A nossa língua é incrivelmente bela e engraçada ao mesmo tempo. Ela tem todo um período histórico responsável pela versão que conhecemos atualmente. Pois bem. O uso do “g” e do “j” é um bom exemplo de que a troca de uma letra pode fazer com que alguém perca o encanto por outra. E eu posso provar. A origem de muitas palavras que recebem essas letras vem do grego, africano, árabe, tupi ou latim, esta última que serviu de base para origem da nossa língua portuguesa. E foi esse contexto que, em uma roda de amigos, Pedro explicava quando questionado sobre se a palavras “jipe” se escreve com “g” ou com “j”.

Uma das pessoas envolvidas na conversa se sobressaiu e contou que, outro dia, estava gostando de um rapaz, com quem sempre conversava por meio de mensagens instantâneas. Maria da Guia contou que o mesmo nunca tinha se dirigido a ela pelo nome. As redes sociais têm disso. Muitas vezes, o uso do vocativo utilizando o nome do interlocutor fica de fora de muitas conversas. Até os termos “bom dia”, “boa tarde” e “boa noite” são desnecessários para muitos. Ir direto ao que interessa está na moda para tantos. Os cumprimentos que fazem da educação algo tão importante, parece que tornaram-se bregas. Nem todo mundo usa.

Um “Oi, Maria da Gia” foi o suficiente para que a nossa querida Maria perdesse totalmente o encanto pelo rapaz. As risadas foram inevitáveis quando todos escutaram sua história regada à revolta e bom humor. Eis um bom exemplo de que, a comunicação vai muito além do que imaginamos, caros leitores. Quem é do Norte ou Nordeste sabe que uma Gia é uma rã comestível, consideravelmente grande, muito parecida com um sapo. E não era esse tipo de comparação que Maria da “Guia” queria que a mensagem daquele rapaz lhe remetesse. O coitado não teve culpa, afinal, faltou um pouco de atenção nas aulas de ortografia que teve durante sua vida, até aquele momento que decidiu escrever as palavras que culminaram no fim de um namoro que nem tinha começado.

E se você acha que acabou por aqui, engana-se. Enquanto aqueles amigos conversavam, uma senhora ouvia tudo, sentada perto do grupo. Aproximando-se, a idosa juntou-se aos jovens e começou a contar um fato parecido que lhe acontecera na juventude. Os tempos eram outros. As mensagens eram enviadas através de bilhetinhos deixados dentro dos livros didáticos, para que fossem lidas na hora do intervalo. O medo de alguém, que não fosse o destinatário, encontrasse era enorme. A nossa simpática senhora contou que, em um final de semana, resolveu pedir à uma de suas irmãs, que cortasse seu cabelo de franja, última moda na época.

Franja cortada, primeiro dia de aula após esse novo penteado. Ela estava sentindo-se a moça mais chique daquele lugar. Chegou a hora de ler o bilhetinho do garoto pelo qual suspirava, o qual nunca tinha sequer pegado em sua mão. Qual não foi a surpresa. No meio de todas as declarações da mensagem, surgiu a seguinte pérola: “Você está linda de “franga”!. Pois é, queridos leitores, soube que tem gente rindo até hoje com o relato daquela mulher. Após todos se recomporem, ela finalizou dizendo: Estudem, pois imaginem se fosse um de vocês recebendo esse tipo de coisa. O amor está em primeiro lugar, mas os detalhes dizem claramente se ele vale a pena ou não. Cuidado para não passar esse tipo de vergonha”.

Maria da Guia não era uma Gia, mas uma morena cor de canela, com olhos cor de jabuticaba e nariz arrebitado. A moça da franja tinha seus encantos, risonha e muito simpática, porém ela nunca mais quis usar o cabelo com aquele corte. Esse bilhete estava guardado até outro dia, quando a irmã cabeleireira o encontrou e trouxe à tona esse fato uma tanto quanto curioso. A comunicação humana é linda e até difícil para muitos, mas de uma coisa eu tenho certeza: não saiam por aí usando as letras erradas. Isso pode acabar o encanto de alguém por você. Ou vice-versa.

O que importa é que as experiências ficam e os aprendizados também. A variação linguística é outro assunto interessante, algo natural de cada região. Só não foi natural para uma amiga que estava em uma festa e um rapaz parou à sua frente e lançou um “Eu gostei muito da sua venta”. Mas isso é um assunto para outro momento.

 

Maria Daniele de Souza Lima

Sobre a autora: Professora de Língua portuguesa, colunista e estudante de Jornalismo digital.