Manifestante exibe fotografia de Mahsa Amini em protesto contra morte da jovem pela 'polícia moral' iraniana em Istambul - Ozan Kose - 20.set.22/AFP

Os protestos contra a morte de uma jovem presa por não usar o véu islâmico no Irã entraram no quinto dia com manifestações espalhadas por 15 cidades, um saldo de ao menos seis mortos confirmados oficialmente e cerca de 500 presos, segundo ONGs de direitos humanos.

Soma-se ao cenário o aumento da pressão internacional para que o Irã investigue o ocorrido e respeite as liberdades das mulheres. Também houve de relatos de interrupção do sinal de internet e o bloqueio do acesso ao Instagram.

A morte de Mahsa Amini, 22, ocorreu depois que a jovem foi detida pela polícia moral em Teerã, acusada de usar “trajes inadequados”. Embora as circunstâncias do óbito ainda permaneçam incertas, o ocorrido despertou a ira de parte da população —ao desalento com a crise econômica se somou o descontentamento com as restrições às liberdades.

Amini foi detida sob argumento de que deveria ser “convencida e educada”, mas saiu da prisão diretamente para o hospital, onde morreu três dias depois.

Os protestos começaram no sábado, no funeral de Amini na província iraniana do Curdistão, onde ela vivia, e chegaram a 15 cidades nesta quarta-feira (21), segundo a imprensa estatal.

Os manifestantes bloquearam ruas, atiraram pedras contra as forças de segurança e incendiaram viaturas policiais e latas de lixo, enquanto gritavam frases contra o regime. A polícia usou gás lacrimogêneo e prendeu pessoas, segundo a agência estatal IRNA. Muitas iranianas retiraram seus véus e os incendiaram como forma de protesto.

Há versões conflitantes sobre o número de mortos em confrontos entre manifestantes e policiais. ONGs de direitos humanos falam em ao menos oito; até agora, seis foram confirmadas por autoridades —três teriam ocorrido nesta quarta, sendo que uma das vítimas seria um agente das forças de segurança.

Membros do governo têm atribuído algumas das mortes a grupos terroristas e “agentes contrarrevolucionários”. O grupo de direitos humanos Hengaw também afirma que cerca de 450 pessoas ficaram feridas e quase 500 foram presas, números que não podem ser verificados de forma independente.

O Hengaw também relatou que o acesso à internet foi cortado na província do Curdistão —medida que impediria o compartilhamento de vídeos de uma região onde as autoridades já reprimiram a agitação da minoria curda. Nesta quarta, o observatório NetBlocks apontou que o regime também restringiu o acesso ao Instagram.

Mais cedo, meios de comunicação oficiais noticiaram que o ministro das Comunicações do país havia afirmado que os serviços de internet poderiam ser interrompidos por razões de segurança. Ele depois voltou atrás e se disse mal interpretado.

O líder supremo, aiatolá Ali Khamenei, não mencionou os protestos durante discurso nesta quarta, em que relembrou a guerra entre Irã e Iraque nos anos 1980. O presidente Ebrahim Raisi, em seu discurso na Assembleia-Geral da ONU, também se esquivou do assunto, mas acusou o Ocidente de ter “dois pesos e duas medidas” em relação aos direitos das mulheres.

Os EUA afirmaram, por meio de um porta-voz da Casa Branca, que deve haver responsabilização pela morte da jovem, que classificaram de “terrível e escandalosa”. Ressaltaram, ainda, os direitos das mulheres de exercerem seus direitos fundamentais, incluindo se vestir da maneira que quiserem.

Nesta quarta, Tariq Ahmad, subsecretário britânico de Relações Exteriores, pediu ao Irã que investigue as circunstâncias da morte de Amini com rigor e transparência e que liberte “manifestantes detidos injustamente”.

Policiais negam que Amini tenha sido agredida. A versão oficial é que ela sofreu um ataque cardíaco. Ativistas afirmam, porém, que a abordagem das autoridades em casos do tipo tem sido violenta, muitas vezes com espancamentos.

No Irã, após a Revolução de 1979, que abriu espaço para um regime teocrático, a lei passou a afirmar que mulheres são obrigadas a cobrir o cabelo com véu e a usar roupas largas para encobrir o formato de seus corpos. Aquelas que descumprem a norma enfrentam repreensões públicas, multas e mesmo a prisão.

A lei nunca deixou de ser questionada, apesar da repressão. Ao longo dos últimos meses, ativistas de direitos humanos têm influenciado mulheres a retirarem o véu publicamente em protesto contra o código de vestimenta, o que desagrada a governantes e agentes de segurança, que afirmam que o ato configura um comportamento imoral.

UOL