Em relatório, economistas veem recessão longa e profunda e o retorno de alguns fenômenos da década de 90, à medida que a tecnologia importada diminui
As sanções econômicas impostas pelos Estados Unidos e outros países ocidentais impõem uma contração profunda e prolongada na economia russa. A análise, reverberada diversas vezes por economistas mundiais, vem justamente de dentro da Rússia, mais especificamente do Departamento de Pesquisa do Banco Central russo. Segundo relatório divulgado na última quinta-feira, 21, os economistas definiram que a Rússia passará por uma “industrialização reversa”, motivada principalmente pelo bloqueio de tecnologia estrangeira. Em outras palavras, as consequências econômicas impostas por outros países em oposição a Vladimir Putin farão o país andar para trás.
A perspectiva do relatório contrasta com as previsões otimistas do Kremlin de que a Rússia resistiu ao pior das sanções e sua economia emergirá mais forte. Ele até prevê o retorno de alguns fenômenos vistos pela última vez na agitação da década de 90. “A atual recessão é de natureza transformacional e estrutural e será maior em escala e duração em todos os cenários” do que a última, desencadeada pelos bloqueios do Covid-19 em 2020, disse o Departamento de Pesquisa. A retirada da Rússia por centenas de empresas internacionais provavelmente terá um impacto maior do que as sanções diretas, disse.
Na avaliação dos economistas, as sanções deste ano cortaram as cadeias de suprimentos e as empresas russas lutam para compensar os componentes que não estão mais disponíveis. Com o tempo, máquinas e equipamentos se desgastam por falta de peças de reposição, reduzindo a eficiência. A profundidade da contração pode ser bastante significativa e a trajetória de saída traçada no tempo porque os choques de oferta desencadeados pelas sanções dificilmente desaparecerão rapidamente.
A desaceleração dos negócios resultará em queda na demanda, cortes de empregos e renda, enfraquecendo ainda mais a economia, segundo o relatório. A produção doméstica não deve aumentar para substituir a produção que falta neste estágio. As importações, especialmente de bens de consumo, mudarão para o “comércio de transporte” visto na década de 1990, quando os russos voaram em massa para a China, Turquia e outros mercados para trazer mercadorias para vender em mercados abertos. “Os pequenos volumes de compra e a logística complicada tornarão essas importações mais caras e significarão que é impossível substitui os fornecedores tradicionais”. O pior da contração na produção, renda e empregos “provavelmente acontecerá mais ou menos no final de 2022”, disse.
Em última análise, o processo de adaptação termina com “equilíbrio e desenvolvimento em uma base nova e menos avançada tecnologicamente”, de acordo com o relatório. Ainda não é possível dizer se as taxas de crescimento potencial da Rússia – cerca de 2% ao ano na última década – aumentarão ou diminuirão como resultado, disse.
O banco central divulgará suas previsões atualizadas após uma reunião de definição de taxas em 29 de abril e as perspectivas do Departamento de Pesquisa nem sempre coincidem com as oficiais. Mas a pesquisa do banco com analistas divulgada na quinta-feira descobriu que as expectativas de contração neste ano pioraram para 9,2%, enquanto a inflação é vista em 22% até o final de 2022 — atualmente, está em 16,7%.
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