Um detalhe curioso que observo na maioria dos alunos é uma certa rejeição que eles têm em escrever com caneta. O medo de errar e não poder apagar o erro é sempre muito aparente durante as aulas. Para eles, escrever com caneta significa fracassar, pois depois que a tinta é fixada no papel e acontece um erro na escrita, a página fica com a estética comprometida. Ou risca-se a palavra ou usa-se corretivo, o que independente da escolha, vai deixar aquela lauda rasurada. Folha arrancada.

E nunca um fato corriqueiro como esse se assemelhou tanto com as escolhas que fazemos na vida. Errar faz parte da nossa vivência. Todo aprendizado passa pelo crivo dos erros. Aprender a andar de bicicleta, por exemplo, significa cair várias vezes, fazendo o indivíduo até levar cicatrizes dessas tentativas para o resto da vida. Mas ele aprende. Viver também é escolher escrever uma história com lápis grafite ou com caneta. A diferença é que é saudável permitir-se usar os dois. Ao escolher a caneta, podemos usar o melhor e mais discreto corretivo para camuflar o pigmento, mas o erro continuará lá. Por mais que o grafite seja fácil de apagar, a superfície do papel ficará com as marcas dos traços ali feitos. Ou seja, viver é escrever as páginas da vida com diferentes tipos de lápis. Nossa história precisa ser escrita.

E na vida? Tudo o que fazemos fica registrado em uma folha de papel chamada tempo, o qual nos ensinará através do que foi uma rasura, a como saber lidar nos próximos dias de prova, quando a nossa existência exigir mais da nossa sabedoria. A escola da vida é muito paciente e também admite erros. A vida real espera de nós que sejamos promovidos com louvor em cada ano letivo/vivido, porém, ela também quer que tenhamos a coragem de sermos audaciosos em reconhecer que falhamos em algum momento. Thomas Edson, segundo a história, tentou mais de mil vezes até conseguir criar a lâmpada elétrica. Santos Dumont construiu balões, dirigíveis, até chegar ao avião, tornando-se o pai da aviação e responsável pela base das aeronaves modernas que temos hoje. Nenhum deles desistiu.

Em uma sala de aula é possível observar como hábitos simples do dia a dia nos fazem refletir como o ser humano precisa aprender a escolher qual a melhor forma de escrever sua vida. Passarão muitos professores durante esse trajeto, e cada um terá sua parcela de conhecimento compartilhada conosco. Cabe a nós ter a sensibilidade de decidir aprender ou não. Permitir-se errar e não estacionar no erro é um dos atos mais grandiosos do homem, pois enquanto a vida acontece, somos grandes protagonistas daquilo que escolhemos seguir. Nem toda tarefa que nos é atribuída é fácil. A matemática dos dias é misteriosa, porém, decidir permitir-se viver é a geografia mais saudável dos nossos atos. Compreender a linguagem das emoções, perceber a biologia do nosso coração e deixar-se levar pela arte da vida é ser aluno da mais incrível escola.

Permita-se…

 

Por Maria Daniele de Souza Lima. Professora, Colunista, Jornalista e Especialista em Linguística e Literatura. Uma paulista nordestina, apaixonada pelo universo da comunicação.