“Não sei se a vida é curta ou longa demais para nós. Mas sei que nada do que vivemos tem sentido, se não tocarmos o coração das pessoas. Muitas vezes basta ser: colo que acolhe, braço que envolve, palavra que conforta, silêncio que respeita, alegria que contagia, lágrima que corre, olhar que sacia, amor que promove.

E isso não é coisa de outro mundo: é o que dá sentido à vida. É o que faz com que ela não seja nem curta, nem longa demais, mas que seja intensa, verdadeira e pura…enquanto durar”, Cora Coralina.

“A arte existe porque a vida não basta”, Ferreira Gullar.

Cito o poeta maranhense e uma poetisa goiana para falar de amor, na tentativa de amenizar a dor da perda, a brutalidade da morte, ainda mais quando essa perda é de uma pessoa muito jovem, com uma vida inteira pela frente, com sonhos, projetos, planos que não mais se realizarão.

A vida é um conjunto de incoerências, de idiossincrasias, de mistérios, de muitas perguntas sem respostas. De onde viemos, por que viemos? Para onde vamos? Quando vamos? Mistérios indecifráveis. Mesmo sabendo que estamos por aqui de passagem, que somos seres de transição, nunca estamos preparados para partir, e menos ainda os que por aqui ficam com o gosto amargo da saudade.

Saudade é o amor acompanhado, quando o amor não foi embora.

Saudade é amar o passado que ainda não passou, e certamente, nunca passará.

É recusar um presente que nos machuca, e não vê o futuro que nos convida a seguir em frente porque o tempo, que nos governa, não para.

Saudade é sentir o que existe e o que não existe mais, mas faz parte de nós. Saudade é a tristeza da perda, a dor do que ficou para trás. Saudade é o gosto amargo e indigesto da morte na boca dos que continuam.

Saudade dói, saudade maltrata, saudade dilacera, saúde também nos alimenta, por que o pior dos sentimentos é não sentir saudade.

Posso dizer com conhecimento de causa, o tempo passa, as coisas se acomodam, coisas novas surgirão, muitas deixarão de existir, mas a saudade não acabará jamais. Saudade… é o amor que fica.

Volto no tempo, rebobinando a memória, no inesgotável baú de lembranças, me transporto para a rua da Física, no Cohafuma, vejo meus filhos, Rodrigo e Frederico, garotos. Vejo teus filhos, Gardênia: Ramon e Raul, meninos, a descobrirem o mundo. Vejo meu amigo Valdir, o melhor “peão” que conheço. Fecho os olhos, são lembranças fortes de um tempo que ficou para trás. Tempos que nos marcaram de forma indelével, seguindo seu curso.

Estou fora do Maranhão, em minhas andanças por esse mundão, como um giramundo. É noite, estou às margens do rio Amazonas, faz silêncio, ouço uma orquestra de sapos, me conecto com o Deus Vivo, na esperança que ele, em sua infinita misericórdia possa acalentar o teu coração de mãe. Sinto a alegria contagiante de Raul, sorriso largo, firme, forte.

Acredito em energia, gosto de pessoas como Raul, com uma energia muito boa. Sempre que nos encontrávamos, ele mexia comigo; pessoas inteligentes são brincalhonas, alegres, leves. Frederico me contou que ao visita-lo, na companhia de 4F, “Jereba” para os íntimos, um dia antes da partida, ele quase não reagiu à presença deles. Mas, foi só uma menina chegar, passar a mão na perna dele, para ele brincar, recuperar as forças derradeiras. Ao que Frederico falou: Ah! “muleque”, conosco tu não tivestes essa reação”.

Ao que ele respondeu, “Jereba de branco, pensei que fosse médico”. Cabra bom, dos meus. Penso o mesmo, se vai acabar, que acabe com alegria.

A vida é isso, rasgar-se e cingir-se sempre. A vida é ilógica, mas parafraseando Santo Agostinho, digo: “A dor de tê-lo perdido não supera a alegria de um dia tê-lo possuído”.

Enquanto, os homens insanos, guerreiam, matando-se no Velho Mundo, tu lutaste bravamente para permanecer por aqui. Raul, guerreiro, meus respeito e admiração.

Gardênia, Ramon, Valdir, queridos amigos, nesta hora de dor e saudade, tenham a gratidão de elevar os pensamentos à Deus, Raul foi presente em vossas vidas, agora, ele está em outro plano. Deixou de viver entre nós para viver em nós.

Raul, cara, valeu, você é um muito especial, você marcou tua curta passagem por aqui, com tuas marcas registradas, que ficarão em nossas mentes e corações: a alegria e a leveza de viver, tudo que se espera de um bom cristão. Só morre quem é esquecido, você será sempre lembrado, pois marcou cada um de nós.

Fraternal abraço em todos.

Luiz Thadeu Nunes e Silva, Eng. Agrônomo, Palestrante, cronista e viajante: o sul-americano mais viajado do mundo com mobilidade reduzida, visitou 143 países em todos os continentes.