O nono mês do ano é marcado pela campanha do Setembro Amarelo, voltada para a prevenção do suicídio. Em Canoas, um grupo de profissionais trabalha diariamente pela vida de menores com distúrbios emocionais graves. Isso em um momento em que o Brasil e o mundo, mais do que nunca, vivem um momento de instabilidade.
Isso porque o desemprego, a falta de perspectiva e o isolamento impostos pela pandemia não impactaram apenas os adultos. Crianças e adolescentes também têm a vida alterada de maneira preocupante. Prova disso é que aumentou 50% a demanda de atendimentos no Centro de Atenção Psicossocial Infância e Juventude (Caps IJ) Arco-Íris no acolhimento de novos pacientes.
De acordo com a coordenadoria do Caps IJ, se até o ano passado o número de acolhimento ao serviço chegava a 50 pacientes por mês, após um ano de risco pelo contágio de Covid-19 ele chega a 90 ou 100 menores acolhidos mensalmente. São cerca de 3.000 atendimentos mensais a crianças e adolescentes, conforme a Secretaria Municipal de Saúde (SMS).
A pelo aumento da demanda no atendimento à rede municipal de saúde mental de canoas ligadas a crianças e adolescentes diz respeito a maior parte da procura de jovens com algum grau de distúrbio que pode levar ao suicídio. Atualmente, Canoas tem em sua rede de proteção 125 menores que são monitorados 24 horas devido ao risco de morte.
Especialidade
Trabalhando desde 1995 na rede de acolhimento e proteção de Canoas, Anna Lúcia Milidiu Pereira atua como coordenadora técnica do Caps IJ Arco-Íris. Ela aponta que não há registro de morte dentro do quadro de 3.000 usuários do serviço em Canoas. Contudo, o risco existe, razão pela qual o atendimento aos usuários da rede é diário.
Como Anna Lúcia lembra, os primeiros três meses de pandemia, no ano passado, registraram uma queda na busca pelo atendimento do serviço.
“Foi aquele período em que todo mundo estava preso dentro de casa, sem poder sair para nada”, lembra. “Porém, logo esta situação mudou e a procura por atendimento dobrou”.
A questão da saúde mental passa por inúmeros fatores, na avaliação do experiente profissional, no entanto a família acaba sendo preponderante ao tratar do assunto. E uma pandemia agravou a situação. “Notamos que uma atenção dedicada a nossas crianças diminuiu. O nunca esteve sozinho dentro de casa”.
Longe da escola, crianças e adolescentes acabaram mergulhando em um mundo virtual, absorvendo conceitos deturpados do mundo.
“Se a criança já tem uma tendência a um distúrbio, a situação agravou neste cenário pandêmico de reclusão”, esclarece Anna Lúcia. “Seria preciso uma orientação maior do conteúdo em cima do acesso livre que as crianças têm na internet”.
Adolescentes nunca pediram tanta ajuda
No Brasil, a taxa de crescimento de casos de suicídio na faixa etária de 10 a 14 anos aumentou 40% em dez anos e 33,5% entre adolescentes de 15 a 19 anos. Em média, dois adolescentes tiram a própria vida por dia, segundo pesquisas ligadas ao Ministério da Saúde. No ano passado, uma pesquisa do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) com quatro mil adolescentes que não vivem no país apontou que 72% sentiram necessidade de pedir ajuda psicológica durante a pandemia.
Caps IJ agora atende em um novo endereço no Centro
O Centro de Atenção Psicossocial Infância e Juventude (Caps IJ) A Arco-Íris passou a atender no bairro Mathias Velho em 2017. O endereço na Rua Padre Reus, 115, passou a ser referência na Saúde Mental da Região Metropolitana. O local, no entanto, acabou sendo considerado obsoleto pela gestão atual.
Com o cargo de diretor de Saúde Mental, Marcos Ronchetti Filho aponta que coube ao governo atual realocar a estrutura em um novo endereço. “Tratava-se de um prédio antigo e adequado. Tratamos de encontrar uma sede mais adequada à demanda exigida”, explica.
O novo endereço fica na Rua Major Ernesto Wittrock, 51, no Centro. A instalação foi escolhida pensando em salas e acomodações tidas como ideais para a realidade de atendimento aos pacientes. “Estamos nos adaptando ao novo espaço”, aponta o diretor.
Tem um novo nos planos do governo
Segundo o diretor de Políticas e Ações de Saúde Mental de Canoas, Marcos Ronchetti Filho, é plano do prefeito Jairo Jorge para abrir um novo Caps para atender crianças e adolescentes.
“Canoas tem uma enorme demanda e precisa de um novo Caps. O prefeito Jairo Jorge já sinalizou que quer ver outro funcionando ”, adiantou Ronchetti. “E isso com a mesma estrutura que foi montado o novo Caps Arco-Íris”.
“Salvamos vidas. Todos os dias”, ressalta a psicóloga Anna Lúcia Milidiu
Foi necessário muito diálogo entre os profissionais do Caps com os menores durante um retomada do ensino presencial. Muitas crianças passaram a apresentar sintomas de medo e insegurança ao precisarem ser inseridas novamente no contexto escolar. “A escola sempre foi um grande radar. No entanto, se a criança quer permanecer afastada, a situação complica. Fica restrito aos pais e responsáveis a relação da criança com o mundo”, salientea Anna Lúcia.
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A parceria com instituições vem revelando um diagnóstico igualmente preocupante. Se antes eram comuns, em uma sala de aula com 30 alunos, que dois ou três apresentassem sintomas emocionais de distúrbios, hoje a média subiu para dez. “A batalha é constante”, garante uma psicóloga. “A partir retorno, estamos tentando entender e deste ajudar nossas crianças”.
Ao atender casos classificados como “pesados”, violência doméstica e abusos, o Caps IJ garante um acolhimento humanizado cujo único objetivo é mostrar ao menor que existe uma perspectiva para afastá-lo da violência. “O suicídio é cometido por quem vive em sofrimento e não deseja mais sofrer. Nosso trabalho é reinserir socialmente cada jovem e mostrar que não há nada mais belo que a vida. Salvamos pessoas no Caps IJ. Todos os dias”.
A depressão em um menor pode ter origem na violência sexual, abuso durante a infância, fim de relacionamento ou bullying. Quanto ao último, uma crueldade mostrada hoje através das redes sociais é maior. Sem o convívio externo, crianças e adolescentes passaram a desenvolver personalidades nas redes, sem a empatia necessária das relações humanas. “Falta empatia essas horas”, destaca Anna Lúcia. Ao se relacionar somente digitalmente, a criança ou adolescente deixa de se colocar no lugar da pessoa ao lado. Só interessa a verdade dela. O que pensa. O que sente “,
Estado tem a menor taxa registrada entre menores
Desde 2014, a Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), em parceria com o Conselho Federal de Medicina (CFM), organiza nacionalmente o Setembro Amarelo. O dia 10 deste mês é, oficialmente, o Dia Mundial de Prevenção ao Suicídio. A Secretaria Municipal de Saúde (SMS) tem uma programação montada em alusão a importância da luta. São registrados cerca de 12 mil suicídios todos os anos no Brasil e mais de um milhão no mundo. O Rio Grande do Sul tem uma das menores taxas de jovens que tiram a própria vida no Brasil, com 6% das ocorrências mortais entre pessoas de 15 a 29 anos.
Fonte: DC
