Eu, menina do interior, 17 anos recém completos entrando naquele mundão que é o Centro Universitário de João Pessoa – Unipê. Dentro de mim, muitos sonhos, mas muito medo também, do desconhecido. Os transportes que nos levavam (vans) pareciam todas iguaizinhas e as salas de aula, então…nem se fala! Como diferenciar um “bloco” de outro naquela cidade universitária?

Me senti perdida entre tijolinhos marrons em todas as paredes, sinalizações por todos os lados que me confundiam mais do que me orientavam e as tantas pessoas indo e vindo naqueles corredores sempre acompanhadas de conhecidos amigos de escola ou de cursinhos me traziam a impressão de que só eu não tinha conhecidos ali naquele novo mundo que me foi apresentado. É… me senti um peixe fora d’água nos primeiros dias de universitária.

Na bolsa, eu levava uns lanches que refletiam minha imaturidade, geralmente eram maçãs, chocolates, biscoitinhos caseiros que sempre gostei e na bagagem eu só tinha vontade de estudar, de aprender, de voltar pra casa e dá orgulho aos meus, masantes eu queria me sentir pertencente àquele lugar, à “capital”, como meuspais costumam responder quando alguém daqui perguntava onde eu estava estudando.

Eita que o tempo ia passando, errei a porta do meu transporte e entrei na “van” erradaalgumas vezes, bati na porta de salas de aula erradas em alguns episódios também, mas minha vontade de abrigar o sentimento de pertencimento não me deixava desistir por tão pouco.

Depois de fazer algumas amizades, a maioria delas com pessoas do interior como eu, me deparei cara a cara com um desses professores que costumam nos botar medo só pelos comentários dos veterenos já calejados pela rigidez da metodologia daquele determinado professor que à época era também o coordenador do curso de Direito.

Ave Maria, só eu sei o que senti quando vi o coordenador do curso entrando na sala com a cara fechada para iniciar o primeiro módulo do semestre!

Só conseguia pensar “agora eu reprovo uma disciplina!”, a fama de mau construída no boca a boca me meteu um medo irracional.

– “Vamos medir os conhecimentos de vocês, vou fazer algumas perguntas e vocês respondam de forma oral.”

Depois de ver alguns colegas respondendo às perguntas e depois de ter me contido para não responder pela vergonha de falar alto na frente de toda aquela gente que ainda era “estranha” para mim…

– “Lá vai a última, hein! Quem criou a teoria dos 3 poderes?”

– “Foi Montesquieu.”

Quando percebi, já tinha respondido meio que automaticamente. Todo mundo tinha ouvido minha voz e antes que caísse dura de vergonha, o professor interrompeu:

– “Taí, gostei! Muito bem!”.

Poucos minutos depois, ao terminar as perguntas, enquanto eu estava copiando no caderno o que estava escrito no quadro, senti a presença do professor ao meu lado observando minha escrita. Parei, olhei pra ele e ele disse “de onde você é, menina?”

– Moro em Guarabira, professor. Mas, sou de Serra da Raiz também, rs.

– Eita, você veio da rainha do Brejo? Fui numa vaquejada por aquelas bandas semana passada.

E a conversa parecia não ter mais fim, quando o sinal sonoro que marcava o fim da aula tocou, fui surpreendida:

– Gostei demais de você, menina do brejo, princesa do brejo, agora vou lhe chamar de princesinha do brejo, pode ser? Seja bem vinda!

Professor Bismark me deu de presente naquele dia o sentimento de pertencimento que eu tanto procurava. Dali em diante, não me senti mais um peixe fora d1ágia, passei a ser conhecida como a “princesinha do brejo” e ele passou a ser uma das pessoas que mais admirei e confiei naquele mundão universitário que se tornou minha segunda casa.

 

Raíssa Vitória

Advogada e Colunista do Portal Nordeste 1

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