Sexta feira, mês de junho, clima ameno até nas cidades mais quentes do interior da Paraíba. Chegando em casa de uma semana recheada
de trabalho, me dirigi à cozinha para jantar, como de costume.
Ao dá a primeira “garfada” e sentir o movimento peristáltico comum de
deglutição iniciar, constatei: não desceu. Sensação de bolo na garganta, alguma coisa não estava certa.
No primeiro momento, pensei ser um engasgo ou uma descordenação no ato de engolir, mas nas tentativas seguintes também falhei,
não conseguia engolir. Tentei iorgurte, sopa, suco e água. Nada. O “bolo” na garganta permanencia, pensei logo como conseguiria
terminar os afazeres pendentes do trabalho sem me alimentar bem, foi a primeira preocupação que me veio ao juízo.
Paciência, não tem nada demais não conseguir comer agora, mais tarde tento novamente. Tentei, mastiguei, mastiguei, mais uma vez… não vai!
Não tem jeito, não desce. Que aflição! Vamos ao médico.
Exames, consultas, remédios, mais exames, mais um retorno à consulta, mais um pouco de remédio. Um cházinho para acalmar,
um gargarejo de água morna para ajudar, mais remédios, refaz os exames, bastante água que faz bem, descanso forçado, pode adiar
esse compromisso! Mais um pouco de remédio, fez o gargarejo? Ufa.
No consultório médico, falei e ouvi. Nem precisei relatar minha rotina corrida, meu trabalho de natureza estressante, minha preocupação
primária com os afazeres do escritório…”Vá viver”, fui incisivamente interrompida. “Vá viver, você precisa viver”. Eis o diagnóstico. Doente de
excesso de trabalho, doente de falta de tempo para “viver”.
Fui tomada por um sentimento esquisito, uma surpresa falsa com um diagnóstico inconscientemente esperado vindo de uma vida maluca de prazos
e compromissos “inadiáveis”. É, como dizem por aí “caí na real” e não foi pela via do amor, foi pela dor. E que dor! Na garganta, no corpo,
na alma.
E foi uma queda mesmo dolorida, com direito a infeccção bacteriana e leucócitos alterados, presença de bactéria, furadinhas para coleta,
descanso forçado e gosto permanente de remédio na boca, mas com um despertar valioso disfarçado de diagnóstico médico: a vida pede URGÊNCIA!
E a necessidade da vida não espera, o trabalho pode esperar, o cliente que fala fora do horário comercial também, mas a vida…a vida tem pressa
e quando a gente pensa que ela pode esperar bem sentadinha balançando pacientemente as “pernas”, ela está de pé dando um grito de alerta que ecoa
nos corredores pálidos de um consultório médico: viver é URGENTE! Se não for agora, quando será?
Raíssa Cavalcante
Advogada e colunista do Nordeste 1