim: quando preciso precificar meus serviços, o pacote de bolacha maria com água comidos “no pingo de meio dia” no balanço do carro que me devolvia ao lar martelam no meu juízo como uma espécie de lembrete sobre o limite mínimo monetário que devo cobrar e que qualquer contraproposta (para menos) daquele valor não paga as renúncias que precisei fazer para ser representada por um número de inscrição na Ordem dos Advogados do Brasil e para ter a independência profissional tal almejada.

Parece simples, mas é um exercício diário de justiça comigo mesma e de auto valorização, o que evita o conhecido “aviltamento da advocacia” e garante minha dignidade enquanto profissional e ser humano.

Esse modelo moderno de otimismo a todo custo e foco total nas facilidades deve ser repensado de forma a não suprimir a esperança das pessoas, mas de fincar os pés no chão e fazer o martelinho de lembrete do sacrifício e da renúncia bater nas consciências e trazer a noção de que “nada cai do céu e de que é preciso muito feijão com arroz…ops! Muita bolacha maria com água” para sentir o gosto doce da vitória.

Raíssa Vitória

Advogada e Colunista do Portal Nordeste 1

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