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Você me dizia que não gostava muito dessa época de final de ano porque se sentia nostálgico e reflexivo sobre os nossos que não estavam mais fisicamente conosco, eu lembro bem.

Aliás, nada sobre você eu consigo esquecer, pai. Eu continuo te vendo em tudo. Nas pessoas, nas coisas, “eu te vejo em todo canto, em todo olhar”. Os passarinhos cantando no pezinho de laranja que vejo da janela do meu quarto me lembram das nossas conversas infinitas…piadas, risadas, trocadilhos e conselhos, esses últimos eu tenho tentado captar nos sonhos e nos seus sinais. Tô conseguindo?

O Natal foi bom, bolinha. Não booommmm assim…você sabe. Mas, eu sobrevivi. Queria muito ter visto o especial de Roberto, seu programa preferido do ano, mas pela primeira vez fui tomada por um sono tão grande às 20h que só acordei na manhã seguinte. Quando abri os olhos, pensei logo “foi você me protegendo, né pai?”. É, eu também não sei como suportaria assistir sem você.

Estamos na última semana do ano, um ano que te devolveu a Deus e me deu uma dor grande, sei que você sabe que dói. Mas, pai…meu amor é infinitamente maior do que essa dor e por isso eu olho nossas fotos e dou um sorriso. Mesmo que por vezes algumas lágrimas escorram pelo meu rosto.

Eu sinto que você está bem e você já me mandou sinais de que me quer sorrindo, conquistando minhas coisinhas e me mantendo positiva. Eu sei que você sabe que tenho conseguido muito mais do que imaginávamos e tenho ficado em paz com isso.

Gordinho e o número do anjo? 172. Você nos falou sobre isso no sonho da última madrugada. Lembra que quando você falava em morte eu dizia sempre brincando “pois, dê um jeito de vir me dizer alguma coisa! Um sinal, que seja…” muitas vezes para mudar para um assunto mais leve? Tá vendo como serviu? Você tem vindo. E eu tenho me esforçado para interpretar tudo certinho.

Pai, esses dias têm me feito chorar. Mas, não fica achando que eu estou desesperada como quando recebi a notícia do seu estado gravíssimo. É diferente! Tenho chorado quando lembro dos nossos “anos novos” juntos na Serra. Você gostava de me ver de vestido sentada numa cadeirinha na calçada de casa comendo pipoca que você comprava e abria para mim todo satisfeito.

Prometo que vou repetir isso para imaginar teu sorriso aí em cima. Mesmo com meu jeito mais inquieto de ser, mesmo você dizendo que não sabia pra que tanta “brabeza” minha. No fundo eu só queria seu bem sempre e sei que você entendia os “puxões de orelha”.

As pessoas me chamam da “menina de João” ainda e eu quero que me chamem sempre assim porque eu não me imagino sem você um segundo sequer. Tenho aprendido também que quem ama o outro somente na presença física não ama de verdade e refletindo sobre isso eu percebi, um pouco mais, como meu amor por você é infinito! Nada nos separou. Continuamos juntos, agora mais do que nunca, meu anjinho intercessor. Eu te amo…

Tenho recebido mensagens ainda. E voltando ao assunto do final de ano na Serra da Raiz, eu tenho me recordado muito de nós dois andando de mãos dadas na praça toda iluminada por conta do Natal. Você esperava eu me arrumar e saíamos juntos, só nós dois.

Muitas vezes íamos andando até vó Vitória, sua mãe. Eu via a satisfação nos seus olhos de andar comigo de mãos dadas nas ruas e de visitar todo mundo comigo. Naquela época eu achava até repetitivo. Comprávamos pão recife nos bancos de feira, alfenim nas malas que vinham de Belém e você escolhia algum brinquedo pra mim que geralmente vinha acompanhado de sorvete de máquina, daqueles que você dizia que tinha gosto de pasta de dente. Fomos tão felizes…

Hoje eu lembro disso tudo e fico feliz, apesar dessa faca aqui que ainda tá apunhalada no meu peito, por saber que você se sentia satisfeito com a minha companhia e eu fui a pessoa mais sortuda por ter você.

Esses dias me desloquei para um sítio na zona rural e fiquei meio confusa na ida sem lembrar ao certo o caminho. Pensei em você, pai. Em como você sempre me faz sentir. Pra mim você sempre tinha um jeitinho. Sempre dava um jeito de me socorrer, de me proteger do mundo, de me salvar de toda e qualquer situação, sem julgamentos, só com seu amor. Me sinto exatamente igual, por isso falei mentalmente “me ajuda, bolinha. E agora?” e passou alguém me informando como chegar no destino. Você continua dando um jeitinho…

Já consigo abraçar tuas roupas sem gritar. Vejo como uma vitória e tanto! Sei que errei quando entrei no teu quarto pela primeira vez depois de tudo, me desculpa.

Fecho os olhos e te vejo sorrindo. Com essa carinha redondinha que eu acho a coisa mais linda do mundo, até consigo lembrar da sensação macia da tua mão segurando a minha. Ninguém consegue tirar isso de mim, viu?

Tenho pedido a Deus muitas festas, pai. Ai no ceú…todas para você participar. Eu sei que você não gostava muito de agitação, mas na copa do mundo eu desejei tanto que tivesse uma TV ai para você ver comigo, mesmo que de longe. Fiquei me perguntando se na final você torceria pra França ou pra Argentina e no meu coração, eu sabia. Chorei quando tio Gusto mandou uma mensagem pro seu chat do Facebook te perguntando isso “para quem você torceria?”, mas foi só de emoção mesmo. Amor de irmão me faz derreter…

Prometo que vou comer pão recife por nós dois. Também vou escolher alfenim em formato de boizinho e florzinha, como você fazia pra mim dizendo assim “tu já vai comer, menina?” Eu sou apressada, né pai? Sua calma sempre me ajudou a viver.

Não mudou. Não vai mudar. O meu amor por você transcende o meu próprio entendimento, meu amorzinho.

Fica atento ai que vou te enviar muitos beijinhos quando estiver comprando nossas coisinhas na festa de Nosso Senhor do Bom Fim, lá na serra. Nossa distância física não é nadinha perto do meu orgulho de andar pelas ruas da terrinha e ouvir alguém dizendo “lá vai a menina de João”.

Com todo o meu amor e mais um pouco, no último texto desse ano.

Raissa Victória, colunista do Portal Nordeste 1.