Postes de eletricidade são vistos ao pôr do sol em Romanel-sur-Lausanne, oeste da Suíça, em 23 de agosto de 2022 — Foto: Fabrice COFFRINI / AFP

A Suíça está entre os países mais ricos do mundo, mas sua dependência do gás russo e da energia nuclear francesa ameaça a nação alpina com falta de energia ou até apagões no próximo inverno.

Com centenas de usinas hidrelétricas espalhadas pelos Alpes, a Suíça produz muita energia durante os meses de verão.

Mas quando o frio chega, deve recorrer às importações.

Em geral, isso não é um problema, mas este ano, com a guerra na Ucrânia e a redução do fornecimento de gás russo para grande parte da Europa, a ameaça de escassez de energia se torna cada vez mais real.

Salão de turbinas subterrâneas na usina elétrica de armazenamento bombeado de Nant de Drance, oeste da Suíça — Foto: Fabrice COFFRINI / AFP

Salão de turbinas subterrâneas na usina elétrica de armazenamento bombeado de Nant de Drance, oeste da Suíça — Foto: Fabrice COFFRINI / AFP

A Suíça não é o único país europeu em alerta, embora sua situação seja particularmente precária, pois carece de instalações de armazenamento de gás.

Geralmente depende de importações de países vizinhos da União Europeia (UE), especialmente eletricidade produzida a gás na Alemanha.

No entanto, agora que o bloco está preocupado com seu próprio abastecimento, a Suíça, país não pertencente à UE, está no final da fila.

Prédio em Bucareste, na Romênia, apresenta bandeira da União Europeia do lado de fora — Foto: Bogdan Cristel/REUTERS

Prédio em Bucareste, na Romênia, apresenta bandeira da União Europeia do lado de fora — Foto: Bogdan Cristel/REUTERS

Para agravar o problema, a vizinha França teve que interromper a produção de metade de seus reatores nucleares, principalmente devido a problemas de corrosão, explicou à AFP Stéphane Genoud, professor de gestão de energia da universidade suíça HES-SO.

A Suíça vem trabalhando para melhorar seu sistema de produção e armazenamento de energia, mas nem mesmo a inauguração, no próximo mês, de uma nova usina hidrelétrica reversível evitará problemas neste inverno.

“Bateria gigante”

 

Funcionário caminha em direção a uma das válvulas de segurança gigantes do conduto forçado, em Nant de Drance, oeste da Suíça. — Foto: Fabrice COFFRINI / AFP

Funcionário caminha em direção a uma das válvulas de segurança gigantes do conduto forçado, em Nant de Drance, oeste da Suíça. — Foto: Fabrice COFFRINI / AFP

A usina de Nant De Drance está localizada em uma caverna a 600 metros de profundidade e a uma altitude de 1.700 metros, a poucos quilômetros do Mont Blanc, o pico mais alto da Europa Ocidental.

Ao contrário das usinas hidrelétricas normais, que geram energia liberando água das barragens por meio de turbinas, os sistemas de bombeamento e armazenamento não ficam sem energia quando os reservatórios secam.

De fato, a usina de Nant De Drance, localizada entre duas grandes barragens em diferentes alturas, funciona “como uma bateria gigante”, diz Robert Gleitz, da empresa de energia suíça Alpiq, uma das principais acionistas da instalação.

Durante o pico de demanda, produz energia da maneira tradicional, enviando água do reservatório superior de Vieux-Emosson para o reservatório inferior de Emosson.

transformadores na usina de eletricidade de armazenamento bombeado de Nant de Drance, no oeste da Suíça — Foto: FABRICE COFFRINI / AFP

transformadores na usina de eletricidade de armazenamento bombeado de Nant de Drance, no oeste da Suíça — Foto: FABRICE COFFRINI / AFP

Mas quando a produção de energia solar e eólica é alta e a demanda é menor, a água do Emosson é bombeada para o reservatório superior, armazenando o excesso de eletricidade gerada.

“Quando há muita eletricidade na rede, armazenamos a água na barragem superior”, disse Gleitz à AFP durante uma visita às suas instalações.

Dessa forma, pode aumentar a produção em épocas de alta demanda, como o inverno, e no processo reduzir a necessidade de importação de energia.

Apagões

 

Gleitz alerta que a usina ajudará a lidar com breves picos de consumo, mas pouco poderá fazer diante da escassez de longo prazo.

A usina “complementa uma produção de eletricidade renovável que ainda é muito baixa”, diz Nicolas Wüthrich, do grupo ambientalista Pro Natura.

Esta organização, entre outras, há muito lamenta o atraso da Suíça em desmantelar seus antigos reatores nucleares e fazer a transição para energias renováveis.

O país tinha apenas 37 turbinas eólicas em 2020, enquanto especialistas dizem que precisaria de cerca de 750 para atingir a meta do governo para produção de energia renovável em 2050.

A organização suíça encarregada de garantir o acesso à energia em tempos de crise alertou no final de 2021 que um alto risco de falta de eletricidade estava “surgindo”.

E os acontecimentos geopolíticos desde então só aumentaram essa possibilidade.

A Suíça alertou contra o exagero do risco, mas reconheceu que está se preparando para uma potencial falta de energia.

O diretor da comissão federal de eletricidade, Werner Luginbuhl, advertiu para o risco de apagões de várias horas.

Nesse sentido, varejistas de todo o país relataram uma avalanche de consumidores interessados em painéis solares e geradores.

G1