Volto aos idos de 1965,66, por volta dos meus seis ou sete anos. A São Luís menor de então ocupava quase todo o nosso universo imaginativo (pelo menos o meu e o dos primos mais próximos).

A praça Deodoro ficava a um quarteirão da casa dos avós maternos, lugar associado a brincadeiras, em contraste com a adjacente e mais séria praça do Panteon com seus bustos de ilustres maranhenses espalhados pelo quadrado em frente ao belo prédio da biblioteca pública.

A notícia de uma feira de negócios instalada na Deodoro, mais habituada às lanceadas (traduzindo para os mais jovens e de fora daqui: competição entre empinadores de papagaios, pipas) se espalhou como um rastilho de pólvora, tornando a visita ao local obrigatória na nossa então pacata capital. Chamava-se FIDIC. O que significava a sigla caiu no esquecimento e sinceramente nem nos interessava muito.

Cavucando a memória e usando certa lógica dá para discernir o F de feira, o I de indústria e o C de comércio. O outro I e o D caíram no olvido mesmo. Era como se tivéssemos entrado em outro universo, de luzes feéricas e atraentes. Um passeio inesquecível. Duas coisas se destacavam: um carro tipo desses utilitários, aberto deixando ver dentro a disposição dos itens de uma casa. O convite à possibilidade de viajar onde se morava (ou de morar onde se viajava) atiçava mil fantasias e planos, deixando-nos boquiabertos.

Mas o destaque maior era a roda gigante, seu movimento um ímã para todos nós. Como criança não podia ir desacompanhada, coube aos primos Suely e João, então namorados ou noivos, a tarefa de sentarem-se comigo no banco. Fechada a barra de segurança, eu entre os dois, o pouco medo amplamente superado pelo senso de expectativa de grandes coisas, a roda começou seu movimento. Vi ao longe as poucas luzes da ponta de São Francisco (ainda não existia a ponte que a ligaria ao centro da cidade onde estávamos), então uma pacata vila de pescadores, provavelmente sem luz elétrica.

E vi, repetidamente à frente e bem mais perto, as luzes do prédio do Banco do Estado do Maranhão, para mim um dos mais altos do mundo! (nove andares…). Me lembro de Suely, sempre cuidadosa como até hoje, checando se tudo estava bem com o primo que a impedia de estar a sós com João. Hoje entendo a oportunidade perdida por eles de passarem abraçados e a sós aqueles momentos…

Voltamos todos para casa dos avós impressionados com tanta coisa maravilhosa que existia e tinha passado tão perto de nós. A FIDIC foi logo embora, mas deixou lembranças fortes. Se encontrávamos alguém que a ela não compareceu, nos dividíamos entre alguma pena da pessoa e muito orgulho de termos estado lá, naquela atitude infantil de momentaneamente se julgar em vantagem em relação ao outro.

Ficaram as lembranças, as saudades, a amizade, o amor tecido nos fortes laços familiares. Ficou também uma nostalgia de nossa São Luís menor, ainda que – desconfio – mais charmosa que a atual. E, por favor, se algum dos antigos como eu se lembrar do significado da sigla FIDIC, por favor me ajude.

Bom dia, grato por lembranças gostosas.
Ivan Abreu Figueiredo