Enquanto voltava de carro do mercado, escutei o radialista falar: “meu Deus, acho que nem ele mais acredita! Perdemos todas as verdades?”.

A dúvida do locutor era porque alguns ouvintes afirmavam que as mortes por Covid-19 em nossa cidade eram mentira. Outros comentários de ouvintes (obviamente não médicos), dizia o locutor, defendiam que o diagnóstico por Covid-19 era invenção para outros fins e que a nota emitida pelo hospital escondia a “verdadeira verdade”.

O questionamento do locutor não deixa dúvida do seu espanto em relação à opinião dos ouvintes. Concordo com o locutor, e digo mais. Essas opiniões são sinais do nosso tempo! Sobre um pedaço de apocalipse do nosso presente, porque talvez falte um pouco de cuidado quando opinamos sobre a vida ou a morte do outro. Até entendo certos ouvintes, pois alguns políticos e suas fakenews contribuem para essa desordem, pois relativizam o valor do cuidado da vida e a verdade da dor.

Esse estado de descrença é um dos sintomas da desordem moral. Vários filósofos já discutiram isso. Hannah Arendt sobre a desordem causada pelo Nazismo (1975) e Giorgio Agamben sobre a frieza dos governantes durante o Fascismo. Mas, é o filósofo Nietzsche (1900) que melhor analisou essa questão. A dúvida do locutor sobre os comentários de seus ouvintes clarifica a tese desse filósofo de que nós — seres humanos — não suportarmos todas as nossas verdades — e que por isso sabotamos com a mentira algumas pessoas ou situações.

A opinião de alguns ouvintes que relativizaram a morte dos pacientes por Covid-19, é reflexo dessa desordem moral, agora mais evidente nos canais de comunicação que facilitam mais a divulgação de opiniões do que a argumentação que conduziria à possível construção do entendimento e da verdade.

Platão já nos disse: a opinião (doxa) não é a verdade (epistéme) e que, portanto, o uso demasiado de opiniões nos conduz à insegurança, porque brincamos com aqueles valores importantes à cidade, à política e ao bem estar comum.

Como desliguei o rádio, após sair do carro, não ouvi mais o locutor. Mas, ele me deixou pensando sobre a certeza de que estamos regressando, em algum aspecto, ao nível das sociedades mitológicas, do caos, da desordem e da guerra. Thomas Hobbes (1679) alertou que quando optamos pela descrença nos contratos e nos acordos (neste caso simbolizados pela ciência expressa no comunicado da comunidade científica local), corremos o risco de sermos o lobo de nós mesmos.

Perdemos todas as verdades? Talvez estejamos nesse caminho, nobre locutor, principalmente enquanto alguns ouvintes não pensarem um pouquinho mais antes relativizarem a morte ou pouco do apreço pela verdade da vida que ainda nos resta.

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Joel Felipe Guindani é doutor em Comunicação e Informação (UFRGS). Docente Adjunto na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Mestre em Ciências da comunicação (UNISINOS). Graduado em Rádio e TV (UNOESC).

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