O plantio de soja do Brasil em 2022/23 deverá ter aumento de apenas 0,5% ante a temporada anterior, o menor ritmo de expansão em mais de 15 anos, diante de um forte avanço nos custos para incorporação de áreas de pastagem para a sojicultura, avaliou o Itaú BBA em apresentação nesta terça-feira (29/03).

Na temporada passada, segundo dados da estatal Conab, o crescimento na área plantada de soja no maior produtor e exportador global da oleaginosa foi de 3,8%, para 40,7 milhões de hectares.

A área plantada com soja no Brasil vem crescendo acima de 1% desde 2007/08, segundo dados da Conab, compilados pelo Itaú BBA. Em 2006/07, o país registrou um atípico recuo de 9,1%.

“Embora as margens (da soja) estejam boas, os custos estão maiores… A conversão de área de pastagem saiu de 3.000 reais por hectare e hoje está em 7.000 reais”, disse o gerente de consultoria de Agronegócio do Itaú BBA, Guilherme Bellotti, em entrevista a jornalistas.

Segundo ele, esse crescimento de área deverá se dar mais como “inércia” do aumento do ano passado, considerando decisões de investimentos tomadas anteriormente.

Entre os custos que pesam para aberturas de áreas está o do cloreto de potássio, cuja oferta ficou escassa por questões relacionadas à guerra na Ucrânia e por problemas geopolíticos, após sanções ocidentais a Belarus.

Bielorrussos e russos estão entre os maiores produtores do fertilizante potássico, cujo preço disparou com a escalada do conflito.

O potássio está sendo negociado mais perto de 1.110 dólares a tonelada (custo e frete no Brasil), ante patamares de cerca de 400 dólares no mesmo período do ano passado. O fosfato monoamônico (MAP) mais que dobrou em direção a 1.400 dólares a tonelada (CRF-Brasil), no mesmo período.

Com esse aumento de área esperado, o Itaú projeta uma safra brasileira em 141 milhões de toneladas, um forte crescimento ante o total de 2021/22 (123 milhões de toneladas), quando as lavouras foram prejudicadas pela seca.

Em condições normais de clima o volume ficaria, contudo, perto do potencial não alcançado em 21/22.

Ele admitiu ainda que produtores deverão utilizar a chamada “poupança” de nutrientes do solo para enfrentar este período de altos custos dos fertilizantes, potencialmente reduzindo a aplicação a níveis que não interfiram muito nas produtividades esperadas.

O analista do Itaú BBA comentou que a alta de custos deve reduzir a chamada margem agrícola para a produção de soja de 60% em 2021/22 para 40% em 2022/23 –esse indicador não inclui custos financeiros e itens como a depreciação.

“O cenário é positivo, mas há incertezas”, declarou Bellotti.

O especialista disse ainda que, de outro lado, a tendência é de preços das commodities agrícolas em patamares “bastante elevados”, para fazer frente a tais custos adicionais, o que traz preocupações para consumidores, como as indústrias de carnes.

Ele estimou que o mundo precisará de pelo menos mais dois anos para trazer a oferta de produtos como soja a níveis confortáveis.

 

 

 

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