Pessoas acima de 80 anos foram 46% dos mortos por covid em julho. O percentual é o maior de toda a pandemia.

O dado reforça a tendência observada nos últimos meses de que, conforme permanece a tendência de menor mortalidade entre os que se infectam pelo coronavírus, os casos graves se concentram nos grupos mais frágeis: idosos e imunossuprimidos.

Já a faixa etária que inclui todos os maiores de 60 anos esteve em 85% das 4.621 mortes de julho, também um recorde.

“Conforme a vacinação deixou todos mais protegidos, os idosos ocupam fatia proporcionalmente maior das mortes. Está difícil alguém com menos de 60 ter quadro grave de covid”, diz Marcelo Gomes, coordenador da plataforma Infogripe.

OS SEM VACINA TÊM MORTALIDADE MAIOR

A maior parte dos mortos por covid em julho (57%) tinha 3ª dose de reforço vacinal. Isso ocorre porque a maioria da população está vacinada. Acontece também porque o grupo mais frágil e mais presente nas mortes (idosos), é também o com maiores proporções de imunização.

Isso não significa que a vacina não esteja funcionando.

É possível ver o quanto a vacinação preveniu as mortes ao analisá-las por faixa etária.

As pessoas sem vacina, por exemplo, representam menos de 1% na população acima de 80 anos. Ao mesmo tempo, representaram 11% dos mortos em julho por covid nessa faixa etária.

A mesma dinâmica (sem vacina ocupando proporção maior dos mortos) é observada em todas as faixas etárias.

A comparação acima usa dados de vacinação do LocalizaSus e projeções de população do IBGE para 2022 para calcular a taxa de pessoas vacinadas na população. Por causa do atraso do Censo, é possível que existam imprecisões.

Abaixo, é possível ver a cobertura vacinal por faixa etária:

O projeto Infogripe, da Fiocruz, fez ponderações estatísticas em relatório recente sobre o tema para minimizar a desatualização do Censo.

A comparação identifica com mais precisão o efeito da vacina ao calcular uma taxa de casos graves de covid (internação ou morte) por faixa etária. A conclusão é a mesma: os mais vacinados têm risco menor.

Segundo os dados do Infogripe (que compreendem o período do início de junho ao início de julho), em todas as faixas etárias a taxa de internação ou morte por covid é menor entre quem tomou reforço e maior entre os que não são vacinados.

Já os não vacinados, em contraposição, têm taxa de mortalidade maior em todas as faixas.

Não ter vacina, no caso dos idosos, está relacionado a um risco dobrado em relação a quem tem dose de reforço.

O dados da Fiocruz mostram que, no caso das outras faixas etárias, o risco de casos graves, vai do triplo a 11 vezes (entre os adolescentes de 12 a 17 anos).

O RISCO DA IDADE

Os dados do Infogripe mostram com clareza o principal fator de letalidade quando se pega covid. O grupo que mais teve internações ou mortes foi o de pessoas acima de 80 anos sem vacina. Foram 208 casos desses em julho a cada 100 mil habitantes.

Os idosos da mesma faixa etária com a vacina em dia (ao menos 3 doses) têm o risco reduzido à metade: 111 mortos por 100 mil habitantes. Mesmo assim, essa taxa ainda é muito superior ao de qualquer outra faixa etária.

A taxa de uma pessoa de 40 anos sem vacina, por exemplo, foi de 9,8 casos graves a cada 100 mil brasileiros, menos de 1/10 da taxa dos maiores de 80 anos.

Os jovens têm risco ainda menor. A Fiocruz calculou 4,4 internações ou mortes a cada 100 mil pessoas não vacinadas de 18 a 29 anos. Ou seja, o risco de alguém com 80 anos vacinado ter um caso grave de covid é 50 vezes o de um jovem sem vacina.

Nesta mesma comparação, o risco de um idoso vacinado de 60 a 69 anos ter caso grave é o dobro do perigo de um jovem não vacinado.

A conclusão é que a vacina protege em todas as faixas etárias, mas ter idade avançada aumenta o risco exponencialmente.

CUIDADOS COM IDOSOS

A vacinação reduziu a mortalidade de todas as faixas etárias na pandemia. Com isso, o Brasil vive um relaxamento geral. Mas há motivos fortes para quem tem idade avançada não descuidar das medidas protetivas.

Essa população responde pior às vacinas e tem mais risco de escape imune. São os idosos e imunossuprimidos que continuarão sofrendo mais”, afirma Alberto Chebabo, presidente da Sociedade Brasileira de Infectologia.

Infectologistas consultados pelo Poder360 listam 3 fatores principais para que a redução do risco ter sido menor entre os mais velhos:

  • imunossenescência – qualquer vacina (para qualquer doença) é menos eficaz na população idosa;
  • queda de eficácia – a efetividade da vacina reduz conforme o tempo passa. Os idosos são os que tomaram a 3ª dose de reforço vacinal há mais tempo e há adesão mais baixa à 4ª dose;
  • grupo mais frágil – essa população já é a que corre mais risco de se internar por outras doenças. Muitos ficam doentes de covid ao mesmo tempo que têm outros males que os levam à morte.

O estágio atual da pandemia é o de menor mortalidade para todos. Entretanto, conforme o vírus circula mais (e este ano de 2022 já bateu todos os recordes de casos), mais pessoas adoecem e os menos protegidos de idade avançada ficam com risco aumentado.

É muito importante que esse grupo tome a 2ª dose de reforço. A baixa adesão a essa vacina está prejudicando os idosos. Muitos passaram a se questionar a razão de mais uma vacina no momento em que a pandemia está menos grave. Mas essa população continua tendo risco aumentado de adoecimento grave”, diz a imunologista Rachel Stucchi, da Unicamp.

Poder 360