Edifício-sede do Banco Central no Setor Bancário Norte, em lote doado pela Prefeitura de Brasília, em outubro de 1967

O mandato de dois diretores do Banco Central termina em fevereiro de 2023. O presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva (PT) poderá reconduzir os diretores ou escolher novos nomes.

Um deles ocupa um posto importante para o mercado financeiro: Bruno Serra, diretor de Política Monetária. A escolha do nome para essa cadeira é considerada um “teste” de Lula junto ao mercado financeiro por causa do perfil que ele pode escolher: um profissional do mercado financeiro; alguém de origem acadêmica; ou oriundo do setor público — por exemplo, de carreira do Banco Central.

A outra vaga, de Paulo Sérgio Neves de Souza, diretor de fiscalização, é considerada técnica e costuma ser ocupada por um funcionário de carreira no setor público. Souza fez carreira no BC.

Braço do BC no mercado financeiro. A diretoria de política monetária é “o braço” do BC no mercado financeiro, diz o economista Antonio Madeira, da consultoria LCA.

“Vai ser um teste importante, principalmente sobre o Bruno Serra. A diretoria dele tem um papel importante porque comanda as mesas do BC e a parte de administração de liquidez doméstica. E que faz com que a taxa de juros de curtíssimo prazo fique em torno da meta que o Copom define. A mesa dele também cuida do mercado cambial e administra reservas internacionais”, afirma,

Serra fez carreira no mercado financeiro, nos bancos Itaú Unibanco e BankBoston.

Transição. A escolha do indicado é do presidente da República. Os novos indicados passam por sabatina no Senado, que não é necessária em caso de recondução.

O BC e a equipe de Lula não comentam o assunto. A assessoria do petista informa: “Não existe nenhum nome anunciado para equipe de governo do presidente eleito Lula. Foram anunciados apenas nomes da transição”.

Quantos diretores o BC tem? O Banco Central tem oito diretores, ligados diretamente ao presidente, Roberto Campos Neto. Todos participam das reuniões do Copom (Comitê de Política Monetária). Caso novos nomes sejam indicados para as diretorias, eles passam a participar das reuniões depois de assumir o cargo.

Os diretores têm independência para atuar. Os mandatos de Serra e de Souza terminam em 28 de fevereiro de 2023, após quatro anos.

O que faz a diretoria de política monetária? Executa a política monetária deliberada CMN (Conselho Monetário Nacional), que define a meta de inflação e pelo Copom (Comitê de Política Monetária), que delibera a cada 45 dias como perseguir essa meta.

“Essa diretoria é responsável por executar uma das mais importantes ações do Banco Central, a operação da política monetária, que visa sobretudo cuidar dos preços do país e, assim, da capacidade da renda das pessoas para comprar bens e serviços —ou, como chamamos no ‘economês’, a renda real das pessoas”, diz Fábio Terra, professor de economia da UFABC (Universidade Federal do ABC) especializado em economia do setor público e finanças públicas.

“Essa taxa básica de juros vai dar o piso para as outras taxas de juros da economia. Quanto mais alta, mais caro vai ser o custo do crédito para pessoas e empresas”, diz Daniela Prates, economista sênior da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (Unctad). “Quando a inflação está acima da meta, o Banco Central aumenta a taxa de para que a economia desacelere e a demanda também.”

Perfis para o cargo. Os economistas que acompanham o Banco Central afirmam que não há “certo ou errado” na escolha para o cargo, mas que já ter atuado no mercado financeiro é um bônus.

Terra, da UFABC, diz que os perfis diferem em termos de conhecimentos operacional: “Quem vem da academia vai estar um pouco mais distante da operação prática do BC e da tesouraria bancária. Quem atua no mercado está mais próximo de como, na prática, os bancos tomam decisão de tesouraria; e um servidor de carreira conhece como o BC atua efetivamente, como vai operar alavancas”.

Para Prates, da Unctad, um diretor de política monetária precisa ter formação acadêmica sólida, especialização na área de economia monetária e financeira e conhecimento de economia aberta. “Pode ter passado pela academia, mas tem que entender da operacionalidade, de mercado financeiro, o que muitas vezes um acadêmico não entende por só conhecer a teoria”, afirma. Ela considera fundamental que o ocupante da vaga tenha passagem no mercado financeiro, “não necessariamente a Faria Lima, pode ser alguém que trabalhou na Caixa ou no Banco do Brasil”.

Para Madeira, da LCA, a tendência de Lula é buscar nomes no mercado financeiro.

“Independentemente, quando a pessoa assume o cargo e entra no corpo diretivo do Banco Central passa a contar com a assessoria do corpo técnico, o que faz com que o dia a dia seja rapidamente absorvido”, diz Terra, da UFABC.

Campos Neto fica no cargo até 2024. O presidente do BC, Roberto Campos Neto, indicado pelo presidente Jair Bolsonaro, fica no cargo até a 31 de dezembro de 2024. Ele assumiu a cadeira em 28 de fevereiro de 2019.

Os mandatos de outros dois diretores também terminam em 2023, mas apenas em 31 de dezembro: do diretor de relacionamento, cidadania e supervisão de conduta, Maurício Costa de Moura, que entrou em 26 de abril de 2018; e da diretora de assuntos internacionais e de gestão de riscos corporativos, Fernanda Guardado (desde 26 de julho de 2021 no cargo).

Em 31 de dezembro de 2024 terminam os mandatos da diretora de administração, Carolina de Assis Barros (desde 25 de abril de 2018); e do de regulação Otávio Ribeiro Damaso (assumiu em 23 de abril de 2015).

Já em 31 de dezembro de 2025 terminam os dos diretores de política econômica, Diogo Abry Guillen, e do de organização do sistema financeiro e de resolução, Renato Dias de Brito Gomes. Ambos assumiram em 27 de abril de 2022.

 

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