“Graças à sua mediação, pudemos avançar. É verdade que nem todos os problemas foram resolvidos ainda, mas há mudanças, e isso é bom”, declarou Putin em um comunicado enviado pelo Kremlin.

No documento, o presidente russo não poupa elogios aos “esforços” de Erdogan. “Gostaria de agradecer por ter proposto a Turquia como um terreno de negociação sobre o problema da produção de alimentos, os problemas das exportações de grãos no Mar Negro”, reiterou.

Putin e Erdogan viajaram a Teerã para discutir o conflito na Síria, sob a liderança do Irã, mas a guerra na Ucrânia também faz parte da agenda. No encontro, os líderes turco e russo abordaram conjuntamente os mecanismos para permitir a exportação de cereais da Ucrânia, bloqueados pela ofensiva militar russa, através de corredores marítimos.

Na última sexta-feira (15), o Ministério da Defesa da Rússia afirmou que um “documento final” que permite a exportação de grãos estará pronto em breve. De acordo com o conselheiro diplomático do Kremlin, Yuri Ouchakov, um centro de coordenação também deve ser aberto em Istambul para possibilitar essas exportações pelo Mar Negro.

O acordo, negociado pela ONU, visa a trazer cerca de 20 milhões de toneladas de grãos bloqueados em silos ucranianos por causa da ofensiva russa no país.

Segundo o Kremlin, durante sua reunião com Erdogan, o presidente russo também tratou de “vários assuntos” sobre a resolução da guerra na Síria, bem como “a outra questão importante”, o conflito em Nagorno-Karabakh, região montanhosa em disputa entre Armênia e Azerbaijão. Putin teria expressado sua alegria em se encontrar com o líder turco, apesar das “agendas muito ocupadas” de ambos.

Já Erdogan disse esperar contar com “o apoio da Rússia e do Irã na luta contra o terrorismo” na Síria. Segundo ele, “apenas palavras não serão suficientes” para que a questão avance. O presidente turco classifica de terrorista os principais movimentos curdos que operam no nordeste da Síria, na fronteira com a Turquia, onde ameaça intervir.

O líder supremo do Irã, o aiatolá Ali Khamenei, também se reuniu com Putin e Erdogan nesta terça-feira. Ele fez um apelo em prol da “cooperação a longo prazo” com a Rússia, “vantajosa para os dois países”, por meio de um comunicado oficial. “Há acordos e contratos entre as duas nações nos setores do petróleo e do gás que devem continuar a serem completamente colocados em prática”, reiterou.

Putin prometeu que a Rússia irá “preservar sua independência” frente aos Estados Unidos, uma iniciativa saudada por Khamenei. Para o líder supremo, “o dólar americano deve ser gradualmente retirado das trocas comerciais mundiais”.

Sobre a invasão russa na Ucrânia, Khamenei declarou que, apesar de lamentar o sofrimento de civis, a Rússia tinha uma margem de manobra reduzida. “Se vocês não tivessem tomado a iniciativa, o outro campo [Kiev] teria provocado uma guerra por conta própria”, disse.

A reunião em Teerã acontece dias após a viagem do presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, ao Oriente Médio, quando visitou Israel e a Arábia Saudita, dois países hostis ao Irã. A discussão sobre o programa nuclear iraniano foi, inclusive, um dos temas principais da visita do presidente norte-americano.

Segundo os Estados Unidos, a Rússia planeja a compra de centenas de drones fabricados no Irã. A informação foi negada pelo Irã e o Kremlin não quis comentar o assunto. Entretanto, Vincent Tourret, pesquisador da ONG francesa Fundação para Pesquisa Estratégica, acredita que a negociação é bem possível, já que os iranianos possuem a tecnologia que falta à Rússia.

“Os drones iranianos são de baixo custo, fáceis de usar e de simples reprodução, o que pode interessar à Rússia. Os russos têm drones de observação, eles começaram a desenvolver e produzir o Orion, mas ficaram para trás na criação de um drone que pudesse observar e atacar, e é isso que os iranianos podem fornecer”, afirmou o especialista.

G1