Num ano em que os líderes mundiais puderam regressar aos discursos presenciais na Assembleia Geral da ONU, muitos dos temas não são de hoje - apenas se tornam, a cada ano, mais urgentes: a guerra, a desinformação, o terrorismo e a crise climática
O Presidente dos Estados Unidos falou em terceiro lugar, depois do secretário-geral da ONU, António Guterres, e do Presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, que tradicionalmente é sempre o país que abre a série de discursos na reunião anual da Assembleia Geral das Nações Unidas, mas era Joe Biden, na sua primeira intervenção na ONU, que todos esperavam ouvir.
É que nos últimos meses não faltam episódios para mostrar que, apesar das palavras de apelo aos aliados europeus tão comuns nas intervenções públicas do Presidente norte-americano desde que tomou posse, a política externa dos Estados Unidos continua a seguir um rumo próprio, até isolacionista, segundo alguns dos críticos da nova Administração. “Os Estados Unidos estão de regresso à mesa”, voltou a frisar o Presidente, “disponíveis para ajudar os aliados”. Mas depois há a realidade: uma retirada do Afeganistão que de tão caótica se tornou injustificável, a assinatura de um tratado de defesa com a Austrália e o Reino Unido que vai permitir que os australianos possam patrulhar o Pacífico com frota de submarinos movidos a energia nuclear (a França esperava vender estes submarinos mas ficou furiosamente fora do negócio), a inação em relação a Cuba, o reenvio de milhares de migrantes que fogem da miséria em países como o Haiti, Honduras e Guatemala, tudo isto tem contribuído para que a Europa não veja Biden como o furacão de mudança que prometia desfazer toda a era Trump.
Sabendo-se alvo de graves críticas no dossiê Afeganistão, Biden avisou que, na nova era da política externa que será ele a definir, “o poder militar deve ser o último recurso, não o primeiro” até porque “os maiores problemas do mundo não podem ser resolvidos com bombas e balas”. Biden deu o exemplo óbvio da pandemia de covid-19, contra a qual nem o mais poderoso arsenal vale alguma coisa. E quis mesmo deixar para trás essa guerra, que, para ele, parece fazer já parte do passado: “Pela primeira vez em 20 anos, os Estados Unidos não estão em guerra. Virámos a página. Com toda a força, energia, compromisso, vontade e recursos incomparáveis, a nossa nação está agora total e diretamente focada no que está à nossa frente, não no que ficou para trás”.
Tal como António Guterres, o Presidente norte-americano frisou por diversas vezes as múltiplas catástrofes que advêm do descuido do mundo com a evolução das alterações climáticas e pediu uma ação concertada contra o fenómeno. “A pandemia foi uma época de grande dor mas também de enorme oportunidade para fazer a diferença”, disse Biden. “Vivemos uma década decisiva que vai literalmente definir o nosso futuro se conseguirmos aproveitar as oportunidades para moldar o nosso futuro comum”. Quanto a futuras pandemias, Biden deixou uma certeza e um aviso ao mesmo tempo: “Vai haver outra”.
A grande notícia da primeira manhã também chegou com Biden: a sua administração vai tentar aprovar no Congresso um pacote de ajuda financeira para combater as alterações climáticas na ordem dos 11 mil milhões de dólares por ano. Porém, a palavra chave da frase anterior é mesmo “Congresso”. No Senado os democratas não têm a maioria - e qualquer acordo para aumentar a despesa, especialmente numa área onde ainda resta algum ceticismo entre os republicanos, será mesmo muito difícil.
BOLSONARO DIZ ESTAR DISPONÍVEL PARA RECEBER AFEGÃOS CRISTÃOS
Nos últimos dias, por causa do acordo com a Austrália que coloca os tais submarinos bem perto da China, voltaram a surgir os sussurros de uma nova Guerra Fria, que Guterres aliás trouxe a este seu discurso, dizendo que será “muito mais imprevisível” do que aquela que descansa no passado, naquela altura em que não havia ataques informáticos capazes de destruir ou capturar, por exemplo, milhões de terabytes de informação pessoal dos utentes de um qualquer seguro de saúde, ou dos clientes de um banco.
“Não queremos uma nova Guerra Fria, não queremos um mundo novamente dividido em blocos.
A América quer trabalhar com qualquer nação que deseje resoluções pacíficas” para os problemas do mundo. Mesmo que cada país, entre si, “discorde seriamente em várias áreas”, Biden pediu que exista consenso pelo menos para lidar com as “ameaças urgentes das crises climática e pandémica”.
A pandemia continua a infligir duros golpes nos sistemas de saúde um pouco por todo o mundo mas o alívio das medidas mais restritivas, aliado ao aumento da vacinação nos países mais desenvolvidos, faz com que esta 76.ª reunião da Assembleia Geral das Nações Unidas aconteça num ambiente mais relaxado, e até com a presença física de cerca de 100 líderes mundiais, o que não foi possível no ano passado.
Esta recuperação de alguma normalidade não é, contudo, um benefício para todos os líderes que viajaram para Nova Iorque para fazerem os seus muito antecipados discursos: uma das imagens que marca esta Assembleia é a de Jair Bolsonaro, e sua comitiva, a comer de pé, na rua, por não poder entrar em espaços fechados sem vacinação, esse método de prevenção de milhares de mortes ao qual Bolsonaro sempre se opõe. “Para que é que se toma uma vacina? Para ter anticorpos, certo? Os meus estão altíssimos, posso mostrar-lhes o documento”, disse Bolsonaro aos jornalistas.
Como em discursos anteriores, Jair Bolsonaro, focou-se na agenda interna do Brasil, naquilo que a sua administração já conseguiu fazer. Uma grande parte do discurso foi dedicado a elencar todos os contratos privados que o seu Governo assinou ou pensa assinar para desenvolver vários sectores do país como os transportes e infraestruturas (mais especificamente a ferrovia, a aviação e os portos marítimos). Depois de apresentar os seus sucessos económicos, Bolsonaro disse ainda que o Brasil é hoje um país menos corrupto, em comparação com aquele Brasil “à beira do socialismo” que diz ter herdado. Hoje, o Brasil apresenta-se como um país “com a credibilidade restaurada” no palco mundial. Sobre a questão dos refugiados, Bolsonaro foca que o seu país já recebeu “400 mil venezuelanos” que “fogem da ditadura” e garante que está disponível para receber afegãos - os que, de entre os que desejam sair do país, sejam cristãos.
Mesmo depois de inúmeras intervenções que podiam facilmente levar qualquer pessoa a incluir o Presidente brasileiro no grupo dos “negacionistas” ou mesmo “conspiracionistas”, Bolsonaro disse nesta reunião que quer combater o vírus, mas ao mesmo tempo quer combater as consequências económicas da paralisação que a pandemia provocou: “Sempre defendi que devemos combater o vírus e o desemprego ao mesmo tempo e com o mesmo sentido de responsabilidade” porque “as medidas de contenção deixaram um legado de inflação, principalmente nos bens alimentares”.
APOIO AOS REFUGIADOS, DIREITOS DAS MULHERES, INCLUSÃO DAS MINORIAS
Um discurso que não podia ser mais diferente do que aquele que, minutos antes, tinha sido proferido por António Guterres, que apelou a atitudes que Bolsonaro, e muitos outros Presidentes com uma visão mais protecionista, não consideram essenciais: multilateralismo, entreajuda, apoio aos refugiados, direitos das mulheres, inclusão de minorias, entre vários outros pontos.
Segundo o secretário-geral da ONU, “o mundo nunca esteve tão ameaçado”, com seis grandes temas de divisão: assalto à paz em todo o mundo, alterações climáticas, fosso entre ricos e pobres, desigualdade de género, divisão tecnológica ou digital e divisão geracional.
Grande parte dos problemas advêm da decorrente pandemia de covid-19, que tem criado e exagerado as desigualdades sociais e económicas no mundo, mas o secretário-geral sublinhou ainda uma outra “doença contagiosa”: a desconfiança a vários níveis - sejam as teorias da conspiração que entram em contradição com a ciência, a população sem confiança nos seus governos ou ainda a falta de cooperação entre países em temas que necessariamente dependem do multilateralismo.
Guterres classificou como “obscenidade” e grande “falha ética” global o facto de as vacinas não estarem a ser distribuídas de forma uniforme no mundo, devido à “tragédia de falta de vontade política e egoísmo”. “Talvez uma das imagens que podem definir este momento que vivemos é de caixas de vacinas no lixo, já fora de prazo, sem terem sido usadas. Temos excesso de vacinas em alguns países e prateleiras vazias em outros. Somos excelentes na ciência mas levamos um F na ética”, disse Guterres.
Expressso
