“As vezes dói no coração ver a pessoa diminuindo o que a gente faz, achando que é só um showzinho”, a frase é dita por Junior Iranzi, que há 25 anos vive da arte circense na Paraíba. Integrante de uma família de brincantes, profissionais do circo, ele acredita que a sabedoria da arte popular não é mais valorizada como antes.

Celebração das artes do Teatro e do Circo é o tema do programa Paraíba Comunidade deste domingo (27), das Tvs Cabo Branco e Paraíba.

Fazer circo para Júnior é coisa de família, o palhaço ‘Chumbinho’ já atuou em vários lugares da América Latina levando as brincadeiras que para muitos é passatempo, mas para ele são compromisso e sustento. Neste 27 de março, Dia Internacional do Teatro e do Circo, Junior Iranzi reivindica que a cultura popular seja valorizada:

“Dedicamos muito tempo de treinamento e sacrifício pra surpreender as pessoas. Nós resistimos pra manter viva a arte circense, é uma real ação do coração, é difícil e estamos pedindo respeito, na nossa militância pedimos essa valorização da arte”, desabafa o artista.

Brincantes, é assim que são chamados os integrantes da família Iranzi, unidos pelo amor ao circo. As primeiras lonas vieram da relação entre Junior e Viki, uma argentina que veio para o Brasil a passeio, mas se apaixonou durante a estadia e decidiu seguir a vida por aqui. Ao lado dos três filhos, o casal se apresenta em praças, teatros, circos e, segundo Júnior, “em qualquer lugar que receba nossa arte”.

Além dos vários espetáculos roteirizados e ensaiados com disciplina, a família oferece oficinas onde repassa conhecimentos da arte circense. O Circo surge, historicamente, dessa necessidade de grupos de cultura popular trocarem a entrega de entretenimento por possibilidades de sustento. Conhecidos por viverem em travessia, os artistas costumam transitar em coletivo, buscando companhias que possibilitem que o trabalho chegue ao público.

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Júnior e Viki Iranzi se uniram no amor pela cultura popular. Foto: Arquivo pessoal

Júnior Iranzi defende as habilidades circenses dos brasileiros como uma das mais reconhecidas mundialmente “nossos profissionais costumam ser levados ao exterior para entrar em companhias internacionais, somos muito bons”, confirma o palhaço.

A palhaçaria é uma arte milenar, diversas sociedades em diferentes tempos históricos possuem a presença dessa figura lúdica, que se dedica a divertir com leveza de criança até mesmo o adulto mais sisudo. Júnior Iranzi conta que existe complexidade no fazer do palhaço, que há uma preparação não apenas na performance corporal, mas um cuidado com os textos.

“Cuidamos do texto para que ele seja construtivo e não destrutivo, que leve alegria sempre com respeito”.

Existe circo à distância?

A cultura popular enfrenta desafios há tempos. Num contexto hiper tecnológico, com diversos tipos de entretenimento sem que seja preciso, sequer, sair de casa, a arte circense enfrenta os desafios dos muitos tipos de atrações que parecem ter ficado no passado. Se essas dificuldades já estavam postas antes, a pandemia tornou quase impossível viver de arte de rua.

“Todas as nossas atividades envolviam aglomeração de pessoas, teve um tempo que era difícil ter o que comer, nossa arte é na rua”, conta o palhaço ‘Chumbinho’. 

De acordo com dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea)mais de 900 mil trabalhadores do setor cultural foram afetados pela pandemia em 2020. A retomada de eventos em 2021 recuperou cerca 300 mil postos de trabalho, mas não foi o suficiente para recuperar o nível de emprego de 2019. Não sobraram nem os chapéus nos sinais para a família Iranzi, restou apenas a crença de que o palhaço voltaria a sorrir um dia, mas não sabiam quando.

Para atravessar o momento mais difícil de suas vidas, artistas populares tentaram suprir, entre si, as necessidades básicas. Atrizes, atores, brincantes e tantos outros organizaram cestas básicas para cuidar uns dos outros. Os palcos vazios afastaram os sonhos e aproximavam os medos, fazendo ecoar uma reivindicação antiga da classe, a efetivação de medidas de fomento à cultura.

Surge, em 2020, a Lei Aldir Blanc, uma legislação de incentivo cultural para reduzir os impactos da crise sanitária para o setor. Para Júnior Iranzi a implementação foi necessária para sobrevivência desses artistas:

“Seja a Adir Blanc do início da pandemia, ou a Lei Paulo Gustavo aprovada agora, precisamos agradecer qualquer política pública que olhe para a cultura, mas essas ações têm que ser permanentes, não apenas na pandemia. Nossa classe precisa muito”, defende o artista.

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Artistas defendem políticas públicas de fomento à cultura. Foto: Arquivo pessoal

Fazer circo não se resume à lona e ao picadeiro. Há, por trás dos grandes espetáculos, diversos custos com a regularização do trabalho, como todo outro. Taxas de licença, custos com circulação e manutenção dos equipamentos, criar um ambiente atrativo não é barato para o bolso de artistas que conquistam quase o mínimo para sobrevivência.

Após 25 anos de trabalho árduo, a família Iranzi viu o reconhecimento de sua arte chegar pela primeira vez em uma premiação. Em janeiro de 2022 eles venceram 4 categorias do Prêmio Ednaldo do Egypto: figurino, cenário, direção e espetáculo do ano. Foi uma noite de muita emoção para os brincantes. “A emoção tomou conta de nossos corações, não só pelos prêmios, mas pelo reconhecimento do nosso fazer artístico”, disse a família.

É nesse tom de agradecimento e numa insistência de quem não se vê abandonando a arte que os Iranzi seguem, reivindicando suporte e defendendo o que fazem como o trabalho de uma vida e um presente ao público, o de fazer sorrir e ansiar por um mundo melhor.

  • JORNAL DA PARAÍBA