Pâmela Bessa foi espancada até a morte em setemebro de 2020 no Sertão da Paraíba. — Foto: Arquivo Pessoal/Bruna Bessa

Hélio José de Almeida Feitosa, o acusado pelo feminicídio de Pâmela Bessa, em setembro de 2020, em Poço José de Moura, Sertão da Paraíba, vai ser julgado nesta terça-feira (20), no Fórum de Justiça de São João do Rio do Peixe. O julgamento teve início por volta das 10h. O caso gerou grande repercussão no estado e uma série de protestos aconteceram na região do Sertão.

Pâmela do Nascimento Bessa, de 27 anos, estava grávida de 5 meses quando foi assassinada em 7 de setembro de 2020. Além da gestação, ela era mãe de três filhos. Ao que tudo indica, Pâmela foi espancada até a morte pelo esposo Hélio que, após cometer o crime, levou seu corpo até o hospital alegando que ela havia desmaiado por dores de cabeça. No entanto, o médico legista percebeu lesões no corpo da vítima e acionou a polícia.

Protestos cobrando justiça por Pâmela foram realizados na região do Alto Sertão. — Foto: Coletivo Mulheres a Bessa

Protestos cobrando justiça por Pâmela foram realizados na região do Alto Sertão. — Foto: Coletivo Mulheres a Bessa

Entre 19h e 19h20 do dia do crime, Hélio tentou dar entrada no posto de saúde já com Pâmela desacordada. Mas o funcionário informou que aquele tipo de atendimento não poderia ser feito no local, então foi feito o acionamento do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu).

Nesse momento, segundo o então delegado Glauber Fontes, o suspeito “começa a ludibriar as autoridades”, dizendo ao médico do Samu que a esposa teria tido um desmaio repentino e que teria ferido o tornozelo quando caiu. Pâmela é encaminhada, ainda desacordada, para o hospital de São José do Rio do Peixe. No entanto, antes mesmo de dar entrada no hospital, Pâmela teve uma parada cardiorrespiratória e morreu dentro da ambulância do Samu.

Hélio José de Almeida Feitosa chegou a ser levado à delegacia para prestar depoimento, mas alegou que não tinha espancado Pâmela e, em seguida, foi liberado pelo delegado de plantão. No dia seguinte, quando policiais foram até a residência para intimá-lo, ele já tinha fugido. Na época, um inquérito chegou a ser aberto para investigar quem ajudou Hélio a fugir.

Hélio só foi preso três meses depois, no dia 5 de dezembro de 2020, em Rio Grande da Serra, em São Paulo.

RELEMBRO O CASO

O laudo do Instituto Médico Legal (IML) identificou que Pâmela sofreu pancadas no abdômen, que resultaram em uma hemorragia interna, e teve duas costelas fraturadas. Além disso, a investigação da polícia civil também constatou que, em fevereiro de 2020, Hélio já havia agredido Pâmela e provocado um outro aborto devido as lesões do espancamento.

Protestos

 

Protesto cobrando justiça por Pâmela foi realizado em 20 de setemebro de 2020, na Praça Pública de Poço José de Moura. — Foto: Coletivo Mulheres a Bessa

Protesto cobrando justiça por Pâmela foi realizado em 20 de setemebro de 2020, na Praça Pública de Poço José de Moura. — Foto: Coletivo Mulheres a Bessa

O caso de Pâmela motivou uma série de protestos pioneiros contra o feminicídio no Alto Sertão Paraibano. Mulheres de Poço José de Moura e dos municípios circunvizinhos criaram um coletivo feminista chamado “Mulheres a Bessa” como forma de homenagear Pâmela e organizar protestos que cobrassem justiça pelo caso, como também medidas contra a violência doméstica.

Mulheres realizam um memorial em praça pública em homenagem às vítimas de feminicídio. — Foto: Coletivo Mulheres a Bessa

Mulheres realizam um memorial em praça pública em homenagem às vítimas de feminicídio. — Foto: Coletivo Mulheres a Bessa

O maior protesto envolvendo o feminicídio aconteceu no dia 20 de setembro, exatamente dois anos atrás, quando cerca de 150 mulheres ocuparam a praça pública de Poço José de Moura para realizar um memorial e cobrar respostas às autoridades, gerando grande repercussão na região.

‘Nossa mãe desconfiava do que ela passava’

 

Pâmela e a família mantinham contato mesmo morando longe — Foto: Arquivo Pessoal/Bruna Bessa

Pâmela e a família mantinham contato mesmo morando longe — Foto: Arquivo Pessoal/Bruna Bessa

“A cidade é pequena, então todos se conhecem. Todo mundo gostava de Pâmela”. É com palavras em tom de saudade e orgulho que a irmã de Pâmela, Bruna Bessa, a descreve. No dia que Pâmela foi morta, Bruna estava em São Paulo. A paraibana morava em outro estado há mais de dois anos e, depois do crime, voltou ao Sertão paraibano.

“Qual a mãe que não conhece o filho?”, questiona Bruna retoricamente quando perguntada se a família imaginava as agressões que Pâmela sofria. Segundo Bruna, a irmã não contava nada à família, nem das atitudes abusivas, nem mesmo das agressões, quando começaram a acontecer. Talvez por medo do que poderia acontecer, ou para não preocupar a família, ela sofria calada e sozinha. Mesmo sem falar, a mãe sentia o que a filha passava, afirma a irmã.

Violência contra a mulher e feminicídio

 

De acordo com o artigo 5º da Lei Maria da Penha, a violência contra a mulher é caracterizada como “qualquer ação ou omissão baseada no gênero que lhe cause morte, lesão, sofrimento físico, sexual ou psicológico e dano moral ou patrimonial”.

Feminicídio é o assassinato de uma mulher cometido devido ao fato de ela ser mulher ou em decorrência da violência doméstica. Foi inserido no Código Penal como uma qualificação do crime de homicídio em 2015 e é considerado crime hediondo.

Veja como denunciar

 

O atendimento às vítimas pode ser realizado direto nas Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher (disque 180). Para casos de emergência, a Polícia Militar deverá ser acionada (disque 190). Para denúncias anônimas, busque a Polícia Civil (disque 197). O centro de Referência da Mulher Ednalva Bezerra, em João Pessoa, que acolhe mulheres vítimas de violência, pode ser acionado pelo número 0800 283 3883.

*Sob supervisão de Jhonathan Oliveira

g1