Os cabelos estavam caindo, eu conseguia observar vários “espaços” na minha cabeça, com grandes falhas no cabelo cabeludo que antes era tão abundante e bonito. A pele estava pálida e os olhos com bolsas arroxoeadas logo abaixo. Os lábios não tinham o aspecto rosado e saudável de costume, ao contrário, estavam cheios de rachaduras sinalizando desidratação.

Mas, o coração…esse estava ativo como nunca, assim como a mente que almejava realizar mil e uma coisas ao mesmo tempo: ver tv durante horas, sintonizada nas novelas antigas preferidas, a maior parte do tempo em “O cravo e a Rosa”, título famoso pelo grande número de reprises numa grande emissora da tv aberta.

Pintar e cortar o cabelo do jeito sempre desejado, mas nunca feito porque o medo do que as pessoas pensariam sempre tomava à frente. Ah! Jogar conversa fora com os amigos em plena noite de segunda feira, como se não existissem inúmeras obrigações aguardando também fazia aquele coração e aquele “juízo” funcionarem apressados. A única pressa era de VIVER, mesmo diante de pouco tempo de vida ofertado amargamente por uma doença terminal.

Depois da corrida contra o tempo e a sensação de ir sumindo, sumindo…como um algodão doce que é degustado na boca de uma criança…sem tristeza, mas feliz por ter finalmente entendido como essa breve passagem terrena deve ser vivida, abri os olhos! Já estava claro e o sol invadia, impiedosamente, o quarto.

Minha realidade frenética e o dia recheado de compromissos me aguardava, mas aquele sonho que poderia até ser interpretado como pesadelo me trouxe a leveza necessária para entender que por mais que  nossa existência seja repleta de deveres e obrigações, aquilo que se gosta de fazer sempre precisa ter seu espaço porque a vida passa e não espera a descoberta de uma doença terminal, uma tragédia familiar ou um acontecimento ruim que é vivenciado apenas em um sonho (ou seria pesadelo) para se despedir.