Me recuso. Me recuso a lembrar do senhor com lágrimas nos olhos, me recuso a entender sua ida como alguém que se conforma com a dor, me recuso a amar alguém mais do que te amo.



Quando ouvi as palavras mais duras em alto e bom som numa tarde alta e quente na capital do Pernambuco, aquelas frases prontas para me ferir como uma adaga que ainda está aqui apunhalada no meu coração, apenas me fizeram dizer que te amo.



Te amo te amo te amo



Pai 🤍



E aqueles que esperavam gritos de desespero, choro livre e dolorido, perguntas sobre os parâmetros vitais e estado clínico, também desviaram o foco dos monitores. Naquele momento chamei a atenção para o meu amor por você.



“Mais do que a morte é tão forte esse amor”



Foram dias intensos (ainda estão sendo). Sentia meu coração bater forte o dia todo, todos esses dias. Olhava o horizonte tão inédito daquele ângulo do apartamento e pensava “não deixa ele sofrer mais, não deixa. Se for pra sofrer mais, resolve do teu jeito”.



A dor do teu sofrimento, pai, foi o que mais me doeu na vida. Os tubos, seringas, os bips no ouvido, o gelo do ar condicionado sem o toque das nossas mãos. Tua morte não. Aliás, tua passagem não!



Tua morte nunca existiu e eu nunca vou deixar que exista…”a morte não é nada, eu apenas passei”. Como paira na minha mente! As vezes parece um mantra meio inconsciente! Que bom, né bolinha? Santo Agostinho tem me auxiliado até quando tô “no automático”.



Esperei por esse momento por quase 5 anos, a gente sabe. Soroteca. Tipagem sanguínea. Recife. João Pessoa. Pega pra Recife de novo. Cancela a audiência, hoje ele chegou mais cansado. “Já chegou em casa? Como foi hoje? Vem pra cá que fiz café”.



Eu só te amei e te amo tanto…mas é tanto que as vezes me pego lendo sobre números gigantes do universo (sabia que a via láctea tem 400 bilhões de estrelas, pai?”) e os sinto minúsculos diante da minha devoção por quem você é. Porque você não foi, não FOI.

Você É!



Aquele carro na nossa frente em Sapé com teu corpo sendo levado me fez participar dos teus “últimos” momentos. Sei que foi você, mesmo me pedindo pra ficar em casa, sei que queria que eu lembrasse das tuas mãos, tuas bochechas, da materialização da tua alma e eu lembrei naquela hora.



Foi um cortejo a sós. Nós dois. Eu te amo.



Você esperou eu comer, comer sanduíche e batata frita, empurrando com refrigerante pra descer o que humanamente não queria mas o teu rosto perguntando “comeu?” me tira do eixo e eu como até feijão, pai! Rs Até feijão por você. Quem sabe eu não como uma carninha também ou paro com essa mania de deixar comida no prato hein, gordo? Como eu te amo…



Nascemos em dias próximos. Acho que faltava isso, diz aí! Dia 1.11 você renasceu e dia 6 você me acordou com o barulho dos pingos de chuva na janela. Lembrei da copa do mundo d 94, da morte de Senna, da minha prematuridade e da luz vermelha durante alguns dias na Santa Clara, coisas que você não esquece.



Meu aniversário sempre teve importância pra mim porque antes, muito antes, pra você já era importante. Parecia mais importante do o que o seu, 18 de abril. Meu ariano teimoso, aventureiro e discreto. Te amo, pai.



E a numerologia? Ah, até os números estão apontando a nossa química…você diz que eu escrevo bem e sei fazer trocadilhos. Gostou desse? Leito 6, armário 6. Meu 6 de novembro às 06:30h.



Vim pro mundo pra te amar. As vezes me sinto vazia, sei que me espremi até a última gota por você. Te dei tudo. Quem sou, o que tinha. Você conheceu o melhor de mim. Meu amor mais puro, toda a minha capacidade de amar, mas muitas vezes, pai…



Sinto que te dei tudo, mas que tenho tudo aqui dentro. De novo e de novo. Pronto pra te entregar. Preciso te entregar minhas homenagens, minhas palavras, achei que nem teria mais o que dizer porque a dor me calou muitos dias.



Mas, o que somos um pro outro é diferente de tudo, pai. Quando eu era criança e deitava contigo pra ver tv, quando você me esperava pra almoçar comigo todos os dias, mesmo que eu chegasse muito tarde de João Pessoa, a tua dedicação de ficar na frente da escola me esperando no carro por horas e horas….ah e as roupas? Rs Quantas vezes escolhemos roupas juntos?



Tuas mãos macias nos meus pés, na minha cabeça. Minha cama arrumada para dormir, com o pijama dobradinho em cima do travesseiro. Até a regra de abrir os presentes de natal somente no dia de natal, mesmo que eu chorasse para abrir antes me fez feliz. Porque éramos nós dois.



Pensei em cortar o cabelo esses dias. Mas, lembrei da sua voz chegando de surpresa no salão e dizendo “tá bom aí…”. Não cortei, pai. É que eu te amo…





Meu gordinho, você passou sua vida terrena querendo me proteger do mundo. Eu sei, mesmo criança eu entendia isso. Via seu amor incondicional, seu olhar orgulhoso me vendo provar roupas novas, sua paciência em me dá comida na boca mesmo depois de “grande”. Suas ligações para saber se eu tinha comido, se eu tinha dormido. Seu conselho de trabalhar menos “não se acostume com isso, não se acostume a trabalhar esse tanto, você é só uma menina”.



Eu te amo, minha criança bochechuda! Meu ursinho de pelúcia! Esqueceram de colocar maturidade na gente! E esqueceram também que uma vida só é muito pouco para esse amor.



Mas, eu não esqueci.



Me espera.



Com todo o amor que pode existir nessa vida e nas outras mais,

sua menina.

 

Raissa Victória, colunista do Portal Nordeste 1.