Scleromochlus taylori (Foto: Reprodução)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) — Um novo estudo desvendou como era o esqueleto do animal considerado “primo” dos ancestrais dos pterossauros, répteis voadores que viveram na Terra do período Triássico ao final do Cretáceo (de 220 milhões a cerca de 65 milhões de anos atrás).

O fóssil em questão, batizado de Scleromochlus taylori, foi descrito pela primeira vez em 1907, pelo paleontólogo inglês Arthur Smith Woodward, mas à época o pesquisador o considerou como um dinossauro primitivo.

Estudos subsequentes do fóssil — que tem pelo menos sete esqueletos conhecidos — o classificaram de forma distinta, sendo considerado como um réptil arcossauro basal (grupo que inclui os crocodilos e as aves modernas e os seus parentes extintos), como um avemetatarsal basal (grupo que inclui, de um lado, os pterossauros, e do outro, os dinossauros, incluindo as aves ) e até mesmo como um ancestral dos dinossauros.

A nova pesquisa, publicada na edição desta quarta-feira (5) da revista científica Nature, foi feita à luz de técnicas modernas de microtomografia computadorizada — a mesma técnica utilizada em exames médicos para, por exemplo, ver as estruturas internas e órgãos do corpo. A técnica foi crucial para revelar formas e ossos do corpo antes desconhecidos ou que foram interpretados de maneira errada no passado.

Participaram do estudo pesquisadores do centro Nacional de Museus da Escócia, das universidades de Birmingham, de Bristol e de Edimburgo, e do Museu de História Natural de Londres, todos no Reino Unido, do Departamento de Geociências da Virginia Tech, Estados Unidos, da Universidade de Erlangen-Nüremberg, na Alemanha, e da Academia Chinesa de Ciências, na China.

Os esqueletos de S. taylori foram descobertos em rochas calcárias do norte da Escócia, próximo ao município de Elgin, em placas muito finas, pressionados contra o sedimento rochoso, e de difícil visualização das estruturas que estão inseridas na placa. Isso fez com que a maioria dos ossos ali presentes fossem, na verdade, representados pelo contramolde dos mesmos ossos — isto é, a marca que o osso deixa na rocha, mas o osso em si já não existe mais. Usando essas placas como moldes, estudos antigos do fóssil utilizaram resina e outros compostos para produzir cópias do esqueleto, possibilitando o estudo de estruturas do organismo, mas sem a destruição delas.

Algumas dessas interpretações no passado, porém, estavam erradas ou não consideraram componentes tafonômicos do fóssil em questão (ou seja, que se relacionam aos eventos pós-morte do animal, mas antes da fossilização), explica Paul Barrett, pesquisador emérito do Museu de História Natural de Londres e autor sênior do estudo.

“Os chamados ‘répteis de Elgin’ [como originalmente chamados por Woodward] não são os esqueletos mais prístinos, completos ou com a melhor preservação, como aqueles vistos em exibição em museus. O uso de tomografia computadorizada revolucionou o estudo desses esqueletos de difícil identificação e permitiu reproduzir uma reconstrução muito mais detalhada e acurada de como esses animais eram no passado”, afirma o pesquisador.

Alguns desses detalhes que foram revelados são a cauda longa, a parte da frente do maxilar superior fina e longa (como em muitos pterossauros) e o corpo relativamente pequeno em relação ao tamanho da cabeça (algo que nos pterossauros atingiu níveis ainda maiores de crescimento da cabeça), todos indicando que o S. taylori é um animal que possui características tanto de pterossauros primitivos quanto de lagerpetídeos (o grupo-irmão dos pterossauros), explica o primeiro autor do estudo Davide Foffa.

“Além disso, os membros superiores e inferiores longos, mas sem apresentar os ‘braços’ mais longos que os membros inferiores, indicam que esse animal provavelmente tinha uma postura bípede, e não quadrúpede, como já foi sugerido para os animais considerados como ancestrais dos pterossauros”, diz.

Por muito tempo, a origem desses répteis voadores, considerados os precursores do voo nos vertebrados e até hoje os maiores seres alados que já existiram na Terra, era uma incógnita para os paleontólogos. Pesquisas recentes, incluindo uma liderada por cientistas brasileiros, revelaram que pequenos répteis que viviam em árvores e corriam em duas pernas eram os prováveis ancestrais do grupo — os chamados lagerpetídeos.

“A nova pesquisa possui um número razoável de evidências para colocar o S. taylori tanto na base dos lagerpetídeos, como um membro destes, quanto como um grupo-irmão [ou ‘primo’ distante] destes com os pterossauros”, completa Foffa.

Agora, o próximo passo para completar a “árvore evolutiva” dos pterossauros precisa de um pouco de sorte. Isso porque no período de cerca de 20 milhões de anos que separa o lagerpetídeo mais antigo conhecido dos fósseis de pterossauros propriamente ditos, já com corpos adaptados para o voo, ainda não foram encontrados fósseis considerados como intermediários ou “elos-perdidos”.

“O fóssil ancestral pode estar em qualquer lugar do mundo em rochas que datam de 240 a 220 milhões de anos, e encontrar esses espécimes é a ‘questão de um milhão de dólares'”, afirma o paleontólogo.

Para Barrett, a resposta para essa pergunta de ouro pode estar muito mais perto do que os cientistas imaginam. “Pode ser que o ancestral esteja em uma gaveta em alguma coleção científica por aí. É por isso que as coleções em museus são tão importantes, pois é somente por meio delas que podemos ter acesso a fósseis já conhecidos e, com o uso de técnicas inovadoras, fazer novas descobertas. Esse é o verdadeiro progresso da ciência”, diz.