Cientista da Fiocruz coleta amostras para investigar a presença de fungos na Antártida (Foto: Peter Ilicciev/CCS/Fiocruz)

Um grupo de cientistas da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) encontrou na Antártida a presença do fungo da histoplasmose, uma doença pulmonar, em fezes de pinguins e amostras de solo. Ainda não está claro como esse patógeno de presença conhecida em regiões tropicais foi se estabelecer lá, mas os pesquisadores já temem sua presença na região possa incubar epidemias.

As amostras infectadas pelo fungo Histoplasma capsulatum foram coletadas na última expedição da equipe pelo Programa Antártico Brasileiro (Proantar), estudadas com técnicas de análise genética e descritas em estudo na edição de outubro da revista Emerging Infectious Diseases, dos Centros de Prevenção e Controle de Doenças dos EUA.

A histoplasmose é uma doença que tem prognóstico variado, mas em alguns surtos pode ter casos graves, resultando em letalidade de até 40%. O fungo causador da doença não costuma ser encontrado em qualquer lugar, e os casos de infecção normalmente ocorrem em pessoas que visitaram cavernas ou em áreas com solo revirado, resultante de escavações ou perturbado por furacões e deslizamentos.

A preocupação dos cientistas com a Antártida é que, com o continente recebendo um número de visitantes cada vez maior, inclusive turistas, a possibilidade de a região exportar casos da dessa micose (infecção fúngica) aumenta.

“Essa descoberta realça a necessidade de vigilância para agentes emergentes de micoses sistêmicas e sua transmissão entre regiões, animais e humanos na Antártida”, escrevem os pesquisadores.

Os autores do trabalho, liderados pela micologista Luciana Trilles, da Fiocruz, já desconfiavam da presença de alguns fungos ali, por causa da presença de aves migratórias e pessoas no local. Por isso estavam fazendo triagem para o histoplasma e outros organismos.

Pesquisadores trabalham em meio a grupo de pinguins; fezes do animal testaram positivo para presença do fungo da histoplasmose — Foto: Peter Ilicciev/CCS/Fiocruz

— A minha surpresa maior não foi ter encontrado indícios de que o fungo está lá. O que surpreendeu mais foi a quantidade de amostras positivas — conta Trilles. — Nós trabalhamos em uma região geográfica pequena e encontramos o histoplasma em 25% das amostras.

O local que os cientistas escolheram para trabalhar foi uma área de proteção especial na Antártida localizada na península Potter, no sul da Ilha Rei George. O local é próximo à Estação Antártica Comandante Ferraz, a base brasileira na região. Ali coletaram 20 amostras, das quais cinco apareceram infectadas pelo fungo.

Para fazer a triagem do material os cientistas usaram uma técnica especial de PCR (reação de cadeia em polimerase), que serve para detectar vestígios de DNA do organismo. É uma técnica similar à usada para diagnóstico molecular de doenças, que não necessariamente encontra organismos vivos.

— Para saber se existe algum fungo dessa espécie lá que seja mais virulento, nós teríamos que isolar o fungo vivo, e isso a gente ainda não tem condições. Talvez no futuro próximo. Para fazer o isolamento desse fungo de amostras ambientais a gente precisa inocular em camundongos em um biotério com nível de biossegurança 3, o mais alto..

Explicar como um fungo que normalmente é encontrado em temperaturas de 18°C a 28°C está se espalhando na Antártida é um desafio especial para os cientistas. A suspeita maior é mesmo que o fungo esteja sendo transportado por aves marinhas. Não é possível ainda descartar, porém, que os culpados sejam os humanos ou que esse organismo venha de massas de solo congelado antigo que a mudança climática tratou de derreter agora.

 

O GLOBO