Todo show tem início, meio e fim, assim como tudo que faz parte de um ciclo. A vida também é um show, pois o intervalo entre o abrir e o fechar das cortinas é onde nós, protagonistas de um enredo fantástico, apresentamos nossas habilidades como grandes artistas da obra divina.

A morte, o substantivo abstrato mais temido da nossa existência é o personagem que, mesmo não querendo sua atuação, fará parte da história de cada um de nós. Muitos fazem dos palcos um meio de ganhar a vida. Outros fazem a vida dos outros ganhar sentido através dos palcos. Quando as cortinas se fecham, também se fecham as emoções, os medos, os risos… porém ficam os aplausos, muito aplausos.

05 de agosto de dois mil e vinte e dois, as cortinas da vida se fecharam para José Eugênio Soares, o Jô. Apresentador de televisão, humorista, dramaturgo, diretor teatral, escritor, ator e músico. Os aplausos continuam por meio dos amigos, fãs e por quem conheceu e admirava seu trabalho. A morte é muito traiçoeira. Não sabemos até onde a sua atuação é de acordo com o nosso tempo pré-determinado ou se ela age de acordo com as consequências do que fazemos ou deixamos de fazer por aqui. Nunca saberemos.

As cortinas da vida também se fecharam para uma mãe, esposa e jovem que partiu ao mesmo tempo em que trouxe outro ser para a vida. Em uma viagem entre uma cidade e outra, me deparo com um rapaz que, com a mão, acena para que o carro pare. A sua entrada no veículo já foi com o doloroso relato de “estou indo buscar o corpo da minha esposa, que morreu dando à luz ao meu filho”. Se você, caro leitor, sabe o significado de fúnebre, multiplique-o por mil, visto o silêncio sepulcral que ficou dentro daquele automóvel. Ninguém, assim como eu, tinha nada para dizer. A morte cala quem ela leva e quem fica.

Aquela moça, com base nas matérias que vi posteriormente sobre ela, tinha a minha idade. Jô Soares tinha 84 anos. Os trinta e cinco anos que já vive são dádivas que quero que ultrapassem a idade deste último, porém, se o conseguir ou não, farei valer cada minuto a mim concedidos, pois, assim como o próprio Jô falou em uma entrevista, quando questionado sobre “o que é a vida”, sua resposta foi “sei lá… não faço a mínima ideia.

Eu sei que ela tem que ser vivida […]”. A negritude das cortinas que a finitude da vida puxa, uma contra a outra, não deixa brechas. É doloroso ouvir um relato tão doloroso, às 6h30 da manhã, de um pai que disse estar sentindo-se gelado pela dor. Uma dor que deixou o ar pesado e me fez segurar as lágrimas.

Jô sabia dar as melhores informações de maneira leve e bem-humorada, sob uma simplicidade enraizada na experiência e no conhecimento que adquiriu ao longo dos anos de vida e de trabalho no mundo da comunicação. Ah, a comunicação! Ela faz valer o talento que muitos têm de contar histórias, assim como eu a utilizo hoje para contextualizar duas situações distintas, no sentido de realidades, mas totalmente iguais, quanto a partida daqui para o lugar onde não quero saber tão cedo onde fica, como é e quando irei.

Só sei que viver é bom demais. Viver também é isso: deparar-se com dores, alegrias, vitórias, chegadas e partidas. Enquanto escrevo, olho o sol entrando pela porta da minha casa e agradeço por poder estar aqui para fazer isso, apenas ver, sentir… viver! Talvez seja o mesmo sol que bate nas lágrimas daquele homem ou que iluminam as pessoas que chegam ao velório de José Eugênio, o homem que fez da comunicação seu alimento e a inspiração para muitos.

Palmas, as cortinas se fecharam. O show acabou? Não, ele continua. A vida é um ciclo que acontece neste plano e até onde não podemos conhecer. Tudo faz parte de uma engrenagem perfeita, orquestrada por um poder supremo, muito além do que somos capazes de saber. Apenas sentir, apenas viver. Ah, e não deixe para reconhecer o espetáculo do artista depois que ele se escondeu por trás das cortinas que se juntaram.

Maria Daniele de Souza Lima

Sobre a autora: Professora, estudante de Jornalismo Digital, cronista e especialista em Linguística e Literatura.