Foram exatos 41 dias. Neles se comprimiu um tempo de muito aprendizado, até a partida dela ontem.
Houve tempo para a dolorosa suspeita do final se tornar probabilidade forte e certeza. Tempo de tentar tingir o olhar com alguma projeção para um futuro, disfarçando na frente dela a crescente percepção de sua ausência nesta dimensão.

Tempo de chorar fora do campo de visão dela, de pegar muito na mão, resgatar o “abença mamãe” lá da infância, negligenciado por anos. Tempo também de receber muita solidariedade, contemplar o trabalho paciente e meticuloso de profissionais que lutam para devolver habilidades básicas subtraídas pela doença (obrigado, fisioterapeutas e fonoaudiólogos).

De mais uma vez constataram a valentia das equipes de enfermagem, decidida infantaria e espinha dorsal nas equipes de saúde. De ser cercado por tantos médicos amigos, muitos dos quais ex alunos, me enchendo de orgulho pela constatação de que coloquei um tijolinho que fosse na sua formação. De gratidão pela mulher de fibra ao meu lado, junto sempre para o que der e vier.

Da dor do coração partido clamando “ainda não vai, mãe!”, suplantada pela atitude serena do deixar ir em paz. Tempo de enxurrada de carinho e amizades.
Tempo de percepção nítida da Presença dAquele que colocou forças onde só parecia haver vazio e cansaço.

Minha mãe viveu 87 anos, criou seus filhos, viu seus netos e bisnetos. Anteontem viu a foto do recém chegado Guilherme e, já fraquinha para falar, embicou sua boca em beijos. Ontem almocei e jantei com meus dois irmãos, combinando as providências a tomar diante do desenlace próximo que se confirmou. Havia décadas que isso não acontecia, almoço e jantar juntos no mesmo dia, tal como na casa da rua Paulo Frontin da infância. Unidos visceralmente.

Um dia, daquelas em que a gente se queixa da vida, lamentei os telefonemas quase simultâneas de papai e mamãe. E recebi uma rasteira que julgo celestial, uma voz interior me dizendo: “Não se queixe, que você tem um privilégio com prazo de validade”. O de mamãe se esgotou ontem, deixando gostinho de quero mais.

Gratidão por tudo e todos envolvidos nessa luta. E pensar que tem gente com coragem de combater a família com discursos pretensiosos de instituição falida…

Até ontem, aos 62 anos, tinha pai e mãe, uma raridade na minha idade. Agora é caminhar com a saudade imensa dela, de sua voz, do seu andar apoiada em mim para seus passos lentos nos últimos anos. E aproveitar ao máximo a presença de meu pai quase centenário.

Ivan Abreu Figueiredo, maranhense, médico e filho saudoso.