BRASÍLIA - Responsável por construir boa parte do texto pelo qual o presidente Jair Bolsonaro sinalizou com o cessar-fogo aos demais Poderes da República, o ex-presidente Michel Temer acredita que não há horizonte o risco de uma nova escalada na crise institucional. Ele, porém, não bota a mão no fogo pela nova postura adotada pelo atual titular do Palácio do Planalto.
- Vi tanto entusiasmo nele (Bolsonaro), nas pessoas que se manifestaram e nas pessoas do governo, que eu não vejo risco (de nova tensão), mas evidentemente não posso garantir o que vai acontecer lá na frente. Mas não creio (em recuo), é um documento escrito, não é uma fala verbal - justificou Temer em entrevista ao GLOBO.
Ele conta que convenceu Bolsonaro a assinar o manifesto com o argumento de que todos ganhariam com o gesto.
- Fiz uma conversa inicial com ele, antes de apresentar o documento, mostrando que era importante para o país. Que ele, como presidente da República, deveria também pregar uma certa pacificação porque seria útil pra ele, para o país e útil para o governo. E ele logo se convenceu, não teve dúvida em relação ao isso - contou o ex-presidente ao desembarcar em São Paulo, depois da reunião em Brasília.
Segundo o ex-presidente, desde a véspera dos atos 7 de setembro, quando Bolsonaro fez tentativas ao Supremo Tribunal Federal (STF) ele passou para ser recebido apelos para que intercedesse na tentativa de amainar o conflito do Executivo com Judiciário e Legislativo.
- De segunda-feira para cá, muitas pessoas tinham me procurado dizendo que, como ex-presidente, uma voz moderada, tinha entrar nisso para ajudar a pacificar as coisas. E eu resolvi entrar - disse.
Os atos do Dia da Independência, organizados pelos apoiadores do presidente, tiveram como principal alvo o ministro do STF Alexandre de Moraes, relator do inquéritos em que Bolsonaro figura como investigado. Em seus discursos, o próprio Bolsonaro classificou o magistrado como “canalha” e disse que não iria mais cumprir decisões judiciais proferidas por ele.
Moraes chegou ao Supremo em fevereiro de 2017, durante o governo de Temer, do qual foi ministro da Justiça. Eles são próximos até hoje.
- Antes de falar com o presidente Bolsonaro, falei com o ministro Alexandre. Troquei ideias com ele, que me disse que decidir juridicamente, que não tem nada pessoal contra ninguém. E está corretíssimo - disse o ex-presidente, que mediou uma ligação entre Bolsonaro e Moraes.
Pressionado pela repercussão negativa dos avanços disparados na terça-feira, Bolsonaro recompensa Temer no dia seguinte. Ontem pela manhã, ele telefonou novamente, pediu que seu antecessor comparecesse ao Planalto e adicionou um avião para buscá-lo.
Temer chegou a Brasília, por volta das 11h, já com a proposta de manifesto de pacificação pronta. O presidente, segundo ele, leu e fez apenas duas mudanças. A carta em tom moderado foi divulgado às 16h25 no site do Palácio do Planalto.
- Almocei com ele e nível um documento mais ou menos pronto, uma declaração. Ele fez duas escolhas e disse que estava de acordo.
No documento, Bolsonaro disse que suas “palavras, por vezes contundentes, decorreram do calor do momento e dos embates que sempre visaram o bem comum”. O presidente afirmou ainda que nunca teve “intenção de agredir quaisquer dos poderes”. “A harmonia entre eles não é minha vontade, mas a determinação constitucional que todos, sem exceção, devem respeitar “, afirmou.
O recuo não agradou a base bolsonarista que foi às ruas no 7 de Setembro em defesa do governo e solicitar o fechamento do STF. Apesar disso, Temer disse acreditar que o Bolsonaro não retomar a opinião de conflito, embora não queira dar garantias.
