A pressa do governo argentino se deve à necessidade de começar a vacinação antes de o ano terminar, uma promessa do presidente Alberto Fernández. Com a Sputnik V, a Argentina espera integrar o pelotão dos países latino-americanos pioneiros em vacinar, depois de ter fracassado a negociação com a Pfizer/BioNTech e a aposta na vacina Oxford/AstraZeneca.

Se não houver um novo contratempo, às 19h30 de hoje, o Airbus 330-200 da companhia Aerolíneas Argentinas partirá de Buenos Aires rumo a Moscou para trazer 300 mil ampolas da primeira das duas doses da Sputnik V, opção de vacina com a qual o presidente Alberto Fernández pretende mostrar que a Argentina será um dos primeiros países latino-americanos em começar o processo de vacinação contra a covid-19.

“Serão 40 horas no total: 16 horas de ida e 18 horas de volta, além do tempo de espera no aeroporto de Moscou para embarcar as 300 mil doses que virão no porão do avião em recipientes Thermobox que mantém a temperatura 18 graus abaixo de zero. O plano prevê aterrissar de volta em Buenos Aires no dia 24 de dezembro às 10h30”, confirmou à RFI a assessoria da Aerolíneas Argentinas

Na Argentina, a operação ganhou ares de epopeia. O avião viajará apenas com a tripulação de 20 pessoas (metade de pilotos), mas voltará com a secretária de Saúde, Carla Vizzotti, além de outros cinco inspetores da Administração Nacional de Medicamentos, Alimentos e Tecnologia Médica (ANMAT), órgão argentino responsável pela aprovação da vacina.

A equipe está há dez dias em Moscou para avaliar o imunizante russo com o objetivo de acelerar os prazos para uma aprovação de emergência, mesmo se a Rússia ainda não tenha publicado os resultados técnicos dos testes clínicos.
Pressa por resultados

Quando as caixas com a vacina chegarem a Buenos Aires na quinta-feira (24), as doses serão distribuídas entre as províncias argentinas. Os profissionais de Saúde serão os primeiros a serem imunizados antes da virada do ano. Antes da Argentina, o Chile deve ser o primeiro país latino-americano a começar o processo de vacinação já a partir da próxima quarta-feira (23) com 20 mil doses da Pfizer.

Os recipientes de transporte são capazes de conservar a temperatura de -18 °C durante 96 horas, mas o aeroporto de Ezeiza, em Buenos Aires, terá uma câmara frigorífica com as condições de biosegurança como Plano B.

As outras 300 mil ampolas da segunda dose da Sputnik V deverão ser aplicadas 21 dias depois. Para isso haverá novas operações aéreas da Aerolíneas Argentinas no mês de janeiro.

A vacinação nas primeiras 300 mil pessoas da área da Saúde será um plano piloto para testar a logística para as milhares de doses que se espera até março. “A logística já está preparada para as 300 mil doses agora, 5 milhões em janeiro e 14,7 milhões em fevereiro. Isso implica uma vacinação a 10 milhões de pessoas”, garante o ministro da Saúde, Ginés González García.

Em 6 de novembro, o presidente Alberto Fernández tinha anunciado 10 milhões de doses em dezembro, número que caiu para 600 mil num novo anúncio em 10 de dezembro e que foi reduzido agora pela metade.
Sem outras opções imediatas

A vacina Sputnik tornou-se a maior aposta da Argentina, depois que as duas primeiras fracassaram. A Oxford/AstraZeneca foi adiada por inconvenientes técnicos durante a terceira fase de testes. Já as negociações com a Pfizer/ BioNTech tiveram os seus tropeços, mesmo que a farmacêutica tenha feito da Argentina o seu principal ponto de testes na região, com seis mil voluntários.

“As conversas ficaram complicadas porque a empresa pediu condições um pouco inaceitáveis”, indicou o ministro González García, citando a “imunidade jurídica” e a exigência que fosse “o presidente Alberto Fernández que assinasse o contrato”. O ministro se diz “um pouco frustrado e um pouco chateado” com a Pfizer, mas informou que as negociações continuam.

Para analistas, essa é uma indicação da falta de credibilidade política da Argentina. “Se a Pfizer exigiu o envolvimento do presidente, estamos diante de um claro exemplo de desconfiança política”, observa o analista político, Joaquín Morales Solá.

“O governo congelou a relação com a Pfizer, que produz uma das vacinas mais comprovadamente eficientes. Os principais países da América Latina já fecharam acordos com a Pfizer. Uma vacina eficiente e rápida era a grande aposta política de Alberto Fernández. Agora, o governo abraça a vacina russa que, por enquanto, não é para maiores de 60 anos”, compara Morales Solá.

Na semana passada, o presidente russo, Vladimir Putin, jogou um balde d’água fria nas pretensões argentinas ao revelar que a vacina ainda não está pronta para maiores de 60 anos. Na Argentina, 82% da mortalidade são pessoas acima dessa faixa etária.

A Sputnik V começará a ser aplicada na Argentina apesar da comunidade científica questionar a falta de transparência o processo russo. “AstraZeneca e Pfizer têm apresentado mais informação do que Sputnik, é verdade, mas as três estão em condições para serem aprovadas para uso emergencial”, garante o ministro da Saúde, Ginés González García.