A pastora e ex-deputada federal Flordelis (Foto: Reprodução)

O primeiro dia de julgamento de Flordelis dos Santos Souza, nesta segunda-feira (7), foi marcado por comoção e revelações de contradições dos réus no Tribunal do Júri em Niterói, na região metropolitana do Rio de Janeiro.

A ex-deputada e pastora é acusada de ser a mandante do assassinato do marido, o pastor Anderson do Carmo. Ele foi morto a tiros na garagem da residência da família no bairro Pendotiba, também em Niterói, em 16 de junho de 2019. Ela nega todas as acusações.

A ex-deputada federal Flordelis aguarda o início de seu julgamento no Fórum de Niterói (RJ)
A ex-deputada federal Flordelis aguarda o início de seu julgamento no Fórum de Niterói (RJ) – Eduardo Anizelli/Folhapress

De uniforme do sistema penitenciário do Rio, camiseta branca e calça jeans, a pastora chegou ao fórum de Niterói pouco depois das 8h. Ao entrar no tribunal, Flordelis chorou ao ver os parentes, principalmente quando a mãe da ex-deputada, Carmozina Mota, se aproximou dos acusados.

Programada para começar às 9h, a sessão teve início somente às 11h, com o depoimento da delegada Bárbara Lomba, que conduziu a primeira investigação do caso.

Ao júri, ela afirmou que a investigação mostrou que a família não era coesa. “Foi perceptível depois do crime que havia já algumas pessoas mais revoltadas que queriam falar algo para a polícia”, disse.

Lomba relatou que nos depoimentos foi dito que Flordelis e Anderson tinham relações íntimas com os filhos adotados.

“Havia o casamento entre Anderson e Flordelis. Para a igreja deles e sociedade era um casamento tradicional. Mas os depoimentos desmontam algo que era passado de outra forma. Não havia o amor de pai e mãe, eles conviviam e as pessoas tinham relações com elas de cunho sexual”, afirmou.

O advogado Rodrigo Faucz, que representa a ex-deputada, rebateu as falas da delegada. “Essa foi uma das mentiras contadas para prejudicar a imagem de Flordelis que, no decorrer do processo, foi desacreditada até mesmo pela acusação. Como a acusação nunca teve provas sobre a participação de Flordelis no assassinato, utilizou outras questões que nada tinham a ver com o crime para impactar a opinião pública.”

Flordelis e Anderson eram conhecidos por terem adotado diversas crianças, sendo o próprio Anderson um dos primeiros acolhidos pela ex-deputada, quando tinha 15 anos de idade.

“Eles têm uma diferença de 16 anos de idade e conseguiram autorização para se casar quando Anderson tinha 17 anos. Essa situação, além da relação entre os adolescentes adotados, desagradava a Flávio, que saiu de casa para morar com a avó”, disse a delegada.

Sobre o casamento, a defesa disse que ocorreu quando Anderson tinha 21 anos, de acordo com certidão.

Flávio dos Santos Rodrigues, filho biológico de Flordelis, foi condenado a 29 anos de prisão pela morte do pastor. Além de ter confessado o homicídio do padrasto com 33 tiros, ele foi condenado por porte ilegal de arma de fogo de uso restrito.

O controle financeiro de Anderson e a rigidez com que mantinha a imagem da família teria sido o principal motivo para o crime, segundo a investigação.

A delegada disse também que Flordelis e Anderson contavam a todos que ambos tinham um filho biológico, identificado como Daniel dos Santos de Souza. No entanto, a investigação teria provado que a certidão de nascimento fora falsificada. A mãe biológica de Daniel foi localizada e disse que foi forçada pela família a doar a criança.

Depois de seis horas de oitiva de Lomba, o Tribunal do Júri ouviu o delegado Allan Duarte, responsável pela conclusão do inquérito.

Duarte também destacou as inconsistências nos depoimentos dos réus durante as investigações. Em determinado momento, foi apresentado um diálogo entre Flordelis e um dos filhos adotivos, André Luiz de Oliveira, em que ele se queixa com a mãe sobre não ter plano de saúde. Na conversa, Flordelis aproveita para pedir ajuda ao filho para dar um fim na situação em que viviam.

Para o delegado, o pedido se refere ao assassinato de Anderson: “Flordelis tem predileção pelo absurdo. Ela prefere matar o marido do que provocar um escândalo junto a igreja”, concluiu.

Duarte disse ainda que, segundo as investigações, Flordelis tentou matar o marido em maio de 2018, envenenando sua comida com arsênico e cianeto.

Além disso, afirmou também que a polícia que a ex-deputada chegou a tentar a contratação de pistoleiros para assassinar Anderson, mas sem sucesso. O delegado disse que o esquema envolvia a filha biológica de Flordelis, Simone dos Santos Rodrigues, e a neta Rayane dos Santos Oliveira.

Simone e Rayane também estão sendo julgadas, assim como os filhos adotivos da ex-deputada Marzy Teixeira da Silva e André Luiz de Oliveira. Por causa do número de réus, a expectativa é de que o julgamento ocorra por pelo menos mais dois dias.

À Folha, o advogado Faucz, que representa Flordelis, Marzy, André e Rayane, disse que a defesa vai apresentar ao júri dados da nuvem do celular do pastor Anderson do Carmo. O aparelho, no entanto, nunca foi encontrado.

Anderson tinha 42 anos quando foi assassinado na garagem de casa que morava com Flordelis e mais 35 filhos.

O inquérito sobre a morte do pastor foi concluído em agosto de 2020 com o indiciamento de Flordelis como mandante do crime. Outras dez pessoas foram indiciadas por suspeita de participação no crime, tentativa de fraudar provas e atrapalhar o andamento das investigações.

Flordelis, presa desde agosto do ano passado, é ré por suspeita de homicídio triplamente qualificado —por motivo torpe, emprego de meio cruel e de recurso que impossibilitou a defesa da vítima—, tentativa de homicídio, uso de documento falso e associação criminosa armada.

A terceira oitiva do dia foi com Regiane Ramos Rabello, ouvida na condição de informante, que diferente de testemunha, não tem a obrigação de falar a verdade. Regiane mostrou um documento diante do júri dizendo que se tratava de uma citação de um processo de injúria e difamação entregue a ela pela defesa de Flordelis dentro da sala de audiência nesta segunda (7).

“É uma família perigosa. Eu nem sei o que os netos dela podem fazer comigo quando eu sair daqui. Mas não posso me calar porque daqui a pouco estão me matando igual fizeram com o pastor”, disse.

Ela afirmou ainda que, após a prisão dos réus, jogaram bombas no quintal da casa dela. A reportagem não conseguiu falar com os advogados de Flordelis que se encontram no julgamento.

Regiane afirmou que os filhos biológicos e os primeiros adotados tinham privilégios como acesso a refeições diferenciadas dos demais filhos, que, segundo ela, eram tratados como empregados.

Regiane foi chefe de um dos filhos adotivos de Flordelis, Lucas Cezar dos Santos, em uma oficina mecânica. Ele está preso sob suspeita de ter conseguido a arma que matou o pastor.

Ela disse que Lucas era maltratado pela ex-deputada. “Ele não tinha sandália, andava sujo, maltrapilho, nunca teve um desodorante”.

Narrou ainda um episódio em que Lucas teria mostrado a ela uma conversa em que Flordelis pedia para o filho simular um assalto contra Anderson e em troca ele ficaria com relógios do pastor.

Regiane também disse que Lucas, já preso, disse para ela que Flordelis tinha pedido para assinar uma carta assumindo o crime. A pastora chegou a apresentar a correspondência à polícia. Meses depois, a investigação encontrou indícios de fraude na carta.

 

Folha