Ernaux é considerada uma pioneira no estilo da autoficção (Foto: Reprodução)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – A vencedora do prêmio Nobel de Literatura deste ano foi a francesa Annie Ernaux, cuja leitura vem sendo alavancada por publicações cada vez mais populares como “O Lugar”, “Os Anos” e “O Acontecimento”.

A editora Fósforo publica a autora no Brasil desde o ano passado –a francesa integrava a primeira leva de publicações da editora, em maio de 202- e a trará ao país como a maior presença confirmada na Festa Literária Internacional de Paraty, no próximo mês.
Ernaux é considerada uma pioneira no estilo da autoficção, um tipo de literatura que se espraia cada vez mais pelo mundo e agora é consagrada pelo Nobel.

Seus livros contam histórias autobiográficas ao mesmo tempo em que refletem sobre o contexto social em que foram escritas -Ernaux era filha de um comerciante pobre na região rural da França e saiu de casa para estudar letras e se formar professora- e sobre o próprio processo de escrever memórias.

No discurso que anunciou a decisão, a Academia Sueca citou uma das mais famosas autodefinições da escritora, que costuma dizer que, em vez de autora de ficção, ela é uma “etnóloga de si mesma”, celebrando sua capacidade de misturar memória pessoal e coletiva.

A Mostra de Cinema de São Paulo também está prestes a apresentar uma outra vertente da autoficção de Ernaux, como cineasta. O documentário “Os Anos Super 8”, que ela dirigiu ao lado do filho David e foi exibido no Festival de Cannes, terá estreia oficial no país no evento, ainda este mês.

O portais de apostas mostravam, nos últimos dias, um panorama com os suspeitos de sempre, como o queniano Ngugi wa Thiong’o, a canadense Anne Carson, o japonês Haruki Murakami, o francês Michel Houellebecq e o anglo-indiano Salman Rushdie.
Outros nomes que vinham ascendendo eram o da guadalupense Maryse Condé e da americana Jamaica Kincaid. Uma destas duas, caso escolhida, seria apenas a segunda mulher na história a vencer o prêmio.

Os últimos anos foram marcados pelas habituais surpresas, com o comitê sueco escolhendo nomes que não eram aventados por quase ninguém e com pouca projeção no Brasil. A coisa muda de figura agora com Ernaux, a 17ª mulher premiada em mais de 120 anos de Nobel.

O tanzaniano Abdulrazak Gurnah, um expoente da literatura pós-colonial que começou a ser publicado no país no primeiro semestre com “Sobrevidas” na Companhia das Letras, era um completo desconhecido por aqui até então.

Em 2020, a poeta americana Louise Glück, também nunca editada por essas terras antes do Nobel, foi a encarregada de desbancar os favoritos da vez. Desde então a mesma editora publicou uma antologia robusta e o livro mais recente da escritora.

A escolhas desses autores menos polêmicos encerraram anos atribulados para a Academia Sueca, que viu um escândalo de assédio sexual derrubar seus membros, culminando na suspensão do prêmio de 2018. Em compensação, no ano seguinte foram eleitos dois vencedores, a polonesa Olga Tokarczuk e o austríaco Peter Handke.

A Academia seleciona desde 1901 o vencedor do Nobel de Literatura, numa iniciativa que, no começo, se voltava a promover a cultura escandinava -com algumas interrupções, o prêmio já laureou 119 pessoas. Hoje o escolhido ganha um prêmio de 10 milhões de coroas suecas, ou pouco menos de R$ 5 milhões.