Clarissa Rios diz que as internações são de pessoas cada vez mais jovens, são cada vez mais longas e evoluem de forma rápida para a versão mais grave da doença.

A nova onda de contaminação por coronavírus na Paraíba parece ser mais grave do que a primeira, segundo relato da médica socorrista Clarissa Rios, que atua no Serviço de Atendimento Móvel de Urgência de João Pessoa (Semob-JP). Num relato emocionado, dado nesta segunda-feira (22), ela declarou que a percepção geral é de que a doença neste momento parece ser “mais virulenta”, de forma que os hospitais da capital paraibana têm recebido cada vez mais pacientes jovens em estado grave.

“Nós temos percebido pacientes mais jovens, mais tempo de internação, quadros clínicos evoluindo com mais velocidade”, frisou.

Ela pontuou especificamente o caso de uma jovem de 23 anos, sem comorbidades, que deu entrada no hospital num dia de manhã e morreria naquele mesmo dia, à noite.

“Ela chegou cedo, fui eu quem a atendi. E ela evoluiu durante o dia, das oito da manhã até às seis da tarde, quando a gente conseguiu colocá-la na UTI, de uma forma muito grave, muito rápida”, relembrou Clarissa.

Além disso, Clarissa Rios explica que, nesta segunda onda, os casos tornam-se frequentemente mais graves a partir da fase inflamatória da doença, que começa por volta do sexto ou do sétimo dia. “As pessoas passam pelos primeiros dias quase sem sintomas, ou com poucos sintomas, e quando chega na fase inflamatória da doença começam a reincidir febre, tosse persistente, falta de ar, e agravando os casos a partir do oitavo dia mais ou menos”.

A escolha sobre quem vai sobreviver

Clarissa Rios relembrou dos momentos mais trágicos da pandemia de coronavírus vivida em 2020, quando, não raro, os médicos precisaram conversar entre si sobre quem teria mais chances de sobreviver. E ela admite o seu medo de que isso esteja perto de se repetir.

“Nós tivemos em muitos momentos de sentar na UPA ao lado do colega e escolher quem era o paciente que tinha mais chance de ser salvo. E isso é real, não foi conversa. O médico tem que entender qual o caso mais grave para que esse seja levado primeiro, ou o caso mais grave que o paciente tem mais condições de sair, para esse ser salvo primeiro”, explica, emocionada.

Uma situação que para ela é muito difícil, que ela não queria que se repetisse, mas que é cada vez mais iminente. “A gente faz um juramento quando a gente se forma em medicina, quando a gente se forma em enfermagem, de que a gente vai lutar por aquela vida até o fim. E a gente tem estado num momento de grande dificuldade emocional de todos os profissionais de saúde”, desabafa.

Sobre o risco de colapso, de ter que voltar a escolher que vai sobreviver ou não, ela arremata: “Isso realmente está trazendo de novo as memorias que a gente teve do meio do ano passado, que eram memórias muito tristes, muito difíceis para nós”.