Hanna e os homens

Ela notou uma mancha no forro do closet, e pensou “não é possível”; estava atrasada para o trabalho, vestiu-se apressada, pegou a bolsa, as chaves do carro, se encaminhou para o elevador, pegou o carro e foi trabalhar.

Como almoça fora todos os dias, só voltou para casa no final da tarde. Ao despir-se, notara que a mancha aumentara de tamanho, já se chateando. Separada de Hugo, Engenheiro Civil, que se incumbia desse departamento; aquela situação para Hanna era um tormento, ter que lidar com esses dissabores. Foi até a sacada do apartamento, respirou fundo, pensou em cada palavra que diria para o morador do andar de cima, provavelmente o causador do transtorno.

Pegou o interfone, atendeu uma voz de mulher, ela perguntou pelo dono do apartamento, a pessoa informou que ele não estava, mas que mais tarde, estaria em casa. Ela se identificou, mas não quis adiantar o motivo da ligação.

Já passava das 21h00, quando Ricardo chegou e interfonou para o apartamento de Hanna, que assistia a um filme no quarto. Ela atendeu, e Ricardo, após se identificar, perguntou do que se tratava, já que nunca tinham se falado antes. Ela disse que naquela manhã notara uma mancha no forro do banheiro, e à noite, quando retornou do trabalho, percebeu que a mancha tinha aumentado, só podia ser algum vazamento do apartamento de cima. Como já era tarde, ele sugeriu que se encontrassem na manhã seguinte, para ver a dimensão do problema.

Horário combinado, Ricardo estava no apartamento de Hanna, foram até o local indicado por ela, com a tal mancha, que aumentara ainda mais. Ricardo perguntou que hora poderia pedir para um pedreiro ir até o apartamento para averiguar se a mancha era do apartamento dele. Ela disse que estaria em casa a tarde toda.

No começo da tarde, interfone da portaria tocou, perguntando se ela autorizava a subida do pedreiro. Devidamente autorizado, Amâncio, o pedreiro, se encaminhou até o apartamento. Acompanhado de Hanna constatou que o vazamento vinha do apartamento de Ricardo. Amâncio ligou para Ricardo dizendo que a infiltração vinha do apartamento dele, combinaram para no dia seguinte iniciarem o serviço, quebrando o banheiro do apartamento de Ricardo.

Hanna foi trabalhar, deixando a empregada com a missão de acompanhar o serviço. Com a quebradeira no banheiro do apartamento de Ricardo, o cano de água foi atingindo e começou a inundar o banheiro de Ricardo e molhar todo o closet de Hanna. Jó, a empregada, apavorada ligou para Hanna, que irritada voltou para casa, se deparando com tudo molhado. “Só me faltava essa”, pensou Hanna, já partindo para o apartamento de Ricardo, que não se encontrava em casa.

Nervosa, irritada, pediu o contato de Ricardo, e quase aos berros, ligou pra ele.“O senhor tem ideia do tamanho do problema que o seu pedreiro nos arranjou?”, Ricardo, mal conseguia falar, “Por favor, se acalme, vamos resolver, a senhora não ficará no prejuízo”. “No prejuízo, já estou, quero é resolver o problema”.

Ricardo retornou para casa e viu tudo inundado, sujo, e pergunta para Amâncio, “Por que você não fechou o registro d’água? Agora fiquei no prejuízo, e tenho que lidar com a fúria da vizinha”. Amâncio se desculpou indo embora. Ricardo, lembrou de um velho amigo engenheiro; ligou para ele, pediu urgência para ir até o condomínio, na esperança de resolver o imbróglio.

Éric, Engenheiro aposentado, sessentão, calmo até mais da conta, zen, encontrou com Ricardo na portaria do condomínio. Ricardo lhe conta o ocorrido, interfona para o apartamento de Hanna, e pede autorização para subir.

Hanna se troca, recebe Ricardo e Éric, que é devidamente apresentado à Hanna como Engenheiro Civil experiente. Éric pede licença e vai até o closet, para vê o tamanho do problema. Vê as roupas de Hanna fora do lugar, observa a beleza daquela mulher pequena, bem cuidada, e diz calmante, “que no dia seguinte tudo estaria consertado”. Ricardo passa o contato de Hanna para Éric, que salva nos contratos.

À noite, Éric enviou uma mensagem, “Nem sempre as coisas são como nós queremos ou planejamos, mas com calma, tudo se resolve. Me dê sua confiança apenas por essa noite, amanhã seu closet estará novo”. Hanna leu aquilo, quase sem acreditar. Quanta educação, que gentileza, esse cara é diferenciado. Respondeu, “Agradeço a gentileza, fazendo votos que o senhor esteja certo, espero que tudo esteja resolvido amanhã. Boa noite”. “Boa noite, bons sonhos, fique com Deus”, respondeu Éric.

Hanna fora casada por vinte e três anos com Hugo, casamento que ela pensava ser estável, sem muitas emoções, mas que seguia seu curso, como todos os outros. Até que Hugo, em um final de semana, convidou-a para sair para jantar, e entre garfadas e taças de vinho, disse que já tinha outra pessoa, que era hora de cada um seguir seu caminho. Hanna, lívida, sem entender aquela despedida unilateral, ou sem querer perceber que o casamento acabara bem antes, ainda perguntou, “Você tem certeza de tua decisão? Pensa bem, se não apenas uma aventura passageira, pois se tu saíres de casa, não terá volta”. Hugo não disse mais nada, pediu a conta, voltaram para casa, nem nenhuma palavra. Deixou Hanna na porta do condomínio onde moravam, partiu.

Hanna, que casara para ser esposa de Hugo a vida toda, nunca se preparou para aquele desfecho. Ainda jovem, bonita, bem cuidada, estava novamente na pista. Como administrar o novo estado civil? Como paquerar, como ser paquerada? Como ir para a cama com um novo homem? Eram as perguntas que a povoavam.

Já acostumada com a monotonia da vida de casada, em que o sexo era burocrático, apenas para cumprir tabela, agora, era uma nova situação. Tinha que voltar a ser sedutora, observar os sinais no seu entorno. Paquerar, ser paquerada.

Assim que acabou o casamento com Hugo, conheceu um jovem, quinze anos mais novo, com a testosterona saindo pelas orelhas. Paulo foi o cara certo, na hora certa para resgatar a libido adormecida de Hanna. Ela resgatou com Pedro em dois meses, coisas que não fizera em todo o tempo de casamento com Hugo. Se descobriu mulher, sexualidade atualizada. Mas, Paulo em pouco tempo cansou Hanna. Não tinha independência financeira, dependia da mesada dos pais, e o encanto passou, “ foi bom, enquanto durou”. Foi o estepe na hora certa.

Dias depois, em um encontro social, na casa de amigos, conheceu Azevedo, mais velho que ela, que lhe pareceu meio sem sal, mas novamente solteira, resolveu encarar, “Que mal tem?”. Saíram na semana seguinte, jantaram, falaram de si, dos filhos, do ex, da ex. Tudo muito formal, mas Azevedo não se mostrou por inteiro.

Ele convidou-a para uma viagem, para visitarem uma estação de neve em uma cidade sul-americana. Hanna preparou um enxoval apropriado para o frio do lugar, Azevedo já não gostou muito. No voo de Guarulhos para o aeroporto internacional Merino Benítez, em Santiago, Azevedo não descontraia, sempre com cenho fechado, cara de poucos amigos. Não aceitou nada do serviço de bordo. Hanna comeu, tomou vinho, observou as cordilheiras pela janela, enfim, estava contente por estar em uma viagem internacional novamente. Ela viajou bastante com Hugo, mas fazia tempo que não cruzava o oceano Atlântico.

Quando desembarcaram em Santiago, pegaram o transfer e foram para o hotel. Fizeram check in, o maleiro levou a bagagem para o quarto, e Hanna reparou que Azevedo não deu gorjeta, e ainda foi ríspido com o funcionário do hotel. Ela perguntou se ele era sempre assim, ele ficou calado.

Não rolou nada entre eles na primeira noite. Ela pensou, “ele deve estar cansado”. Na manhã seguinte tinham passeios agendados, em grupo, Azevedo começou a reclamar da quantidade de fotos que ela tirava. Tudo era motivo de irritação para Azevedo. Hanna adicionou o botão do “foda-se”, e seguiu em frente. Relaxou, riu com o grupo, comeu bem, tomou vinho, aproveitou a viagem, mesmo com o companheiro com muxoxos. Hanna e Azevedo não se tocaram. O que seria uma lua de mel, foi um fiasco, um dissabor.

Na viagem de volta para o Brasil já eram estranhos. No desembarque em Guarulhos, cada um no seu quadrado. Ambos se bloquearam nas redes sociais. Nada de fotos, tudo apagado. Agora, ela com um vazamento no teto, roupas fora do armário, transtornos, surge Éric, sessentão, cabelos prateados, gentil e educado, dizendo que iria resolver o problema.

Hanna releu a mensagem de Éric, olhou a foto dele no WhatsApp, e pensou, “Homens, homens, quando terei um para chamar de meu, ter uma relação estável, sem sobressaltos, relaxar, amar e ser amada”.

Luiz Thadeu Nunes e Silva, Eng. Agrônomo, Palestrante, cronista e viajante: o sul-americano mais viajado do mundo com mobilidade reduzida, visitou 143 países em todos os continentes.