O expresso tempo-espaço me transporta de novo aos anos 1960. Tempos em que tirar uma fotografia tinha alguns aspectos meio rituais, derivados da situação tecnológica de então. O preto e branco era a regra, íamos até os Fotos Azoubel, Souto e depois o Sombra (o único ainda sobrevivente). Lá éramos preparados, vestidos caprichosamente em cenários interessantes. Como muita criança desse tempo, tenho uma série de fotos compenetrado ao lado de um telefone, os cabelos então louros imaculadamente penteados, um pequeno executivo revelando as aspirações um tanto burguesas da nossa sociedade de então. Havia também aquelas fotos com um fundo diáfano em azul celeste, remetendo à religiosidade cristã e aí me lembro das fotos de primeira comunhão da prima Rachel em suas vestes como as de uma noiva. Pulo para 1975, eu desajeitado indo tirar a foto da primeira carteira de identidade, a recomendação de colocar os cabelos bem por trás das orelhas que tinham de estar visíveis, a convenção de vestirmos um paletó para a tal foto. O que me rendeu uma lembrança olfativa um tanto desagradável, provável mistura do mofo daquela peça guardada há muito tempo sem ser lavada com o suor de centenas de pessoas…

Nada de receber as fotos imediatamente, a não ser que estivéssemos dispostos a pagar mais pela maravilha divulgada na propaganda que dizia “faça sua foto 3×4 e a receba em 15 minutos”.

Ivan Abreu Figueiredo, com seus irmãos e seu pai, que completará 100 anos neste dia 06 de junho de 2022. Fonte da imagem: Arquivo pessoal do Ivan Abreu Figueiredo.

Mas a lembrança mais gostosa desse tempo é a de papai chegando em casa depois de um dia de trabalho, hora do jantar, trazendo um envelope retangular volumoso com as fotos de alguma ocasião especial: um aniversário, um passeio, uma viagem. Estávamos acostumados a esperar semanas pelas fotos quando coloridas, cuja introdução em nossa cidade teve o impacto de um rito de passagem para a modernidade. Havia as pitadas de suspense e torcida para as fotos mais esperadas não serem perdidas pelo velamento (os mais novos vão precisar da tradução desta palavra) dos filmes ou alguma falha técnica no processo de revelação. Sentados ao redor da mesa da sala, todos virávamos críticos amadores de fotografia. É certo que nossos critérios eram um tanto restritos a quem saiu bem ou mal na foto (expressão ainda hoje usada para repercussão de nossos atos) com ocasionais reconhecimentos da beleza de locais e do talento do fotógrafo.

Lamentávamos quando uma foto grudava na outra, danificando tão preciosa propriedade. Ríamos compartilhando lembranças, fazendo troça uns dos outros, como a que me enfurecia sobre um casaco vermelho que usei numa viagem à Argentina, primeira vez saindo do país.

Um local especial no coração para as fotos mais antigas, em preto e braço, numa das quais estou por volta de um ano de idade nos braços de mamãe, papai do outro lado, todo de branco, na indumentária de médico, meus dois irmãos que já eram capazes de andar, à frente, pose feita com cuidado nas dependências de uma dessas lojas, que tinham diversos ambientes pintados nas paredes de corredores longos. Uma foto feita num dia em que fui vacinado para alguma coisa, mas que pelas roupas caprichadas que usávamos, parecia até de uma cerimônia tipo casamento ou formatura. Aí a saudade se mistura à gratidão pelas mãos que nos prepararam nos mínimos detalhes para a concretização dessa imagem, do banho tomado à escolha das roupas ao pagamento do serviço.

E fico a pensar que o compartilhar lembranças com saudade e bom humor tem o condão de fortalecer simpatias, laços, solidariedade. Porque nesse momento lembro de muita gente querida que viveu as mesmas coisas. E que acho vai sorrir de um jeito doce e gostoso ao ler essas linhas.

 

Ivan Abreu Figueiredo